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retangulo

Outravia está mudando de casa, agora todos os textos no mesmo endereço…

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O que se segue demonstrará que a graça é um fenômeno comum e, até certo ponto, previsível. No entanto, dentro da estrutura conceitual da ciência convencional e da “lei natural”, a realidade da graça continuará a ser inexplicável. Permanecerá miraculosa e surpreendente.
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Saúde Mental
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Há vários aspectos da prática da psiquiatria que nunca param de me surpreender, assim como a muitos outros psiquiatras. Um deles é o fato de que nossos pacientes são surpreendentemente saudáveis mentalmente. …o que não sabemos é por que a neurose não é mais grave – por que um paciente ligeiramente neurótico não é gravemente neurótico, ou por que um paciente gravemente neurótico não é totalmente psicótico. Inevitavelmente encontramos um paciente que sofreu determinados traumas que produziram uma neurose, mas esses traumas são tão intensos que, no curso normal das coisas, a neurose deveria ser mais grave.
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Um bem-sucedido homem de negócios de 35 anos procurou me devido a uma neurose que só poderia ser descrita como leve. Ele era filho ilegítimo e, no início da infância, foi criado apenas pela mãe, surda-muda, nas favelas de Chicago. Quando tinha cinco anos, o Estado, acreditando que sua mãe não teria competência para criá-lo, tirou-o dela sem aviso ou explicações, colocando-o em uma sucessão de três lares adotivos, onde foi rotineiramente tratado de modo indigno e com uma total falta de atenção. Aos quinze anos, ficou parcialmente paralítico devido à ruptura de um aneurisma congênito em um dos vasos sangüíneos do cérebro. Aos dezesseis, deixou seus últimos pais adotivos e começou a viversozinho. Aos dezessete, previsivelmente, foi preso por um assalto particularmente cruel e sem motivo. Não recebeu nenhum tratamento psicológico na prisão.
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Ao ser liberado, após seis meses de tedioso confinemento, as autoridades lhe arranjaram um emprego como funcionário subalterno em uma empresa bastante comum. Nenhum psiquiatra ou assistente social no mundo teria previsto algo de bom para seu futuro. Contudo, em três anos, tornou-se o mais jovem chefe de departamento na história da empresa. Em cinco anos, depois de se casar com outra executiva, deixou o emprego, abriu seu próprio negócio e teve sucesso, tornando-se um homem relativamente rico. Quando começou a se tratar comigo, tornara-se, além disso, um pai amoroso e eficaz, um intelectual autodidata, um líder comunitário e um perfeito artista. Como, quando, por que e onde isso tudo aconteceu? Dentro dos conceitos comuns de causalidade, não sei. Juntos pudemos traçar com exatidão, dentro da estrutura usual de causa e efeito, os determinantes de sua leve neurose, e curá-lo. Mas não conseguimos nem de longe determinar as origens do seu sucesso imprevisível.
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Esse caso foi citado exatamente pela dramaticidade dos seus traumas observáveis e pela obviedade das circunstâncias do seu sucesso. Na grande maioria dos casos, os traumas da infância são bem mais sutis (embora em geral igualmente devastadores) e a evidência da saúde menos simples, mas o padrão é basicamente o mesmo. Por exemplo, é raro vermos pacientes que não sejam mais saudáveis mentalmente do que seus pais. Sabemos muito bem por que as pessoas têm desordens mentais. O que não sabemos é por que elas sobrevivem tão bem aos traumas de suas vidas. Sabemos exatamente por que algumas delas cometem suicídio. O que não sabemos, dentro dos conceitos comuns de causalidade, é por que outras não. Tudo que podemos dizer é que há uma força, cujo mecanismo não entendemos totalmente, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde mental, mesmo sob as condições mais adversas.
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Saúde Física
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Sabemos muito mais sobre as causas das doenças físicas do que sobre as da saúde física. Por exemplo, pergunte a qualquer médico o que causa a meningite meningocócica e a resposta imediata será: “O meningococo, é claro.” Contudo, há um problema. Se neste inverno eu coletasse material diariamente nas gargantas dos habitantes do vilarejo onde moro, descobriria que essa bactéria está presente em aproximadamente nove entre dez deles. Mas há muitos anos não é registrado nenhum caso de meningite meningocócica aqui, e provavelmente não haverá nenhum neste inverno. O que está acontecendo? A meningite meningocócica é uma doença relativamente rara, mas seu agente causador é bastante comum. Os médicos usam o conceito de resistência para explicar esse fenômeno, afirmando que o corpo possui uma série de defesas que impedem a invasão de suas cavidades pelo meningococo, assim como por vários outros organismos nocivos onipresentes. Sem dúvida isso é verdade; de fato sabemos muito sobre essas defesas e de como elas operam. Mas grandes questões continuam sem resposta. Enquanto algumas das pessoas deste país que morrerão de meningite meningocócica neste inverno estarão debilitadas ou terão uma história de baixa resistência, a maioria delas será de indivíduos anteriormente saudáveis sem deficiências conhecidas em seu sistemas imunológicos. Em certo nível, poderemos dizer com certeza que o meningococo foi a causa da sua morte, mas isto é claramente superficial. Em um nível mais profundo, não saberemos por que morreram. O máximo que poderemos dizer é que as forças que costumam proteger nossas vidas por alguma razão deixaram de operar nelas.
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Embora o conceito de resistência comumente seja aplicado às doenças infecciosas, como a meningite, de certo modo também pode ser aplicado a todas as doenças físicas; entretanto, no caso das doenças não-infecciosas, não sabemos quase nada sobre como a resistência funciona. Um indivíduo pode sofrer um único ataque relativamente leve de colite ulcerativa – uma desordem geralmente considerada psicossomática -, recuperar-se totalmente e nunca mais ter esse problema na vida. Outro pode sofrer repetidos ataques e se tornar cronicamente inválido devido à doença. Um terceiro pode manifestar a doença repentinamente e morrer do primeiro ataque. A moléstia parece ser a mesma, mas o resultado é totalmente diferente. Por quê? Não sabemos. Só podemos dizer que indivíduos com um certo padrão de personalidade parecem ter diferentes tipos de dificuldades para resistir à desordem, enquanto a grande maioria de nós não tem dificuldade alguma. Como isso pode acontecer? Também não sabemos. Essas perguntas podem ser feitas sobre quase todas as doenças, inclusive as mais comuns, como ataques cardíacos, derrames, cânceres, úlceras pépticas e outras. Um número crescente de pensadores está começando a sugerir que quase todas as desordens são psicossomáticas – que a psique está de algum modo envolvida nas várias falhas do sistema imunológico. Mas o fato surpreendente não é que o sistema imunológico falhe, mas sim que ele funcione tão bem. No curso normal das coisas deveríamos ser devorados vivos pelas bactérias, consumidos pelo câncer, entupidos por gorduras e coágulos, corroídos por ácidos. Adoecer e morrer não é surpresa; o que é realmente digno de nota é que em geral não adoecemos com muita freqüência e demoramos a morrer. Portanto, podemos dizer sobre as desordens físicas o mesmo que dissemos sobre as desordens mentais. Há uma força, cujo mecanismo não entendemos bem, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde física, mesmo sob as condições mais adversas.
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Saude em acidentes?
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A questão dos acidentes levanta questionamentos ainda mais interessantes. Muitos médicos e a maioria dos psiquiatras tiveram a experiência de encarar o fenômeno da tendência a acidentes. Entre os muitos exemplos em minha carreira o mais dramático foi o de um garoto de quatorze anos que fui ver como parte de sua admissão em um centro de tratamento residencial para jovens delinqüentes. Sua mãe morrera em novembro do seu oitavo ano. Em novembro do seu nono ano, ele caiu de uma escada e fraturou o úmero (braço). Em novembro do seu décimo ano, acidentou-se em uma bicicleta e teve uma fratura de crânio e uma concussão grave. Em novembro do seu décimo primeiro ano, caiu de uma clarabóia e fraturou o quadril. Em novembro do seu décimo segundo ano, caiu do skate e fraturou o pulso. Em novembro do seu décimo terceiro ano, foi atropelado por um carro e fraturou a bacia. Ninguém duvidaria de que ele realmente tinha uma tendência a acidentes, nem das razões disso. Mas como os acidentes aconteciam? O garoto não se machucava propositadamente. Tampouco tinha consciência da sua tristeza pela morte da mãe. Ele me disse calmamente que “se esquecera totalmente dela”. Para começar a entender como esses acidentes aconteciam, acho que precisamos aplicar o conceito de resistência ao fenômeno dos acidentes, assim como ao fenômeno da doença – pensar em termos de resistência a acidentes assim como em tendência a acidentes. Não é que certas pessoas em determinados momentos de suas vidas simplesmente tendam a se acidentar; ocorre também que, normalmente, a maioria de nós tem resistência a acidentes.
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Em um dia de inverno, quando eu tinha nove anos e carrega, vã meus livros escolares por uma rua cheia de neve, escorreguei e caí. Um carro que se aproximava rapidamente freou e parou. Minha cabeça ficou na mesma altura dos pára-lamas dianteiros, e meti corpo embaixo do carro. Saí de baixo do carro e corri para casa em pânico, mas ileso. Esse acidente em si não parece tão notável; pode-se simplesmente dizer que tive sorte. Mas consideremos todas as vezes em que por pouco não fui atingido por carros enquanto caminhava, andava de bicicleta ou dirigia; as vezes em que, na direção de um carro, quase atropelei pedestres ou ciclistas no escuro; nos momentos em que pisei no freio e parei a centímetros de outro veículo; quando, ao esquiar, por um triz não bati em árvores; as vezes em que quase despenquei de janelas ou quando um bastão de golfe quase acertou minha cabeça, e assim por diante. O que é isso? Será que levo uma “vida encantada”? Se os leitores examinarem suas próprias vidas, creio que a maioria acabará descobrindo que o número de acidentes que quase aconteceram com eles é maior do que o dos que realmente aconteceram. Além disso, acredito que os leitores reconhecerão que seus padrões de sobrevivência – de resistência a acidentes – não resultam de um processo decisório consciente. Será que a maioria de nós leva “vidas encantadas”? Será verdade o verso da canção “Foi a graça que me trouxe em segurança até aqui”?
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Alguns podem achar que não ha nada de excitante nisso tudo, que todas as coisas sobre as quais estivemos falando são apenas manifestações do instinto de sobrevivência. Mas dar nome a alguma coisa explica o que ela é? O faio de termos um instinto de sobrevivência parece banal porque nós o chamamos de instinto? Nosso entendimento das origens e dos mecanismos instintivos é, na melhor das hipóteses, minúsculo. Na verdade, a questão dos acidentes sugere que nossa tendência a sobreviver pode ser algo além e até mesmo mais miraculoso do que um instinto – um fenômeno em si já bastante miraculoso. Embora não entendamos quase nada sobre os instintos, realmente os concebemos operando dentro dos limites do indivíduo que os possui. Podemos imaginar a resistência às desordens mentais ou físicas na mente consciente ou nos processos físicos do indivíduo. Contudo, os acidentes envolvem interações entre indivíduos, ou entre indivíduos e coisas inanimadas. As rodas daquele carro não passaram por cima de mim quando eu tinha nove anos devido ao meu instinto de sobrevivência, ou por que o motorista tinha uma resistência instintiva a me matar? Talvez tenhamos um instinto que preservei não apenas as nossas próprias vidas, mas também a vida dos outros
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Embora eu não tenha experimentado isso pessoalmente, tive vários amigos que testemunharam acidentes em que as “vítimas” se arrastaram praticamente intactas para fora de veículos total, mente destruídos. A reação deles foi de pura estupefação. “Não entendo como alguém poderia ter sobrevivido a um acidente desses, muito menos sem nenhum ferimento grave!”, dizem. Como podemos explicar isso? Puro acaso? Esses amigos, que não são pessoas religiosas, ficaram impressionados exatamente porque o acaso não parecia estar envolvido nesses incidentes. “Ninguém poderia ter sobrevivido”, garantem. Embora não sejam religiosos, e nem mesmo tenham refletido sobre o que diziam ao tentar digerir essas experiências, meus amigos fizeram comentários como: “Bem, acho que Deus ama os bêbados” ou “Acho que ainda não era sua hora”. O leitor pode escolher entre considerar o mistério desses incidentes “puro acaso” ou um “capricho do destino”, e assim evitar maiores reflexões. Mas um exame mais atento revela que nosso conceito de instinto não consegue explicá-los satisfatoriamente. Um veículo motorizado inanimado possui um instinto de se deformar no instante do impacto para preservar os contornos do corpo humano preso em seu interior? Ou o ser humano possui um instinto de, no momento da colisão, adaptar seus contornos ao padrão do veículo deformado? Essas perguntas parecem intrinsecamente absurdas. Embora eu prefira continuar explorando a possibilidade de explicar esses incidentes, está claro que nosso conceito tradicional de instinto não me será muito útil. Talvez o conceito de sincronicidade seja mais…
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck
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Veja também A Graça falando no programa do Jô

