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Telê Santana era técnico do São Paulo e Faustão, na época repórter de campo da turma de Osmar Santos na Rádio Globo, acompanhava o mestre durante o dia todo da decisão da Copa Libertadores.
Depois de uma vitória suada, o então radialista comentou com o técnico nos vestiários, apontando para os jogadores no chuveiro:
– Eles podem lavar a alma com a sensação de dever cumprido!
Ao que Telê acrescentou, falando mais alto com as mãos em concha para os jogadores ouvirem:
– Mas quando eu jogava no Fluminense, pra passar sabão eu desligava o chuveirooooo!
É… além disso, quando eu e Telê éramos crianças, fosse nas Gerais, fosse no recôncavo da Bahia, o cara só tomava banho quente quando estava doente.
A própria torneira, esse recurso magnífico da civilização, eu só conheci já adolescente, em Salvador. Abrir uma torneira pela primeira vez foi uma emoção inesquecível: um jorro de água, ali, imediato-farto-ininterrupto, uma fonte trazida para dentro de casa e, torcendo duas vezes para a direita, pronto: a fonte voltava para o nascedouro, no pé de alguma montanha distante; a casa, normal, como se nada tivesse acontecido. Olha, a gente podia ser ridículo aos 13 anos, mas era levado a pensar profundamente nas coisas que a modernidade engendra.
Quando cheguei a São Paulo em 1965, para fazer Arena Conta Bahia, eu e Caetano nos hospedamos num hotel da avenida Rio Branco e na hora do banho fiquei
surpreso porque o chuveiro não tinha água normal, quer dizer, água fria.
– Rapaz, eu não estou doente, pra tomar banho quente.
Mesmo em Salvador, durante o colégio e a universidade, morando na pensão de Iolanda, a temperatura da água era a do encanamento. Na infância mesmo, nem encanamento.
Certa manhã meu pai me encontrou lavando o rosto numa pequena bacia de água morna e falou, rincalhão:
– Meu filho, agora que você está resfriado, pode ser. Quando sarar, volte para a água fria. Não é por gastar lenha, é que com água morna todo dia você fica muito fraco,
acaba virando um menino amarelo!
Meu pai não era de fazer economia à custa de nossos pequenos confortos, mas naquele tempo a vida diária era permeada por um respeito tácito para com o universo e
a finitude de seus recursos.
Creio que o tom da voz de Telê Santana tinha mais a ver com aquele mundo-universo-integrado do meu pai. Esse sentimento tem voltado muito ao meu coração nos dias de hoje.
Entre os confortos fantásticos da vida moderna há coisas soberbas como a luz elétrica, o carro com ar refrigerado, o sorvete; e me causa profunda admiração o pão quente encontrado na padaria de manhã cedo, todos os dias da semana, chova ou faça sol. Se Nabucodonosor comesse um pão tão bom como o que se come hoje, se ele tivesse um luxo desses lá na Babilônia, talvez não fosse tão fissurado em conquistas e guerras.
Água potável também a gente encontra hoje em todo lugar. Passar sede é quase uma expressão esquecida, mas antigamente muito levada em conta pois uma pessoa
poderia fazer uma viagem de mês e meio pelas brenhas do sertão imenso, passando simplesmente a água e pão.
Atualmente, a vida comum mais proverbial é cheia de prazeres e confortos.
Quanto a mim, já uso água quente até pra lavar as mãos, a qualquer momento, em hotéis, na casa alheia, na minha casa. Desfrutamos essa fartura com total indiferença.
Vai ver por isso é que as vozes do ponta-direita do Fluminense e de meu pai, Éverton, voltaram a soar, como sinos de Combray, depois de muitos anos de uma vida voraz e dissipada.
A tal torneira de água quente, por exemplo, é sempre mais quente do que se pode suportar. E o danado do aquecedor elétrico, lá debaixo da pia, só pode ser regulado pelo volume de água que a gente faz correr. Ah… eu me sentia muito mal de ver toda aquela aguaria jogada fora e lá me voltavam as vozes do pai e do ponta-direita.
