O que se segue demonstrará que a graça é um fenômeno comum e, até certo ponto, previsível. No entanto, dentro da estrutura conceitual da ciência convencional e da “lei natural”, a realidade da graça continuará a ser inexplicável. Permanecerá miraculosa e surpreendente.
.
Saúde Mental
.
Há vários aspectos da prática da psiquiatria que nunca param de me surpreender, assim como a muitos outros psiquiatras. Um deles é o fato de que nossos pacientes são surpreendentemente saudáveis mentalmente. …o que não sabemos é por que a neurose não é mais grave – por que um paciente ligeiramente neurótico não é gravemente neurótico, ou por que um paciente gravemente neurótico não é totalmente psicótico. Inevitavelmente encontramos um paciente que sofreu determinados traumas que produziram uma neurose, mas esses traumas são tão intensos que, no curso normal das coisas, a neurose deveria ser mais grave.
.
Um bem-sucedido homem de negócios de 35 anos procurou me devido a uma neurose que só poderia ser descrita como leve. Ele era filho ilegítimo e, no início da infância, foi criado apenas pela mãe, surda-muda, nas favelas de Chicago. Quando tinha cinco anos, o Estado, acreditando que sua mãe não teria competência para criá-lo, tirou-o dela sem aviso ou explicações, colocando-o em uma sucessão de três lares adotivos, onde foi rotineiramente tratado de modo indigno e com uma total falta de atenção. Aos quinze anos, ficou parcialmente paralítico devido à ruptura de um aneurisma congênito em um dos vasos sangüíneos do cérebro. Aos dezesseis, deixou seus últimos pais adotivos e começou a viversozinho. Aos dezessete, previsivelmente, foi preso por um assalto particularmente cruel e sem motivo. Não recebeu nenhum tratamento psicológico na prisão.
.
Ao ser liberado, após seis meses de tedioso confinemento, as autoridades lhe arranjaram um emprego como funcionário subalterno em uma empresa bastante comum. Nenhum psiquiatra ou assistente social no mundo teria previsto algo de bom para seu futuro. Contudo, em três anos, tornou-se o mais jovem chefe de departamento na história da empresa. Em cinco anos, depois de se casar com outra executiva, deixou o emprego, abriu seu próprio negócio e teve sucesso, tornando-se um homem relativamente rico. Quando começou a se tratar comigo, tornara-se, além disso, um pai amoroso e eficaz, um intelectual autodidata, um líder comunitário e um perfeito artista. Como, quando, por que e onde isso tudo aconteceu? Dentro dos conceitos comuns de causalidade, não sei. Juntos pudemos traçar com exatidão, dentro da estrutura usual de causa e efeito, os determinantes de sua leve neurose, e curá-lo. Mas não conseguimos nem de longe determinar as origens do seu sucesso imprevisível.
.
Esse caso foi citado exatamente pela dramaticidade dos seus traumas observáveis e pela obviedade das circunstâncias do seu sucesso. Na grande maioria dos casos, os traumas da infância são bem mais sutis (embora em geral igualmente devastadores) e a evidência da saúde menos simples, mas o padrão é basicamente o mesmo. Por exemplo, é raro vermos pacientes que não sejam mais saudáveis mentalmente do que seus pais. Sabemos muito bem por que as pessoas têm desordens mentais. O que não sabemos é por que elas sobrevivem tão bem aos traumas de suas vidas. Sabemos exatamente por que algumas delas cometem suicídio. O que não sabemos, dentro dos conceitos comuns de causalidade, é por que outras não. Tudo que podemos dizer é que há uma força, cujo mecanismo não entendemos totalmente, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde mental, mesmo sob as condições mais adversas.
.
Saúde Física
.
Sabemos muito mais sobre as causas das doenças físicas do que sobre as da saúde física. Por exemplo, pergunte a qualquer médico o que causa a meningite meningocócica e a resposta imediata será: “O meningococo, é claro.” Contudo, há um problema. Se neste inverno eu coletasse material diariamente nas gargantas dos habitantes do vilarejo onde moro, descobriria que essa bactéria está presente em aproximadamente nove entre dez deles. Mas há muitos anos não é registrado nenhum caso de meningite meningocócica aqui, e provavelmente não haverá nenhum neste inverno. O que está acontecendo? A meningite meningocócica é uma doença relativamente rara, mas seu agente causador é bastante comum. Os médicos usam o conceito de resistência para explicar esse fenômeno, afirmando que o corpo possui uma série de defesas que impedem a invasão de suas cavidades pelo meningococo, assim como por vários outros organismos nocivos onipresentes. Sem dúvida isso é verdade; de fato sabemos muito sobre essas defesas e de como elas operam. Mas grandes questões continuam sem resposta. Enquanto algumas das pessoas deste país que morrerão de meningite meningocócica neste inverno estarão debilitadas ou terão uma história de baixa resistência, a maioria delas será de indivíduos anteriormente saudáveis sem deficiências conhecidas em seu sistemas imunológicos. Em certo nível, poderemos dizer com certeza que o meningococo foi a causa da sua morte, mas isto é claramente superficial. Em um nível mais profundo, não saberemos por que morreram. O máximo que poderemos dizer é que as forças que costumam proteger nossas vidas por alguma razão deixaram de operar nelas.
.