Legião Urbana – Perfeição

Mais estupidez humana aqui com Arnaldo Antunes

Adélia Prado me ensina pedagogia. Diz ela: “Não quero faca nem queijo; quero é fome”. O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…
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Sugeri, faz muitos anos, que, para se entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros bem que podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias… Se vocês, por acaso, ainda não as conhecem, tratem de conhecê-las: a Babette, no filme “A Festa de Babette”, e a Tita, em “Como Água para Chocolate”. Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não começam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome…
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Quando vivi nos Estados Unidos, minha família e eu visitávamos, vez por outra, uma parenta distante, nascida na Alemanha. Seus hábitos germânicos eram rígidos e implacáveis.
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Não admitia que uma criança se recusasse a comer a comida que era servida. Meus dois filhos, meninos, movidos pelo medo, comiam em silêncio. Mas eu me lembro de uma vez em que, voltando para casa, foi preciso parar o carro para que vomitassem. Sem fome, o corpo se recusa a comer. Forçado, ele vomita.
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Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim “affetare”, quer dizer “ir atrás”. É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.
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Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde morava, havia uma casa com um pomar enorme que eu devorava com os olhos, olhando sobre o muro. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia.
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Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas frutinhas vermelhas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las.
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E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar. Anote isso: o pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo.
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Se eu não tivesse visto e desejado as ditas frutinhas, minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine se a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes sobre o muro, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das ditas frutinhas, as pitangas. Nesse caso, também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho, sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Anote isso também: se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido perguntas.
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Provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar me fez uma primeira sugestão, criminosa. “Pule o muro à noite e roube as pitangas.” Furto, fruto, tão próximos… Sim, de fato era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo. E se eu fosse pilhado no momento do meu furto? Assim, rejeitei o pensamento criminoso, pelo seu perigo.
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Mas o desejo continuou e minha máquina de pensar tratou de encontrar outra solução: “Construa uma maquineta de roubar pitangas”. McLuhan nos ensinou que todos os meios técnicos são extensões do corpo. Bicicletas são extensões das pernas, óculos são extensões dos olhos, facas são extensões das unhas.
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Uma maquineta de roubar pitangas teria de ser uma extensão do braço. Um braço comprido, com cerca de dois metros. Peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu, sem uma mão, seria inútil: as pitangas cairiam.
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Achei uma lata de massa de tomates vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E lhe fiz um dente, que funcionasse como um dedo que segura a fruta. Feita a minha máquina, apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo. Anote isso também: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo.
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Imagine agora se eu, mudando-me para um apartamento no Rio de Janeiro, tivesse a idéia de ensinar ao menino meu vizinho a arte de fabricar maquinetas de roubar pitangas. Ele me olharia com desinteresse e pensaria que eu estava louco. No prédio, não havia pitangas para serem roubadas. A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. E anote isso também: conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido.
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Dizia Miguel de Unamuno: “Saber por saber: isso é inumano…” A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome… Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, ele acabará por fazer uma maquineta de roubá-los. Toda tese acadêmica deveria ser isso: uma maquineta de roubar o objeto que se deseja…
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Rubem Alves

Então, por que você não quer defender o Cristianismo?
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- perguntou ele, confuso. Eu disse a ele que já não sabia o que o termo significava. Das centenas de milhares de pessoas que ouviam o programa naquele dia, algumas tinham tido experiências terríveis com o Cristianismo; elas talvez tenham ouvido gritos do seu professor em uma escola cristã, tinham sido assediadas por um ministro ou humilhadas por um pai cristão. Para elas o termo Cristianismo significava algo que nenhum cristão que eu conhecia iria defender. Fortalecendo o termo, eu estava apenas as deixando ainda com mais raiva. Eu não faria isso. Aborde dez pessoas na rua e pergunte a elas no que elas pensam quando ouvem a palavra Cristianismo e elas darão a você dez respostas diferentes. Como posso defender um termo que significa dez coisas diferentes para dez pessoas diferentes? Eu disse ao entrevistador do programa de rádio que preferiria falar sobre Jesus e sobre como passei a acreditar que ele existe e que gosta de mim. O entrevistador olhou para mim com lágrimas nos olhos. Quando nós tínhamos terminado, ele me convidou para almoçar.”
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Veja tbm Pinguins e Deus I e II
Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller
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Veja também A Graça falando no programa do Jô


Desculpe
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Obrigado pela atenção e paciência :)


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A regra para todos nós é perfeitamente simples. Não fique aí perdendo o seu tempo para pensar se “ama” ou não o seu próximo; aja como se você já o amasse. Pois, assim que fazemos isso, acabamos descobrindo um dos maiores segredos da vida. Quando você age como se amasse alguém, acaba por amá-lo de verdade. Se você ofende alguém de quem não gosta, acaba gostando dele muito menos ainda. Se você lhe der uma boa resposta, vai desgostar menos dele. É claro que existe uma exceção a essa regra. Se você lhe der uma resposta gentil, não para agradar a Deus e obedecer à regra da caridade, mas para lhe provar que é um cara legal e capaz de perdoar, colocando-o em dívida com você, e depois sentar-se e esperar que ele demonstre sua “gratidão”, provavelmente acabará ficando desapontado. (As pessoas não sob bobas; elas detestam qualquer tipo de exibição ou tentativa de autopromoção.) Mas sempre que fazemos o bem a outro ser humano só porque se trata de outro ser humano criado por Deus (como nós mesmos), desejando a felicidade dele da mesma forma que desejamos a nossa, é provável que tenhamos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, pelo menos, a desgostar dele um pouco menos.
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C.S. LEWIS no livro “Cristianismo Puro e Simples” o mesmo autor do livro transformado em filme “As Crónicas de Narnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

Viviane Mosé

Veja um video-poema… de parte deste poema

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina

sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

Poemas do livro Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso.