Ocorreu-me fazer um cálculo e concluir que, com os dois banhos diários – sem desligar o chuveiro pra passar sabão –, mais as descargas do vaso sanitário, mais a lavagem da roupa, mais o cozimento de duas refeições, mais saciar a sede, assim pelo alto e esquecendo vários itens, eu consumia cerca de seis latas de água por dia. O que daria 120 litros. Nossa! Imaginei visualmente um tanque de 120 litros no meio da sala e me assustei.
Bem, a recomendação de Telê Santana era difícil de seguir porque, em São Paulo, fechar o chuveiro pra passar sabão dá um frio danado. Mas verifiquei que com a janela do banheiro fechada, fechando também a porta e a cortina do box, o ambiente se mantém morno por tempo suficiente pra passar sabão e até cantar uma boa Traviata.
Já para a torneira de lavar as mãos, depois de alguns estudos, vi que a melhor solução era abri-la um tempo para esquentar e fechá-la de repente para interromper o aquecedor. Como o próprio recipiente dela guarda uma quantidade razoável de água aquecida, é fácil tirar o sabão deixando escorrer bem devagar essa água que, com a interrupção anterior do jorro, permanece morna lá dentro. O novo cálculo me deu uma diferença de 60 litros: a metade.
Puxa! Afinal de contas, nós somos uma espécie que sabe fazer cálculos, o que pode afastar
bastante certas arrogâncias. O fato é que agora sinto muita alegria toda vez
que me lembro do meu pai ou do ponta-direita.
Tom Zé
Fonte Revista Piauí, Conheça!!

Dele, o jornal inglês The Guardian escreveu: “Noam Chomsky está ao lado de Marx, Shakespeare e a Bíblia como uma das dez mais citadas fontes nas ciências humanas – e é o único autor, entre eles, ainda vivo.” O New York Times, com quem trava batalhas há décadas, chamou-o “o mais importante intelectual vivo.” Mas Noam Avram Chomsky dificilmente é uma unanimidade. Nem quer ser: a polêmica parece parte essencial desse lingüista que abraçou o pensamento político e insistiu em teses tão provocativas como a defesa do regime sanguinário de Pol Pot na Camboja e a afirmativa de que os mortos do World Trade Center foram poucos em comparação com os provocados por governos americanos no Terceiro Mundo.
Chomsky nasceu na Filadélfia em 7 de dezembro de 1928. Na Universidade da Pensilvânia estudou lingüística, matemática e filosofia. Desde 1955, é professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ocupando uma cátedra de Língua Moderna e Lingüística. Casou-se com Carol Schatz, professora da Universidade de Harvard, em 1949, e tem dois filhos.
Fez sua reputação inicial na lingüística, tendo aprendido alguns dos seus princípios históricos com o pai, um erudito do hebraico. Seus trabalhos na gramática generativa, que derivaram do seu interesse pela lógica moderna e pelos fundamentos da matemática, deram-lhe fama.
Sempre se interessou pela política e suas tendências para o socialismo são resultado do que chama de “a comunidade judaica radical de Nova York”. Desde 1965, tornou-se um dos principais críticos da política externa latino-americana. Seu livro O poder americano e os novos mandarins foi considerado um dos ataques mais substanciais ao envolvimento americano no Vietnã.
Hoje, Chomsky é a voz mais respeitada da esquerda acadêmica e intelectual. Mesmo sendo um radical nada convencional. Produziu um substancial volume de teoria política própria e defende a busca da verdade e do conhecimento nos negócios humanos de acordo com um conjunto simples e universal de princípios morais. Escreve de jeito claro, fala com o público especializado e com o leitor em geral. Pode-se dizer que é um herdeiro da Nova Esquerda dos anos 1960. No seu livro mais famoso da época, O poder americano e os novos mandarins, ele disse que os Estados Unidos precisavam de “uma espécie de desnazificação”, insinuando que o país estava caindo no fascismo.