Encontros são milagres ou são macumbas — milagres quando os sentimos bons, e macumbas quando os sentimos maus.

Quase ninguém pensa no milagre do encontro. Entretanto, num mundo imenso para nós, cada vez maior nas quantidades, cada vez menor nos espaços, em meio a tantos bilhões de variáveis, nas quais átimos de volição ou impulso podem mudar montanhas ou fazê-las sumirem na cratera do esquecimento ou da não-percepção.

Um encontro errado, uma pessoa errada, uma iniciação errada, um amigo errado, um dia mal, uma decisão equivocada, uma conseqüência inapelável, uma existência convertida em outra, um outro sentir, um outro ver-se a si mesmo, um outro ver-se no olhar dos outros, uma outra definição de si mesmo perante o mundo, uma outra postura, talvez agressiva, talvez passiva; enfim… — um outro produto humano como variável de uma matriz original de infindas alternativas.

A liberdade do homem reside na sua ignorância das infindas alternativas.

O homem é livre de saber, pois, saber lhe seria a angustia insuportável tomando-o por todos os lados.

Quando eu era menino deseja conhecer um ladrão. Aí pelos meus sete anos apareceu um ladrão roubando no escritório de meu pai; à época advogado.

Papai havia me dito que se pegassem o larapio eu iria conhecer um ladrão.

Pegaram-no. Nós fomos. Era um domingo à tarde. À porta do escritório meu pai pediu que eu esperasse no carro. Ele queria sondar o terreno. Minutos depois voltou lívido. Disse-me que o ladrão ficaria para outro dia…

Não aceitei. Ele sempre mantinha a palavra.

Então ele me disse que não me levaria até lá, mas que me diria quem era; tão somente eu guardasse segredo para sempre. Prometi. Ele sabia que eu guardava. Ele me treinara e educara para isso também.

— Meu filho, o ladrão é nosso amigo. É filho de minha comadre. É seu amigo de bola e de estádio aos domingos. É o fulano… Mas para que ele não fique envergonhado de saber que você sabe, não iremos lá; e você nunca o deixará saber que sabe; e vai tratá-lo como se não soubesse. Não é ladrão; apenas roubou.

Mas e se a atitude de papai fosse outra; e se divulgasse; e se chamasse a polícia; e se me deixasse ver; e se… — o que teria sido do moço; ou de mim; ou de todos nós? Uma resvalada; e tudo muda para sempre.

Uma pessoa toma uma decisão de visitar amigos, gosta do lugar, muda para lá, e encontra alguém que muda a sua vida. Mas o que a tirou de casa foi uma delicadeza para com um amigo que insistia e pedia uma visita.

Uma disputa entre amigos em razão de uma banalidade faz um rapaz e uma moça se encontrarem, e, mesmo sem amor para tal, casarem-se. E suas vidas nunca mais poderem ser outra coisa.

Um encontro. Um ato impensado. Um filho. E um destino radicalmente alterado.

Uma decisão: “Desço ou não do ônibus aqui nesta parada?” — e a vida da pessoa pode mudar para sempre; pois, nesta hipótese, a mulher que desce do ônibus tropeça na descida, e cai nos braços de um homem que a ampara daí pra sempre.

Assim, um dia, saberemos por quantos atos milagrosos fomos feitos e fomos salvos.

Entretanto, é bom se veja e que se busque entender cada instante-milagre que nos acomete.

Um segundo a mais… — e ele, ela, teriam virado a esquina para além do alcance de nosso olhar…

Tudo é co-incidência: incide junto.


Quase tudo em nossa vida é feito de “acasos” carregados de “desígnios”; e se desígnios não tivessem, mistério, todavia, não lhes faltaria; pois é como é possível que um segundo antes ou depois nos roubassem a oportunidade daquilo que passou a ser o resto-todo de nossas existências?

Assim, encontro é milagre, até quando é um mijagre.

Pense nisso!
Caio
Fonte Caiofabio.com
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Uma filme que tenha tudo haver com este texto? Veja “Não por Acaso” Imperdível!!!

Já passa de 12 anos que Marcelo conversa, sem parar, com pessoas de todos os tipos. Faz parte da sua rotina, e além de tudo é algo que lhe dá prazer. Escuta com paciência, anota os trechos mais importantes, espera a deixa correta e fala. Muito, por sinal. Sempre com o mesmo tom de voz, com olhar de amigo, gesticulando de forma animada. Afinal, ele é médico e está lá com os ouvidos atentos e a verve inspirada para ajudar, cuidar. Precisa ser franco o tempo todo, e assim o é com apenas uma exceção.
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Um assunto que ele menciona para poucos (“porque poucos entendem”, como ele diz), mas que percebe em todos: as pessoas se apegam às suas próprias aflições. E olhe que ele não está falando de doenças ou sintomas físicos, mas de um modo de viver a vida em desarmonia e criar repetidas vezes problemas e inquietudes. Foi isso que ele me mostrou, sobre mim mesmo.
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Estava lá na minha ficha, pude conferir, estupefato. Após oito anos de consultas, retornos, abandonos, freqüências e tratamentos, eu voltava ao consultório para repetir as queixas. Uma dor aqui, outra acolá, todas causadas pelo mesmo jeito de viver. Pelo jeito que criei ou, até, pelo jeito que eu sou – e isso é difícil de admitir.
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Ao olhar suas anotações, cheias de frases que pontuaram minhas consultas, percebi que não havia remédio que pudesse melhorar minhas dores, a não ser eu mesmo. Mas por quais motivos criara um modus vivendi que me trazia preocupações, dores, ansiedade? Isso veio ao encontro de muitas leituras que fiz para esta reportagem, e a resposta me atingiu em cheio, dando nó nas entranhas.
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“Todos temos uma propensão a nos auto-enganar. Ela reside na capacidade que temos de sentir e de acreditar de boa-fé que somos o que não somos”, diz Eduardo Gianetti em Auto-engano. Ou, em outras palavras, podemos muitas vezes buscar mudanças e até o autoconhecimento, sem nunca arredar pé da estaca zero.
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Conhecer a si mesmo exigiria um pouco de isenção, para não dizer humildade, para ver nossos defeitos. E depois muita vontade para mudá-los. “Vontade para viver bem”, como disse o médico Marcelo Jovchelevich.
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Nesse momento, lembrei-me da teoria de uma pessoa que considero de bem com a vida, o precursor da ioga no Brasil, professor Hermógenes, que inventou o termo “egoesclerose”. Dessa forma ele classifica como “iludidas” as pessoas que se vêem muito acima do que são.
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E isso é preciso ser dito, caro leitor. Se você vai pesquisar a si mesmo, pode ser que se dê conta de comportamentos e vícios emocionais que não lhe agradem. Eu com certeza não gostei de muitos insights que tive durante a pesquisa desse assunto. Tanta coisa nada bacana em mim, bem diferente do que eu projetava no espelho, do que via de cima do pedestal. A boa nova lhe falo pessoalmente, sem recorrer a experts: tropeçar nesses entraves me trouxe mais para o chão, e a vida ficou mais real.
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Com muito mais poesia e sabedoria, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) deixou registrado, em seu clássico Além do Bem e do Mal, um consolo para esses momentos de descoberta: “Quando a alma jovem, martirizada por puras desilusões, finalmente se volta desconfiada sobre si mesma (…), como se enraivece então, como se vinga por sua demorada auto-obcecação, com se ela tivesse sido uma cegueira voluntária! (…) Nessa transição (…) compreendemos que tudo isso era ainda juventude!” Ou seja, muita calma nessa hora! A palavra maturidade, não importa o número de velinhas que sopre em seu aniversário, ajuda na exploração interior.
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“Identificar quais emoções tentamos esconder por trás das máscaras, como vergonha, medo, orgulho, é o primeiro passo”, diz Maria das Graças. “Quando descobrir algo, trabalhe a questão sem pressa. Não se trata de passar de ano, é seu processo de reforma, de encontro. Faça no seu ritmo”, orienta a psicóloga.
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trecho de “Afinal, quem é você?”, texto publicado na revista Vida Simples.
colaboração: Judith Almeida
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Fonte PavaBlog
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Este texto me lembrou uma música da Alanis Morissette “excuses” veja o vídeo-tradução

Gosto da cena do filme “Sociedade dos poetas mortos” em que o Sr. Keating, um professor de inglês de uma escola preparatória de elite, pede a seus alunos que arranquem o ensaio “Introdução à poesia” de seus livros de literatura. O ensaísta tinha ensinado à turma um método de classificar poemas em uma escola deslizante, com a utilização de uma grade, dessa forma reduzindo a arte para o coração a uma aritmética para a cabeça. Os alunos olham uns para os outros confusos, enquanto seu professor descarta o ensaio porá acha-lo uma besteira, e ordena que eles arranquem aquelas páginas dos seus livros. Com o estímulo do professor, os alunos então começam a livrar-se daquelas páginas. O Dr. Keating passa pelos corredores com uma lata de lixo e lembra aos alunos que poesia não é álgebra para que seja classificada e m uma escala de um a dez; ele lhes diz que poesias são obras de arte que atingem o fundo do coração para injetar vigor aos homens e para persuadir as mulheres.
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Uma parcela grande demais do nosso tempo é gasta tentando classificar Deus em uma tabela, ao passo que muito pouco tempo é gasto no empenho de permitirmos que nossos corações sintam reverência. Reduzindo a espiritualidade cristã a uma fórmula, nós privamos nossos corações de maravilharem-se.
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Quando penso sobre a complexidade da trindade, O Deus três-em-um, minha mente não consegue compreender, mas meu coração se maravilha em enorme satisfação. É como se meu coração, em meio a sua euforia, estivesse dizendo à minha mente: “Há coisa que você não pode entender – e você precisa aprender a conviver com isso. Aliás, você não precisa apenas aprender a conviver com isso, você precisa aprender a gostar disso”.
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Quero dizer algo sobre mim que talvez vocês considerem uma fraqueza. Preciso do encanto. Sei que a morte esta vindo. Eu a cheiro no vento, eu a leio nos jornais, a vejo na Tv e nos rostos dos velhos. Preciso do encanto para explicar o que ira acontecer comigo, o que irá acontecer conosco quando isto aqui acabar, quando nosso turno terminar e os filhos dos nossos filhos ainda estiverem na Terra ouvindo sua música rap enlouquecida. Preciso de algo misterioso aconteça depois que eu morrer. Preciso estar em algum outro lugar depois de morrer, em algum lugar com Deus, em algum lugar que não faça sentido se explicado para mim agora.
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No final do dia, quando estou deitado na cama e sei que a possibilidade da nossa teologia estar absolutamente certa é de uma em um milhão, preciso saber que Deus pensou nas coisas, que, se minha matemática estiver errada, ainda sim tudo dará certo. E maravilhar-se é experimentar essa sensação que temos quando abandonamos nossas respostas bobas, nossas regras mapeadas que queremos que Deus obedeça. Não acho que haja adoração maio que o deslumbramento.
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Veja tbm Pinguins e Deus I
Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
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Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.
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Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.
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Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.
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Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
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Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.
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Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o hino… Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
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Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
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E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.
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A música acontece no silêncio.

É preciso que todos os ruídos cessem.
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No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou.
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A alma é uma catedral submersa.
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No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada.
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Somos todos olhos e ouvidos.
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Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala.
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Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
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Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.
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Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
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Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
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Rubem Alves

-Sim. Nós comíamos chocolate, fumávamos cigarro e líamos a Bíblia, que é a única forma de fazer isso,s e vc quer saber. Don, a Bíblia cai muito bem com chocolate. Eu sempre tinha achado que a Bíblia era mais salada, sabe, mas não é. É chocolate. Nós começamos lendo Mateus, e eu achei tudo muito interessante. e eu achei Jesus muito perturbador, muito direto. Ele não era diplomático, mas tive a impressão de que, se eu o conhecesse, ele realmente gostaria de mim. Don, eu não consigo explicar como isso era libertador – entender que, se conhecesse Jesus, ele gostaria de mim. Eu nunca tinha sentido isso com alguns cristãos no rádio. Eu pensei que, se conhecesse aquelas pessoas, elas fariam uma careta para mim. Mas não foi assim com Jesus. Havia pessoas que ele amava e pessoas com as quais ele realmente ficava louco e eu continuava a me identificar com as pessoas que ele amava. E isso era realmente bom, porque todas elas eram partidas – sabe? Todas cansadas da vida, querendo acabar com tudo; ou ainda pessoas desesperadas, pessoas que são párias ou pagãs. Havia outras, pessoas comuns, mas ele não escolhia favoritos, o que é em si miraculoso. E esta, por si só, ja deve ter sido a coisa mais milagrosa que ele fez; ele não demonstrava parcialidade, o que todo ser humano faz.
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Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller

A escolha de uma profissão é o primeiro calvário de todo adolescente. Muitos tios, pais e orientadores vocacionais acabam recomendando “fazer o que se gosta”, um conselho confuso e equivocado.
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Empresas pagam a profissionais para fazer o que a comunidade acha importante ser feito, não aquilo que os funcionários gostariam de fazer, que normalmente é jogar futebol, ler um livro ou tomar chope na praia.
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Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente com o que a sociedade acha importante ser feito. Mas, aí, quem tiraria o lixo, algo necessário, mas que ninguém quer fazer?
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Muitos jovens sonham trabalhar no terceiro setor porque é o que gostariam de fazer. Toda semana recebo jovens que querem trabalhar em minha consultoria num projeto social. “Quero ajudar os outros, não quero participar desse capitalismo selvagem.” Nesses casos, peço que deixem comigo os sapatos e as meias e voltem para conversar em uma semana.
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É uma arrogância intelectual que se ensina nas universidades brasileiras e um insulto aos sapateiros e aos trabalhadores dizer que eles não ajudam os outros. A maioria das pessoas que ajudam os outros o faz de graça.
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As coisas que realmente gosto de fazer, como jogar tênis, velejar e organizar o Prêmio Bem Eficiente, eu faço de graça. O “ócio criativo”, o sonho brasileiro de receber um salário para “fazer o que se gosta”, somente é alcançado por alguns professores felizardos de filosofia que podem ler o que gostam em tempo integral.
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O que seria de nós se ninguém produzisse sapatos e meias, só porque alguns membros da sociedade só querem “fazer o que gostam”? Pediatras e obstetras atendem às 2 da manhã. Médicos e enfermeiras atendem aos sábados e domingos não porque gostam, mas porque isso tem de ser feito.
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Empresas, hospitais, entidades beneficentes estão aí para fazer o que é preciso ser feito, aos sábados, domingos e feriados. Eu respeito muito mais os altruístas que fazem aquilo que tem de ser feito do que os egoístas que só querem “fazer o que gostam”.
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Então teremos de trabalhar em algo que odiamos, condenados a uma vida profissional chata e opressiva? Existe um final feliz. A saída para esse dilema é aprender a gostar do que você faz. E isso é mais fácil do que se pensa. Basta fazer seu trabalho com esmero, bem feito. Curta o prazer da excelência, o prazer estético da qualidade e da perfeição.
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Aliás, isso não é um conselho simplesmente profissional, é um conselho de vida. Se algo vale a pena ser feito na vida, vale a pena ser bem feito. Viva com esse objetivo. Você poderá não ficar rico, mas será feliz. Provavelmente, nada lhe faltará, porque se paga melhor àqueles que fazem o trabalho bem feito do que àqueles que fazem o mínimo necessário.
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Se quiser procurar algo, descubra suas habilidades naturais, que permitirão que realize seu trabalho com distinção e o colocarão à frente dos demais. Muitos profissionais odeiam o que fazem porque não se prepararam adequadamente, não estudaram o suficiente, não sabem fazer aquilo que gostam, e aí odeiam o que fazem mal feito.
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Sempre fui um perfeccionista. Fiz muitas coisas chatas na vida, mas sempre fiz questão de fazê-las bem feitas. Sou até criticado por isso, porque demoro demais, vivo brigando com quem é incompetente, reescrevo estes artigos umas quarenta vezes para o desespero de meus editores, sou superexigente comigo e com os outros.
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Hoje, percebo que foi esse perfeccionismo que me permitiu sobreviver à chatice da vida, que me fez gostar das coisas chatas que tenho de fazer.
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Se você não gosta de seu trabalho, tente fazê-lo bem feito. Seja o melhor em sua área, destaque-se pela precisão. Você será aplaudido, valorizado, procurado, e outras portas se abrirão. Começará a ser até criativo, inventando coisa nova, e isso é um raro prazer.
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Faça seu trabalho mal feito e você odiará o que faz, odiando a sua empresa, seu patrão, seus colegas, seu país e a si mesmo.

Stephen Kanitz

Amor e morte, cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não-ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o carater supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros…
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… não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas nos estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.
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Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual grande incógnita da equação do outro. É isso que faz o amo parece um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas , em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível. Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade do ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor. “A satisfação no amor individual não pode ser atingida… sem humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeira”, afirma Erich Fromm – apenas para acrescentar adiante, com tristeza, que em “uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar sera sempre, necessariamente, uma rara conquista”
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E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resulstados que não exigem esforço prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta ( falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “esperiência amorossa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultado sem esforço.
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Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman

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Pense no que você faria se lhe fosse dito que lhe restam três meses de vida. Depois do pânico inicial… Suas rotinas diárias, as coisas que você considera importantes, inadiáveis, pelas quais sacrifica o ócio, a meditação, o brinquedo… A leitura de jornais, os canhotos dos talões de cheque, os documentos para o IR, os ressentimentos conjugais, os rancores profissionais, a pós-graduação, as perspectivas da carreira… Tudo isso encolheria até quase desaparecer. E o presente ganharia uma presença que nunca teve antes. Ver e saborear cada momento; são os últimos: o quadro, esquecido na parede; o cheiro de jasmim; o canto de um pássaro, em algum lugar; o barulho dos grilos, enquanto o sono não vem; a gritaria das crianças; os salpicos da água fria, perto da fonte… Talvez você até criasse coragem para tirar os sapatos e entrar na água… Que importaria o espanto das pessoas sólidas? Talvez encontremos aqui as razões por que a sociedade oculta e dissimula a morte, tornando-a até mesmo assunto proibido para conversação. A consciência da morte tem o poder de libertar, e isso subverte as lealdades, valores e respeitos de que a ordem social depende. Colocando os sepulcros nas mãos dos deuses, a religião obriga a inimiga a se transformar em irmã… Livres para morrer, os homens estariam livres para viver…