Fonte: Revista Cult
Mais ?? Chomsky no Orkut

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C.S. LEWIS no livro “Cristianismo Puro e Simples” o mesmo autor do livro transformado em filme “As Crónicas de Narnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

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Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.
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Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
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Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.
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Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
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Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.
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Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o hino… Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
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Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
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E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.
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A música acontece no silêncio.
É preciso que todos os ruídos cessem.
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No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou.
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A alma é uma catedral submersa.
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No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada.
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Somos todos olhos e ouvidos.
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Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala.
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Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
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Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.
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Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
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Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
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Rubem Alves

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Empresas pagam a profissionais para fazer o que a comunidade acha importante ser feito, não aquilo que os funcionários gostariam de fazer, que normalmente é jogar futebol, ler um livro ou tomar chope na praia.
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Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente com o que a sociedade acha importante ser feito. Mas, aí, quem tiraria o lixo, algo necessário, mas que ninguém quer fazer?
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Muitos jovens sonham trabalhar no terceiro setor porque é o que gostariam de fazer. Toda semana recebo jovens que querem trabalhar em minha consultoria num projeto social. “Quero ajudar os outros, não quero participar desse capitalismo selvagem.” Nesses casos, peço que deixem comigo os sapatos e as meias e voltem para conversar em uma semana.
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É uma arrogância intelectual que se ensina nas universidades brasileiras e um insulto aos sapateiros e aos trabalhadores dizer que eles não ajudam os outros. A maioria das pessoas que ajudam os outros o faz de graça.
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As coisas que realmente gosto de fazer, como jogar tênis, velejar e organizar o Prêmio Bem Eficiente, eu faço de graça. O “ócio criativo”, o sonho brasileiro de receber um salário para “fazer o que se gosta”, somente é alcançado por alguns professores felizardos de filosofia que podem ler o que gostam em tempo integral.
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O que seria de nós se ninguém produzisse sapatos e meias, só porque alguns membros da sociedade só querem “fazer o que gostam”? Pediatras e obstetras atendem às 2 da manhã. Médicos e enfermeiras atendem aos sábados e domingos não porque gostam, mas porque isso tem de ser feito.
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Empresas, hospitais, entidades beneficentes estão aí para fazer o que é preciso ser feito, aos sábados, domingos e feriados. Eu respeito muito mais os altruístas que fazem aquilo que tem de ser feito do que os egoístas que só querem “fazer o que gostam”.
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Então teremos de trabalhar em algo que odiamos, condenados a uma vida profissional chata e opressiva? Existe um final feliz. A saída para esse dilema é aprender a gostar do que você faz. E isso é mais fácil do que se pensa. Basta fazer seu trabalho com esmero, bem feito. Curta o prazer da excelência, o prazer estético da qualidade e da perfeição.
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Aliás, isso não é um conselho simplesmente profissional, é um conselho de vida. Se algo vale a pena ser feito na vida, vale a pena ser bem feito. Viva com esse objetivo. Você poderá não ficar rico, mas será feliz. Provavelmente, nada lhe faltará, porque se paga melhor àqueles que fazem o trabalho bem feito do que àqueles que fazem o mínimo necessário.
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Se quiser procurar algo, descubra suas habilidades naturais, que permitirão que realize seu trabalho com distinção e o colocarão à frente dos demais. Muitos profissionais odeiam o que fazem porque não se prepararam adequadamente, não estudaram o suficiente, não sabem fazer aquilo que gostam, e aí odeiam o que fazem mal feito.
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Sempre fui um perfeccionista. Fiz muitas coisas chatas na vida, mas sempre fiz questão de fazê-las bem feitas. Sou até criticado por isso, porque demoro demais, vivo brigando com quem é incompetente, reescrevo estes artigos umas quarenta vezes para o desespero de meus editores, sou superexigente comigo e com os outros.