Rubem Alves

Este texto me lembrou esta música do Paulinho Moska “O último dia”

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Ninguém é tão pobre que não tenha o que dar, ou tão rico que não tenha o que receber. Não é possível pensar em paz enquanto o mundo permanece dividido em dois grupos: os que dão e os que recebem. A verdadeira dignidade humana encontra-se tanto em dar quanto em receber. Isso se aplica não só aos indivíduos mas também às nações, culturas e comunidades religiosas. Uma verdadeira visão de paz testemunha uma reciprocidade contínua entre dar e receber. Não deixemos de perguntar a nós mesmos o que estamos recebendo daqueles a quem damos antes de fazê-lo, e nunca recebamos antes de perguntar o que devemos dar àqueles de quem recebemos.
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Dar é muito importante: dar discernimento, esperança, coragem, conselho, apoio, dinheiro e, acima de tudo, dar-nos a nós mesmos. Sem dar não há fraternidade e irmandade. Mas receber é igualmente importante, porque ao fazê-lo revelamos aos doadores que eles têm algo a oferecer. Quando dizemos “obrigado, você me deu esperança; obrigado, você me deu uma razão para viver; obrigado, você permitiu que eu percebesse meu sonho”, fazemos os doadores se conscientizarem de seus dons únicos e preciosos. Às vezes é apenas nos olhos dos que recebem que os doadores descobrem esses dons.
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Henri Nouwen
Quem é Henri Nouwen?

Era uma vez uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões. Primeiro porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou estórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez suas penas estavam vermelhas, e ele contou estórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos.
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Mas sempre chegava o momento quando o pássaro dizia: “Tenho de partir.” A menina chorava e implorava: “Por favor não vá fico tão triste. Terei saudades e vou chorar…” “Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “Eu também vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. E eu deixarei de ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar.” E partia. A menina sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: “Se o Pássaro não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre. E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola.” Assim aconteceu.
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A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda. Quando o pássaro voltou eles se abraçaram, ele contou estórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou ele deu um grito de dor. “Ah! Menina…que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias. Sem a saudade o amor irá embora…” A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar. Mas não foi isso que aconteceu.
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Caíram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo… Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola. “Pode ir, Pássaro”, ela disse.” Volte quando você quiser…” “Obrigado, menina”, disse o Pássaro. “Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!
Rubem Alves

Quem é o homem que eu estou vendo ?
Onde eu deveria estar?
Perdi meu coração
Eu enterrei fundo demais
Sob o mar de ferro

Bola de cristal salve todos nós!
E me diga que a vida é bela

Estou me esvaindo
Tudo o que sei esta errado
…eu me olho no espelho
mas não há ninguem…

Keane – Crystall Ball


“Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” João 3:17


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John Woolman (alfaiate Quacker do século XVIII, cujo diário é um clássico da espiritualidade) o fez. Ele resolveu organizar seus afazeres exteriores de tal modo que pudesse estar, a cada momento, atento àquela voz. Simplificou sua vida à base de sua relação com o Centro divino. Nada mais valia tanto quanto a atenção à Raiz de todo viver que ele descobria dentro de si mesmo. E a descoberta Quacker é justamente esta: os sussurros de orientação, amor e presença divinos, mais preciosos que o céu e terra. John Woolman nunca permitiu que as exigências do seu negócio ultrapassassem suas necessidades reais. Quando vinham muitos clientes, ele os mandava para outro lugar, para comerciantes e alfaiates mais necessitados. Sua vida exterior tornou-se simplificada à base de uma integração interior. Descobriu que podemos ser homens e mulheres guiados pelo céu, e se rendeu completamente, sem reservas àquela orientação, tornado-se aquecido e próximo ao Centro. Eu disse que sua vida exterior tornou-se simplificada, e usei de propósito a voz passiva. Ele não precisou lutar e renunciar e se esforçar para alcançar a simplicidade. Ele rendeu-se ao Centro, e sua vida tornou-se simples. Era sinótico; tinha singeleza de visão. “Se o teu olho for singelo, todo o corpo ser cheio de luz”. Seus muitos egos integravam-se num só ego verdadeiro, cujo único objetivo era de andar humildemente na presença, orientação e vontade de Deus. Nada de derrota eleitoral de uma minoria de egos descontentes. Era como se houvesse nele um presidente que no silêncio solene da interioridade, percebia o consenso da reunião. Eu direi que o método Quacker de conduzir as reuniões administrativas aplica-se também, individualmente às nossas vidas interiores.
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No centro, no abismo onde habita o Eterno no fundo do nosso ser nossos programas, doações e oferenda de tarefas realizadas estão sendo constantemente reavaliadas. Não conseguíamos dizer “não” a eles, porque pareciam tão importantes. Mas se centrarmo-nos e vivermos no Silencio que é mais precioso do que a vida, e levarmos o nosso programa para os lugares silenciosos do coração, com abertura total, prontos a fazer ou renunciar segundo a Sua direção, muitas das coisas que fazemos perderão a sua importância.
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…Desejo ser drástico e impiedoso em desmascara qualquer fingimento na questão da devoção e singeleza de amor a Deus. Mas devo confessar que não leva tempo, nem complica seu programa. Tenho descoberto que uma vida de sussurros de adoração, de louvor e de oração pode permear o dia. É possível ter um dia muito cheio, no sentido exterior, e mesmo assim estar continuamente na Santa Presença. Precisamos, isto sim, e uma tranqüila meia hora ou hora de leitura e reflexão. Mas podemos levar os silêncios recriadores dentro de nós, quase o tempo todo.

Com alegria leio o irmão Lawrence (irmão leigo francês do século XVIII), na sua “Prática da Presença de Deus”. No final da quarta conversação, diz-se dele: “Nunca estava apressado nem ocioso, mas fazia tudo a seu tempo, com uma serenidade ininterrupta e espírito tranqüilo”. A hora de negócios, diz ele, para mim não difere da hora de oração, e no barulho e tinido de minha cozinha, com várias pessoas pedindo coisas ao mesmo tempo, possuo a Deus com a mesma tranqüilidade, como se estivesse ajoelhado recebendo o sacramento. “A verdadeira razão de não recolhermo-nos, não centrarmo-nos, não é falta de tempo; em muitos de nós, ao que me parece, é a falta de um prazer entusiasta nele, de um profundo amor dirigido a Ele em todo momento do dia e da noite. Deve ficar claro que estou falando de um estilo revolucionário de viver. A religião não é algo que acrescentamos às nossas outras tarefas, assim tornando ainda mais complexas as nossas vidas. A vida com Deus é o Centro da Vida, e tudo mais é remoldado e integrado de acordo.

É isso que dá singeleza de visão. O mais importante não é estar sempre passando copos de á grua fria para um mundo sedento. É possível estarmos tão ocupados tentando cumprir o segundo grande mandamento, “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, que ficamos sub-desenvolvidos na nossa devoção a Deus. Mas, temos que amar a Deus tanto quanto ao próximo. Estas coisas deveríamos fazer sem deixar a outra pela metade. Há um estilo de vida tão oculto com Cristo em Deus que, em meio dos afazeres do dia, podemos elevar interiormente breves orações de louvor, sussurros de adoração e amor ao além que está dentro de nós. Ninguém precisa saber. É possível viver um estado quase contínuo de oração silenciosa, orações com respeito a Deus ou com respeito a pessoas e empreendimento que estão no nosso coração. Nada de pressa; é uma vida indizível e cheia de glória, um mundo interior de glória, um mundo interior de esplendor o qual, embora indignos, podemos viver. Alguns de vocês o conhecem e vivem nele; outros ardentemente o desejam; pode ser seu. Deste centro Santo vêm os encargos da vida. Nossa comunhão com Deus desemboca numa preocupação mundial. Não podemos guardar o amor de Deus só para nós mesmos. Transborda, nos aviva, nos faz ver novamente as necessidades do mundo. Amamos as pessoas e ficamos aflitos de vê-las cegas quando poderiam estar acordados e vivendo sacrificialmente; aceitando os bens do mundo como seu direito quando, na realidade, lhes foram apenas confiados temporariamente. “A maior necessidade dos homens não é comida, roupa e abrigo, embora todas estas coisas sejam importantes. É Deus. Equivocamo-nos quanto à natureza da pobreza, achando que é econômica. Não, é pobreza de alma, da privação da paz recriadora de Deus. Nossos esquemas de salvação econômica não atingem as necessidade mais profundas. São importantes, mas constituem num segundo passo no caminho da reconstrução mundial.

O primeiro passo é um vida santa, transformada e radiante da glória de Deus. Este amor pelas pessoas é quase tão estupendo quanto o amor a Deus. Queremos ajudar as pessoas porque temos pena delas, ou porque realmente as amamos? O mundo precisa de algo mais profundo do que a pena, precisa de amor. (Quão banal esta frase, mas quão verdadeira!) Mas no nosso amor às pessoas, seremos apressados englobando todos os homens e tarefas na nossa preocupação amorosa? Não, esta é a função de Deus. Mas ele, operando em nós, divide a sua preocupação vasta e dá a cada um de nós a porção devida. Esta se torna a nossa tarefa. A vida do Centro é uma vida dirigida do céu. Boa parte da nossa aceitação de uma multidão de obrigações é devido à nossa incapacidade de dizer “não”. Vemos que uma tarefa precisa ser feita e não há ninguém para fazê-la. Calculamos o nosso tempo e decidimos que talvez dê para incluí-la. Mas a decisão parte da cabeça, não do santuário da alma.

Quando dizemos “sim” ou “não” nessa base, temos que dar razões, para nós mesmos e para os outros. Mas quando dizemos “sim” ou “não” à base da orientação interior e sussurros de incentivo do Centro, ou então à base da ausência de qualquer “elevação” interior da vida para nos encorajar, não temos razões para dar, menos uma – a vontade de Deus como nós a discernimos. Aí começamos a viver sob a orientação divina. E tenho descoberto que Ele nunca nos guia a viver num frenesi intolerável. a paciência, pois Deus está operando no mundo. Não trabalhamos sozinhos no mundo. Tentando terminar desesperadamente uma obra para ofertar a Deus. A vida do Centro é de paz e poder. É simples. É serena. É triunfante. É radiante. Não ocupa tempo algum, mas ocupa o nosso tempo todo. Renova nossos programas. Não precisamos ficar frenéticos; ele é o timoneiro. E quando termina o nosso pequeno dia, deitamos em paz, pois tudo vai bem. Curitiba, verão de 1997.

Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior. As distrações exteriores dos nossos interesses refletem a falta interior de integração das nossas vidas. Queremos ser vários egos ao mesmo tempo, sem que todos esses egos estejam organizados por uma única e soberana Vida dentro de nós. Todos nós temos a tendência de ser, não um único ego, mas todo um comitê de egos. Há o ego cívico, o ego paterno, o ego financeiro, o ego religioso, o ego profissional, e ego literário. E cada um desses egos, por sua vez é um franco individualista, não cooperando, mas votando aos berros em si mesmo quando chega a hora da votação. Muitas vezes seguimos o método eleitoral para chegar a uma rápida decisão entre as nossas vozes interiores conflitantes.
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É como se tivéssemos um presidente do comitê, que não integra os muitos egos, mas apenas conta os votos e deixa minorias descontentes. As reclamações de cada ego deixam de ser feitas. Se aceitamos servir na comissão de uma obra social, continuamos sentir remorso por não podermos também ensinar na Igreja. Não somos integrados: somos angustiados. Sentimos o clamor de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E, no entanto, somos infelizes, receosos, tensos e oprimidos, com medo de sermos superficiais. Pois, desde além das margens da vida vem um sussurro, um apelo indistinto, um presságio de uma vida rica que estamos deixando escapar. Contorcidos pelo ritmo louco dos nossos afazeres, somos ainda por cima incomodados por uma inquietação interior, pois não deixamos de receber intimações da existência de um estilo de vida muito mais rico e profundo do que toda nossa pressa, uma vida de serenidade, paz e poder. Ah! Se pudéssemos descobrir o silêncio que é a fonte do som! Conhecermos algumas pessoas que parecem ter descoberto esse Centro profundo, onde os clamores insistentes da vida são integrados, onde o “não”, tanto quanto o “sim” podem ser ditos com confiança.

Já vimos vidas assim, integradas, tranqüilas no meio de decisões difíceis, vida alegres, vigorosas, positivas. Não são pessoas preguiçosas ou vadias, nem obviamente absortas em profundas meditações; estão carregando um fardo tão pesado quanto o nosso, mas com um passo leve, sem abatimento nem irritação. Sua vida cotidiana é cercada por uma auréola de infinita paz, poder e júbilo. Nós somos tão tensos e inquietos; eles tão equilibrados e em paz.

Se a sociedade de Amigos (os Quakers) tem algo a dizer, é principalmente nesta área. A vida deve ser vivida a partir de um Centro, o Centro Divino. Cada um de nós é capaz de viver uma vida de estupendo poder e paz e serenidade, de integração e confiança e multiplicidade simplificada sob uma condição: que realmente queiramos isto. Há em todos nós um abismo divino, cum Centro infinito, um coração, uma Vida que fala em nós e através de nós para o mundo. Todos já ouvimos este sussurro Santo. As vezes, seguimos o sussurro, e produz-se em nós um espantoso equilíbrio de vida, uma estupenda eficácia. Mas muitos de nós atendemos a esta voz apenas esporadicamente. Só de vez em quando submetemo-nos à sua santa orientação. Não temos considerado esta coisa santa em nós como a coisa mais preciosa do mundo. Não temos aberto mão de tudo mais, para atendermos a ela somente. Repito: a maioria de nós não tem abandonado todas as outras coisas para poder atender ao Santo que está em nós.
Continua na semana que vem.

Thomas Kelly – A Testament of Devotion – Nova Iorque: Harper and Brothers, 1941

O problema que examinaremos hoje carece de pouca introdução. Nossas vidas na cidade moderna tornam-se demasiado complexas e cheias. Mesmo as obrigações que consideramos absolutamente necessárias, aumentam a cada dia, e quando percebemos, já estamos sobrecarregados de reuniões, cansados e apressados, cumprindo ofegantes uma roda viva de compromissos. Somos muito ocupados para sermos boas esposas para nossos maridos, bons maridos para nossas esposas, bons pais para nossos filhos, e bons amigos para os nossos amigos, e não temos tempo algum para sermos amigos daqueles que não tem amigos. Mas se nos retiramos desses compromissos para passarmos algumas horas com a família, as responsabilidades da cidadania sussurram no nosso ouvido e perturbam o nosso sossego. As escolas dos nosso filhos exigem o nosso interesse, os problemas da comunidade merecem nossa atenção; as questões mais amplas da nação e do mundo pesam sobre nós. Nosso status profissional, obrigações sociais, participação em tal ou qual organização muito importante – tudo isso reivindica nosso tempo.

Com uma finalidade frenética, tentamos cumprir o mínimo aceitável de compromissos, mas vivemos esgotados e exaustos. Reconhecemos e lamentamos o fato de que nossa vida está se esvaindo, dando-nos tão pouco da Paz, gozo e serenidade que pensamos que deverá proporcionar a uma alma superior. Os momentos para as profundezas do silêncio do coração parecem tão raros. Com uma tristeza culposa adiamos para a semana que vem aquela vida mais profunda de serenidade inabalável na Santa Presença, onde sabemos que está o nosso verdadeiro lar, porque esta semana está muito cheia. Mas não devemos desperdiçar tempo numa mera descrição do problema.

E, embora todos gostemos de ter piedade de nós mesmos, não devemos ficar apenas lamentando a pobreza da nossa vida causada pela superabundância de oportunidades. Nem tão pouco devemos nos agarrar apressadamente a uma solução, num impulso de fazer com que, hoje pelo menos, tenhamos algum progresso a mostrar. Podar e aparar é preciso, mas não com precipitação, antes de procedermos a um exame da árvore que podamos, do ambiente em que ela vive, e da seiva que a alimenta.

Sugiro, em primeiro lugar, que estamos dando uma explicação falsa da complexidade de nossas vidas. Culpamos o ambiente complexo. Nossa vida complexa, dizemos, é devido ao mundo complexo em que vivemos, que nos proporciona mais estímulos por hora que os nossos avós recebiam por dia. Essa explicação em termos de ordem exterior nos leva às vezes a ansiar pela vida de uma tranqüila ilha do Pacífico, ou então pela existência lenta e bucólica dos nosso bisavós.

Mas posso assegurar-lhe: experimentei por um ano a vida de uma ilha do Pacífico, e descobri que os ocidentais levam para lá a mesma existência impulsiva e febril que já possuíam. A complexidade do nosso programa não é devido à complexidade do nosso ambiente, e nem à simplificação da vida seguirá a simplificação do ambiente. Confesso que sofri terrivelmente naquele ano no Havai, porque em alguns aspectos o ambiente era simples demais. Nós ocidentais tendemos a pensar que nossos problemas são externos, ambientais. Não somos experimentados na vida interior, onde estão as verdadeiras raízes do nosso problema. Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior… Continua na proxima semana.

Minha amiga, a irmã Lina “Hoje, a grande moda é premiar empresas socialmente responsáveis, não entidades que há muito vêm fazendo o bem sem alarde” Ilustração Ale Setti Eu conheço uma verdadeira santa. Não é todo mundo que tem esse privilégio. Vou contar como a conheci, para que todos façam o mesmo e descubram outras santas escondidas por aí. Trinta anos atrás criei um prêmio para as melhores empresas do país, o Melhores e Maiores. Decidi então criar o Prêmio Bem Eficiente, para entidades beneficentes.