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Hoje, percebo que foi esse perfeccionismo que me permitiu sobreviver à chatice da vida, que me fez gostar das coisas chatas que tenho de fazer.
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Se você não gosta de seu trabalho, tente fazê-lo bem feito. Seja o melhor em sua área, destaque-se pela precisão. Você será aplaudido, valorizado, procurado, e outras portas se abrirão. Começará a ser até criativo, inventando coisa nova, e isso é um raro prazer.
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Faça seu trabalho mal feito e você odiará o que faz, odiando a sua empresa, seu patrão, seus colegas, seu país e a si mesmo.
Stephen Kanitz

Teologia e MPB, é o nome da comunidade, criada pelo cantor e compositor Jorge Camargo.

“4Se estiveres à espera das condições ideais para realizar qualquer coisa, nunca farás nada – quem está sempre a observar o vento, de que lado está ou não está, nunca chegará a semear nada; quem anda sempre a olhar para as nuvens, a ver se chove ou não, nunca segará.
5As formas de actuação de Deus são tão misteriosas como os caminhos do vento, e como a maneira pela qual o espírito do homem se introduz no pequenino corpo dum bebé, formando-se no ventre de sua mãe. Assim também não compreendes as obras de Deus, que faz todas as coisas.
6Por isso, pela manhã lança as sementes à terra, continua pela tarde; porque não sabes qual a semente que virá a crescer, se esta, se aquela, ou mesmo se todas.”
Discurso de Nizan Guanaes na formatura da FAAP
Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, sou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns. Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos. Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma.
A propósito disso, lembro-me uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: “Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo.” E ela responde: “Eu também não, meu filho”. Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar em realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna. Meu segundo conselho: pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega viver como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu. Que era ficção, mas hoje é realidade, na pessoa de Geraldo Bulhões, Denilma e Rosângela, sua concubina.
Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laudiceia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É preferível o erro à omissão. O fracasso, ao tédio. O escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tendo consciência de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado, para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não sente-se e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse!, eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansear, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios. Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.

Disciplina, na minha opinião, é a capacidade que permite à razão ser mais forte e vencer nossas vontades e nossa preguiça. É porque desenvolvemos essa qualidade que conseguimos fazer exercícios maçantes todos os dias na mesma hora; que evitamos comidas com muitas calorias ou prejudiciais à saúde; que nos faz abrir mão de coisas materiais para poupar e atingir um objetivo maior. Pessoas disciplinadas conseguem estudar quando, na verdade, estavam com vontade de assistir à televisão ou bater papo com os amigos.
Não resta a menor dúvida: os disciplinados terão maiores chances de sucesso nas atividades às quais se dedicarem. Entre talento e disciplina, é melhor ter os dois. Porém, a longo prazo, esta última é mais importante. Mas precisa ser conquistada. É verdade que há pessoas que aceitam melhor as contrariedades. Essa capacidade de aceitação aumenta à medida que se desenvolvem a linguagem e o raciocínio lógico. Ambos nos ajudam a compreender por que nossas vontades nem sempre podem ser satisfeitas. Aprendemos a suportar melhor a dor. A principal tarefa da educação, especialmente durante os primeiros anos de vida, seja desenvolver a razão e suas forças com o intuito de sermos capazes de “domesticar” nossas vontades.
Uma visão equivocada da psicologia nos levou, nas últimas décadas, a privilegiar o livre exercício do desejo. O papel da razão – freio limitador dos impulsos – foi encarado como algo repressivo e negativo. Além disso, os pais, com medo de traumatizar os filhos e de perder o amor deles, têm fugido da tarefa, às vezes desagradável, de estabelecer limites e estimular as crianças a usar com eficiência a razão para dirigir suas vidas. Na educação infantil, essa é a tarefa número um dos pais. Ao aprender a utilizar a razão em benefício próprio, a criança e depois o adulto experimentam enorme satisfação quando se sentem disciplinados. Sim, porque é nestes momentos que nos consideramos animais mais sofisticados, que definimos com propriedade de racionais.