Alice Carta levou-me para conhecer uma entidade superséria, e quando cheguei lá ouvi a palavra lepra (hanseníase). Fiquei em pânico, queria sair dali o mais rápido possível. Foi quando a vi pela primeira vez. É uma religiosa de 81 anos, que há 49 veio jovem da Itália cuidar dos hansenianos do Brasil. Perdeu 9 quilos na viagem e ainda se esqueceram de buscá-la quando desceu do navio. Na época existia uma lei de confinamento para as pessoas portadoras desse mal – todas eram obrigatoriamente enclausuradas num asilo, em Guarulhos. Era uma prisão perpétua, e ninguém queria cuidar deles, nem amigos nem parentes, com exceção da irmã Lina. Não dando importância ao fato de que provavelmente também contrairia a doença, ela viveu ali cuidando de mais de 1.000 hansenianos, onde ficou nada menos que trinta anos se dedicando a eles. A história não pára por aí. Com os avanços da medicina da época, o mal foi quase erradicado, e isso permitiu que a irmã Lina mudasse de preocupação (o problema ainda é grave em algumas regiões do país). Então, ela criou uma creche para os filhos de hansenianos e dedicou-se a eles por mais dezenove anos, até ficarem adultos. Não satisfeita, ela tem uma entidade que cuida de 500 crianças abandonadas, uma das mais eficientes que já vi. As crianças são felizes, têm uma auto-estima que raramente vejo nos alunos das escolas de bairro. Tive o privilégio de conferir, por duas vezes, o Prêmio Bem Eficiente a sua instituição, e ela será novamente contemplada, no dia 14 de maio, mas isso não é mais notícia.

Hoje, a grande moda é premiar empresas socialmente responsáveis, não entidades que há muito vêm fazendo o bem sem alarde. Já existem dez prêmios para empresas com nomes como A Empresa Cidadã, A Empresa Social, A Empresa Responsável. Antigamente, marketing social era o que as entidades faziam para aparecer. Agora significa tornar empresas socialmente visíveis a todo custo. Doar anonimamente, como rezam todas as religiões, nem pensar.

A filantropia por parte de empresas vem caindo ano a ano, porque muitas preferem montar o próprio instituto com o nome da marca da empresa. Em vez de uma Fundação Bill Gates, no Brasil privilegiam-se a “marca” e o marketing da empresa. Ao se decidirem por um projeto próprio, muitas companhias preferem não mais apoiar causas como a hanseníase, a prostituição infantil, o abuso sexual, a velhice, a cegueira, considerados “mercadologicamente incorretos”. Departamentos de marketing de empresas “socialmente responsáveis” acham melhor apoiar causas como educação, crianças ou ecologia. Criança é mais fotogênica que idoso ou leproso. Empresa não quer, nem pode, ter sua marca associada a um problema social “mercadologicamente incorreto”, e quem perde são os mais necessitados.

Não bastasse tudo que a irmã Lina já fez pelo Brasil, longe de sua família e da ajuda do governo italiano, ela luta agora para salvar seu hospital, em Guarulhos, que vem mantendo com muito esforço. Já pediu a Deus e a todo mundo os 3 milhões de reais de que precisa para completar o que será sua última obra. Não vou dar o nome de sua instituição, seu endereço nem seu nome completo, porque quero que todos saiam e procurem os milhares de santas que ainda temos por aí, desconhecidas, esquecidas e cada vez mais abandonadas. Obrigado a todas as irmãs Linas por tudo o que fazem por este país.
Stephen Kanitz

A Sinfonia do Perdão
Jorge Camargo
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“Na última terça-feira (21/11), minha mãe Vanira, levantou mais cedo que de costume. Sentou na cadeira da sala de jantar e puxou uma conversa leve e descompromissada com meu pai.

Surpreso com sua presença inesperada, seu Jorge, o “preto” como era carinhosamente chamado por ela, esticou o bate-papo.

Minutos depois, ela reclamou de uma dor no peito e foi se deitar. Ele a acompanhou.

Ao lado da cama, a frase inesperada: “Preto, me perdoe. Me perdoe pelas palavras ásperas e pelas dores que lhe causei nesses anos juntos (quarenta e seis, pra ser mais exato).

“Eu é que te peço perdão!”, ele respondeu.

Foram as últimas palavras de minha mãe.

Naquele quarto apertado de uma casa pequena e simples perdida na periferia da grande cidade uma obra de rara beleza foi executada. O tema? A Sinfonia do Perdão.

Aqui nesse mundinho fétido, apenas dois seres que se amaram e que foram cúmplices e parceiros de vida ouviram-na em toda a sua exuberância.

No céu, míriades de anjos e Seu Grande Compositor testemunharam-na.

Minhas lágrimas apenas captaram o eco de seus últimos acordes e registraram-na em minha alma como a mais linda obra musical que eu ouvi em toda a minha vida.”

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“….Também tem aquela síndrome de forte apache, né? A gente compra o brinquedo, monta o brinquedo e… de repente, aquele vazio! O que fazer? Ora, comprar outro! E, evidentemente, botar fogo no forte apache para ensaiar, quem sabe, um dia, botar fogo num mendigo. É no consumir por consumir que nasce o vício, essa patologia contemporânea. E o vazio, hospedeiro do vício, é o que a nossa sociedade mais sabe produzir. MACONHA? SUCRILHOS! CROP DUSTERS! Vício de Internet, de televisão, de sexo, de religião, paraísos artificiais, shopping centers, felicidades químicas… Espíritos famintos! Essa é a mãe de todas as misérias! Mania de mania, apartheid social, psicopatia social, com açúcar, sem afeto. A grande doença é o vazio de querer encher o vazio sempre com coisas externas a sua existência, externas a você… COMPRE BATON! COMPRE BATON! Ter o Outro, comer o Outro, não enxergar o Outro…..”

Lobão

http://www.bravonline.com.br/revista/bravo53/ensaio/index.php

Tem algumas coisas que discordo neste texto, mas é retendo o que é bom, vale apena ler. O texto me fez lembrar uma passagem de Eclesiastes 11 de 4 a 6

“4Se estiveres à espera das condições ideais para realizar qualquer coisa, nunca farás nada – quem está sempre a observar o vento, de que lado está ou não está, nunca chegará a semear nada; quem anda sempre a olhar para as nuvens, a ver se chove ou não, nunca segará.

5As formas de actuação de Deus são tão misteriosas como os caminhos do vento, e como a maneira pela qual o espírito do homem se introduz no pequenino corpo dum bebé, formando-se no ventre de sua mãe. Assim também não compreendes as obras de Deus, que faz todas as coisas.

6Por isso, pela manhã lança as sementes à terra, continua pela tarde; porque não sabes qual a semente que virá a crescer, se esta, se aquela, ou mesmo se todas.”

Discurso de Nizan Guanaes na formatura da FAAP

Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, sou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns. Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos. Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma.

A propósito disso, lembro-me uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: “Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo.” E ela responde: “Eu também não, meu filho”. Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar em realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna. Meu segundo conselho: pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega viver como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu. Que era ficção, mas hoje é realidade, na pessoa de Geraldo Bulhões, Denilma e Rosângela, sua concubina.

Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laudiceia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É preferível o erro à omissão. O fracasso, ao tédio. O escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tendo consciência de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado, para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não sente-se e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse!, eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansear, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios. Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.

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De repente, no melhor do sono, toca o despertador. É hora de levantar para ir à escola ou ao trabalho. Não é raro que, exatamente neste instante, se trave uma batalha importantíssima. De um lado, o sono, a preguiça, o desejo de continuar deitado sonhando com todo tipo de situações gostosas. De outro, a noção do dever, da obrigação, do compromisso assumido. A vontade mostra uma direção; a razão aponta o oposto.

Disciplina, na minha opinião, é a capacidade que permite à razão ser mais forte e vencer nossas vontades e nossa preguiça. É porque desenvolvemos essa qualidade que conseguimos fazer exercícios maçantes todos os dias na mesma hora; que evitamos comidas com muitas calorias ou prejudiciais à saúde; que nos faz abrir mão de coisas materiais para poupar e atingir um objetivo maior. Pessoas disciplinadas conseguem estudar quando, na verdade, estavam com vontade de assistir à televisão ou bater papo com os amigos.

Não resta a menor dúvida: os disciplinados terão maiores chances de sucesso nas atividades às quais se dedicarem. Entre talento e disciplina, é melhor ter os dois. Porém, a longo prazo, esta última é mais importante. Mas precisa ser conquistada. É verdade que há pessoas que aceitam melhor as contrariedades. Essa capacidade de aceitação aumenta à medida que se desenvolvem a linguagem e o raciocínio lógico. Ambos nos ajudam a compreender por que nossas vontades nem sempre podem ser satisfeitas. Aprendemos a suportar melhor a dor. A principal tarefa da educação, especialmente durante os primeiros anos de vida, seja desenvolver a razão e suas forças com o intuito de sermos capazes de “domesticar” nossas vontades.

Uma visão equivocada da psicologia nos levou, nas últimas décadas, a privilegiar o livre exercício do desejo. O papel da razão – freio limitador dos impulsos – foi encarado como algo repressivo e negativo. Além disso, os pais, com medo de traumatizar os filhos e de perder o amor deles, têm fugido da tarefa, às vezes desagradável, de estabelecer limites e estimular as crianças a usar com eficiência a razão para dirigir suas vidas. Na educação infantil, essa é a tarefa número um dos pais. Ao aprender a utilizar a razão em benefício próprio, a criança e depois o adulto experimentam enorme satisfação quando se sentem disciplinados. Sim, porque é nestes momentos que nos consideramos animais mais sofisticados, que definimos com propriedade de racionais.

A alegria íntima de quem se levanta cedo, faz exercícios e chega na hora certa aos compromissos assumidos é algo que não pode ser subestimado. Sentimo-nos fortes quando conseguimos nos controlar – coisa muito difícil. Sentimos que vencemos a batalha mais árdua: a interior. A auto-estima cresce. E para que nossos filhos experimentem todas essas sensações tão boas, devemos lhes ensinar, desde cedo, a abrir mão de suas vontades, sempre que a razão assim achar conveniente e útil.
Texto livremente adaptado do artigo “Disciplina e Educação”, do médico Flávio Gikovate

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CONTARDO CALLIGARIS

O poder da reza

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Mistério: estudo mostra que uma reza retroativa ajudou pacientes anos depois da internação
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UM AMIGO médico, Décio Mion, me fez conhecer um estranho debate que ocupou, de 2001 a 2003, as páginas do seríssimo “British Medical Journal”.
Premissa: várias pesquisas, há tempos, mostram os efeitos positivos da reza numa variedade de condições patológicas. Documenta-se que o doente encontra benefícios (quanto ao andamento de sua enfermidade) no ato de rezar ou na consciência de que seus próximos rezam por ele. Até aqui, tudo bem: o paciente acharia assim uma paz de espírito que melhora sua evolução.
A coisa se complica: às vezes, as pesquisas mostram que a prece traz benefícios mesmo quando alguém reza por um doente sem que ele próprio saiba disso. Como explicar esses casos?
Talvez o benefício seja fruto de uma intervenção caridosa da divindade solicitada, mas essa explicação depende de um ato de fé que não cabe na interpretação de uma pesquisa científica. Além disso, é curioso que os benefícios apareçam seja qual for o deus ou o intercessor que receba a oração.
Resta, pois, imaginar que a intenção humana (o esforço cerebral de quem deseja que algo aconteça e reza por isso) tenha alguma realidade material (energia, partículas etc.) capaz de influir no andamento de um processo patológico. Estranho?
Nem tanto: afinal, até poucas décadas atrás, ignorávamos a existência de uma série de partículas que, segundo a física de hoje, povoam nosso universo. Por que as nossas intenções não movimentariam uma energia desconhecida, mas capaz de alterar o mundo físico? Nos EUA, nos anos 60-70, foram organizadas reuniões diante da Casa Branca com a idéia de que, se todos se concentrassem, a energia do dissenso faria levitar a residência do presidente americano. Embora cético, participei, convencido por um amigo que dizia: “Tentar não dói”. Claro, não funcionou.
Ora, no fim de 2001, o “British Medical Journal”, depois de um editorial lembrando que a razão não explica tudo, publicou uma pesquisa, de L. Leibovici (BMJ, 2001, 323), que registra os efeitos benéficos (em pacientes com septicemia) de uma reza afastada não só no espaço, mas também no tempo. Explico.
Foram incluídos no estudo todos os pacientes internados com septicemia, de 1990 a 1996, num hospital israelense; eram 3393. Em 2000 (de quatro a dez anos mais tarde), por um processo rigorosamente aleatório, os arquivos desses pacientes foram divididos em dois grupos: um grupo pelo qual haveria reza e um grupo de controle. Para cada nome do primeiro grupo, foi dita uma breve reza que pedia a recuperação do paciente e do grupo inteiro.
Resultado: no grupo que recebeu uma reza em 2000, a mortalidade foi (ou melhor, fora, de 90 a 96) inferior, embora de maneira pouco significativa; no mesmo grupo, a duração da febre e da hospitalização fora (ou melhor, havia sido, de 90 a 96) significativamente menor.
A publicação da pesquisa provocou uma enxurrada de cartas (BMJ, 2002, 324), algumas contestando as estatísticas, outras manifestando uma certa incompreensão do problema, que é o seguinte: como entender que uma reza possa agir não só sem que o paciente tenha consciência da intercessão pedida (com possível efeito psicológico positivo), mas à distância no tempo? Como entender, em suma, que uma reza dita em 2000 tenha um efeito retroativo em alguém que estava doente entre 90 e 96, quando a pesquisa e a reza nem sequer estavam sendo cogitadas?
Uma tentativa de resposta veio em 2003. O “BMJ” (2003, 327) publicou um interessante e enigmático artigo de Olshansky e Dossey, “History and Mystery” (história e mistério), em que os dois médicos dão prova de conhecimentos de física quântica muito acima de minha cabeça. O argumento de fundo é o seguinte: há modelos do espaço-tempo nos quais é possível que haja relações físicas entre o passado e o presente (ou seja, modelos em que o presente pode alterar o passado).
Que o leitor não me peça para explicar como isso aconteceria. As dimensões do “espaço de Calabi-Yan” e os “campos bosônicos”, para mim, são tão obscuros quanto os ectoplasmas, os espíritos e os milagres.
Moral da história: embaixo do sol (ou da chuva), deve haver muito mais do que imaginamos, até porque nossa ciência está longe de ser acabada. Alguns colegas positivistas talvez durmam mal com esse barulho.
Eu não acredito nas paranormalidades, mas, em geral, durmo melhor ninado pelo mistério do que pelas certezas.

ccalligari@uol.com.br

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Frisson cerebral A beleza feminina causa, sim, reações primitivas nos homens Ao ser indagado por que os homens cultuam a beleza física, Aristóteles abandonou momentaneamente a retórica e mostrou o seu lado borracheiro – houvesse, é claro, borracheiros na Antiguidade. “Só um cego faria essa pergunta”, disse ele. Basta uma olhadela na foto de Gisele Bündchen aí ao lado para perceber a conexão entre filosofia grega e borracharia brasileira. E – aqui está a novidade – entre filosofia grega, borracharia brasileira e ciência americana. Não se acanhe, prezado leitor, em devorar com os olhos a modelo gaúcha. Essa sua compulsão é pura química cerebral. Pesquisadores da Universidade Harvard mapearam a atividade do sistema nervoso central de homens heterossexuais, de 21 a 35 anos, e descobriram que a visão de uma mulher atraente causa frisson em algumas das áreas mais primitivas do cérebro.

 

Principalmente no núcleo acumbens e na amígdala, responsáveis por funções como a manutenção da temperatura do corpo e da pressão arterial e por determinadas sensações de prazer. Do ponto de vista cerebral (masculino heterossexual, enfatize-se), uma mulher bonita causa as mesmas reações da cocaína em cocainômanos e da aposta em dinheiro em jogadores inveterados. Enfim, a beleza tem efeito parecido ao do vício, com a vantagem de não fazer mal. Publicado na revista americana Neuron, uma das mais importantes no campo da neurologia, o estudo de Harvard também analisou a resposta do cérebro de homens heterossexuais a mulheres feias e homens bonitos. Em ambos os casos, a região que se manifestou mais intensamente foi a ligada aos sentimentos de aversão.

 

A explicação é que as feiosas não têm atributos evolucionários suficientes e que os bonitões, nas profundezas cerebrais mais recônditas, representam uma ameaça na disputa por uma parceira ideal – é melhor tê-los longe do que perto. Por atributos evolucionários, que Gisele Bündchen tem de sobra, entenda-se características como o maxilar delicado, o queixo pequeno, os olhos grandes em relação ao comprimento do rosto, os lábios carnudos e as maçãs da face salientes. Tudo isso indica que o organismo da mulher tem baixos níveis de hormônios masculinos e abundância de estrógenos, os hormônios sexuais femininos. Gisele, portanto, é bonita porque exibe as qualidades de uma boa reprodutora. A diferença de medidas entre cintura e quadris também é um dado importante para uma boa avaliação por parte do macho reprodutor. O melhor é que a cintura da mulher tenha, em média, de seis a oito décimos do tamanho dos quadris. Essa proporção, segundo a psicóloga americana Nancy Etcoff, pesquisadora de Harvard e autora do livro A Lei do Mais Belo, é apreciada no mundo todo, independentemente dos padrões deste ou daquele país. Motivo biológico: sinaliza boa saúde e fertilidade. Ah, sim, Gisele tem 59 centímetros de cintura e 89 de quadris. Proporção de 0,66. O estudo americano é interessante porque prova que a beleza é uma categoria que está longe de ser definida apenas culturalmente. Nesse aspecto, ele bate de frente em certas teorias conspiratórias. Uma delas é que o belo não passa de uma invenção dos manda-chuvas da indústria de cosméticos, da moda, do cinema e da televisão. Dessa maneira, eles imporiam um rodízio de padrões estéticos, para faturar cada vez mais alto.

 

As feministas mais coléricas chegam a dizer até que a beleza é uma forma encontrada pelos homens para subjugar as mulheres. “A beleza é um sistema monetário, assim como o ouro. É o último e o melhor sistema de crenças que mantém a dominação masculina intacta”, lê-se em O Mito da Beleza, da americana Naomi Wolf. É impressionante a capacidade de fantasiar dessas pessoas que acham que feiúra, sim, é fundamental. Ciência americana, borracharia brasileira e filosofia grega nelas.

Karina Pastore

 

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O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração. Liberdade não é uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço. Diga-me qual é a sua tribo e eu lhe direi qual é a sua clausura. São cativeiros bem mais agradáveis do que Carandiru: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luis Estevão, só que temos que advogar em causa própria e habeas corpus, nem pensar. O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos vôos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza. Viver sem laços igualmente pode nos reter. Uma vida mundana, sem dependentes pra sustentar, o céu como limite: prisão também. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes. Nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós – nascer – foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria, exclusão. Brindemos: temos todos, cela especial.