A alegria íntima de quem se levanta cedo, faz exercícios e chega na hora certa aos compromissos assumidos é algo que não pode ser subestimado. Sentimo-nos fortes quando conseguimos nos controlar – coisa muito difícil. Sentimos que vencemos a batalha mais árdua: a interior. A auto-estima cresce. E para que nossos filhos experimentem todas essas sensações tão boas, devemos lhes ensinar, desde cedo, a abrir mão de suas vontades, sempre que a razão assim achar conveniente e útil.
Texto livremente adaptado do artigo “Disciplina e Educação”, do médico Flávio Gikovate

FREAKONOMICS: A economia dos vales-presentes
Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt
O que a matrícula numa academia de ginástica, um vidro de remédios com prescrição médica e um vale-presente de Natal têm em comum? Todas são coisas compradas e muitas vezes não utilizadas.
Em seu recente trabalho “Pagar para Não Ir à Academia”, os economistas Stefano DellaVigna e Ulrike Malmendier mostraram que as pessoas que compram um título anual para um clube de ginástica superestimam em mais de 70% o quanto elas realmente o usarão. Muitas pessoas, portanto, fariam melhor comprando passes mensais ou diários.
A Cochrane Collaboration, um grupo de pesquisas de saúde baseadas em evidências, divulgou recentemente um relatório sobre pacientes que deixam de tomar seus remédios. “As pessoas para as quais se prescrevem medicamentos auto-administrados geralmente tomam menos da metade das doses prescritas”, disse o trabalho. Embora isso possa ser mais perturbador como questão médica do que financeira, de todo modo é verdade que nossos armários de remédios estão cheios de bilhões de dólares em remédios não utilizados.
Quanto aos vales-presentes – bem, vamos dizer apenas que há um bom motivo para eles serem conhecidos na indústria de varejo como “produto de valor armazenado”: eles armazenam seu valor muito bem, e com freqüência permanentemente. A firma de pesquisas de serviços financeiros TowerGroup estima que dos US$ 80 bilhões gastos em vales-presentes em 2006 cerca de US$ 8 bilhões jamais serão descontados – “um impacto maior sobre os consumidores do que o total combinado das fraudes com cartões de débito e de crédito”, comenta a Tower. Uma pesquisa da Marketing Workshop Inc. descobriu que somente 30% dos que recebem um vale-presente o utilizam um mês depois de recebê-lo, enquanto a “Consumer Reports” estima que 19% das pessoas que receberam vales-presentes em 2005 não os utilizaram.
Considerando que dois terços de todos os compradores de Natal em 2006 pretendiam dar a alguém um vale-presente, você provavelmente recebeu um nas últimas semanas. Talvez você esteja entre a excepcional minoria que já o utilizou, ou o fará brevemente. Mas pelas estatísticas ele acabará ficando na sua gaveta de meias.
Isso quer dizer que um vale-presente é um mau presente? A resposta depende de para quem você pergunta e também exige outra pergunta: afinal, o que um presente pretende conquistar?
Um economista poderia descrever um presente como um mecanismo de sinalização que permite que uma pessoa diga a outra que: a) está pensando nela; b) se importa com ela; c) quer lhe dar alguma coisa que ela vai valorizar.
É claro que há muitos tipos diferentes de receptores e de relacionamentos. É muito fácil dar presentes para pessoas que não têm dinheiro ou condições de obter as coisas por si mesmas – as crianças, por exemplo. Como uma criança não pode se conduzir até a loja de brinquedos e provavelmente não tem muito dinheiro próprio, dando-lhe um brinquedo você estará expandindo substancialmente o conjunto de coisas a que ela tem acesso. O que torna quase qualquer presente significativo.
Com os adultos a coisa é um pouco mais complexa. Um adulto tem liberdade para comprar o que quiser, e supostamente sabe do que gosta. Por isso, idealmente, você gostaria de lhe dar algo que ele gostaria de ter, mas não sabe, ou algum tipo de prazer culpado que ele não compraria para si mesmo.
Em qualquer dos casos você está criando valor para o receptor, dando-lhe algo que na verdade vale mais para ele do que o dinheiro que você gastou.
Mas realisticamente, a maioria de nossos presentes fica muito aquém desse padrão elevado. Isso gera muita ineficiência. Em 1993, o economista Joel Waldfogel abordou esse tema em um trabalho cuja fama contínua nos círculos econômicos se deve em parte a seu título maravilhosamente perverso: “A Perda Irrecuperável do Natal”. Como os presentes “podem errar as preferências dos receptores”, argumentou Waldfogel, é provável que “o presente deixe o receptor pior do que se ele tivesse feito sua própria opção de consumo com a mesma quantia de dinheiro”. Ele concluiu que “os presentes de Natal destroem entre 10% e um terço do valor dos presentes”.
Se o fato de dar presentes destrói tanto valor, por que não adotar o caminho mais eficiente e simplesmente dar dinheiro? Obviamente, algumas pessoas fazem isso. Na pequena pesquisa entre estudantes de Yale em que Waldfogel baseou seu trabalho, os avós deram dinheiro 42% das vezes e os pais deram dinheiro 10% das vezes. Mas nenhuma vez um estudante recebeu dinheiro de sua cara-metade. Claramente existem alguns relacionamentos nos quais um presente em dinheiro é adequado, mas na maioria dos casos o tabu social esmaga o sonho dos economistas de uma troca tão maravilhosamente eficaz.
Então, se dinheiro é inadequado e comprar presentes é ineficaz, um vale-presente – não tão utilitário quanto dinheiro, mas também não tão frio – seria a solução perfeita?
Você certamente poderia defender essa tese. E para o comerciante, pelo menos, o vale-presente é uma bênção. Pense nisso: nas semanas que antecedem o Natal, milhões de pessoas visitam sua loja ou site na web e lhe dão bilhões de dólares em troca de nada mais que uma promissória de plástico que talvez nunca seja descontada. A Best Buy, por exemplo, ganhou US$ 16 milhões no ano passado em “quebra” de vales-presentes (o termo do setor para o valor de vales que foram comprados mas não descontados). Depois há o que os varejistas chamam de “gastos adicionais”: a maioria dos clientes que usam seus vales-presentes gasta parte do próprio dinheiro para comprar mercadorias mais caras que o vale.
Para o doador, enquanto isso, um vale-presente não poderia ser mais fácil. Mas a maioria dos economistas afirmaria que se o vale-presente é tão claramente bom para o doador é necessariamente ruim para o receptor: o fato de que pode ser comprado tão facilmente indica ao receptor que o doador não se esforçou muito para comprar o presente.
Afinal, o valor de qualquer presente depende enormemente da natureza da relação entre doador e receptor. O economista Alex Tabarrok, escrevendo recentemente no blog Marginal Revolution, colocou um viés ainda mais delicado nesse fato, notando que cada um de nós tem muitos “eus”, incluindo um “eu primitivo”, e que “queremos que o eu primitivo de outra pessoa fique louco por nós”. Seu conselho? “Se você quiser agradar o economista que há em mim, mande-me dinheiro. Se você quiser agradar meu eu primitivo (você sabe quem você é!), use sua imaginação.”
Por isso, este ano, se você precisar de um presente para um racionalista rígido, pense em dinheiro. Se você quiser atrair o eu primitivo de alguém, terá de usar sua imaginação. E se você espera mandar um presentinho extra para os acionistas da Best Buy, Gap ou Tiffany, considere um vale-presente.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