Embora o conceito de resistência comumente seja aplicado às doenças infecciosas, como a meningite, de certo modo também pode ser aplicado a todas as doenças físicas; entretanto, no caso das doenças não-infecciosas, não sabemos quase nada sobre como a resistência funciona. Um indivíduo pode sofrer um único ataque relativamente leve de colite ulcerativa – uma desordem geralmente considerada psicossomática -, recuperar-se totalmente e nunca mais ter esse problema na vida. Outro pode sofrer repetidos ataques e se tornar cronicamente inválido devido à doença. Um terceiro pode manifestar a doença repentinamente e morrer do primeiro ataque. A moléstia parece ser a mesma, mas o resultado é totalmente diferente. Por quê? Não sabemos. Só podemos dizer que indivíduos com um certo padrão de personalidade parecem ter diferentes tipos de dificuldades para resistir à desordem, enquanto a grande maioria de nós não tem dificuldade alguma. Como isso pode acontecer? Também não sabemos. Essas perguntas podem ser feitas sobre quase todas as doenças, inclusive as mais comuns, como ataques cardíacos, derrames, cânceres, úlceras pépticas e outras. Um número crescente de pensadores está começando a sugerir que quase todas as desordens são psicossomáticas – que a psique está de algum modo envolvida nas várias falhas do sistema imunológico. Mas o fato surpreendente não é que o sistema imunológico falhe, mas sim que ele funcione tão bem. No curso normal das coisas deveríamos ser devorados vivos pelas bactérias, consumidos pelo câncer, entupidos por gorduras e coágulos, corroídos por ácidos. Adoecer e morrer não é surpresa; o que é realmente digno de nota é que em geral não adoecemos com muita freqüência e demoramos a morrer. Portanto, podemos dizer sobre as desordens físicas o mesmo que dissemos sobre as desordens mentais. Há uma força, cujo mecanismo não entendemos bem, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde física, mesmo sob as condições mais adversas.
.
Saude em acidentes?
.
A questão dos acidentes levanta questionamentos ainda mais interessantes. Muitos médicos e a maioria dos psiquiatras tiveram a experiência de encarar o fenômeno da tendência a acidentes. Entre os muitos exemplos em minha carreira o mais dramático foi o de um garoto de quatorze anos que fui ver como parte de sua admissão em um centro de tratamento residencial para jovens delinqüentes. Sua mãe morrera em novembro do seu oitavo ano. Em novembro do seu nono ano, ele caiu de uma escada e fraturou o úmero (braço). Em novembro do seu décimo ano, acidentou-se em uma bicicleta e teve uma fratura de crânio e uma concussão grave. Em novembro do seu décimo primeiro ano, caiu de uma clarabóia e fraturou o quadril. Em novembro do seu décimo segundo ano, caiu do skate e fraturou o pulso. Em novembro do seu décimo terceiro ano, foi atropelado por um carro e fraturou a bacia. Ninguém duvidaria de que ele realmente tinha uma tendência a acidentes, nem das razões disso. Mas como os acidentes aconteciam? O garoto não se machucava propositadamente. Tampouco tinha consciência da sua tristeza pela morte da mãe. Ele me disse calmamente que “se esquecera totalmente dela”. Para começar a entender como esses acidentes aconteciam, acho que precisamos aplicar o conceito de resistência ao fenômeno dos acidentes, assim como ao fenômeno da doença – pensar em termos de resistência a acidentes assim como em tendência a acidentes. Não é que certas pessoas em determinados momentos de suas vidas simplesmente tendam a se acidentar; ocorre também que, normalmente, a maioria de nós tem resistência a acidentes.
.
Em um dia de inverno, quando eu tinha nove anos e carrega, vã meus livros escolares por uma rua cheia de neve, escorreguei e caí. Um carro que se aproximava rapidamente freou e parou. Minha cabeça ficou na mesma altura dos pára-lamas dianteiros, e meti corpo embaixo do carro. Saí de baixo do carro e corri para casa em pânico, mas ileso. Esse acidente em si não parece tão notável; pode-se simplesmente dizer que tive sorte. Mas consideremos todas as vezes em que por pouco não fui atingido por carros enquanto caminhava, andava de bicicleta ou dirigia; as vezes em que, na direção de um carro, quase atropelei pedestres ou ciclistas no escuro; nos momentos em que pisei no freio e parei a centímetros de outro veículo; quando, ao esquiar, por um triz não bati em árvores; as vezes em que quase despenquei de janelas ou quando um bastão de golfe quase acertou minha cabeça, e assim por diante. O que é isso? Será que levo uma “vida encantada”? Se os leitores examinarem suas próprias vidas, creio que a maioria acabará descobrindo que o número de acidentes que quase aconteceram com eles é maior do que o dos que realmente aconteceram. Além disso, acredito que os leitores reconhecerão que seus padrões de sobrevivência – de resistência a acidentes – não resultam de um processo decisório consciente. Será que a maioria de nós leva “vidas encantadas”? Será verdade o verso da canção “Foi a graça que me trouxe em segurança até aqui”?
.
Alguns podem achar que não ha nada de excitante nisso tudo, que todas as coisas sobre as quais estivemos falando são apenas manifestações do instinto de sobrevivência. Mas dar nome a alguma coisa explica o que ela é? O faio de termos um instinto de sobrevivência parece banal porque nós o chamamos de instinto? Nosso entendimento das origens e dos mecanismos instintivos é, na melhor das hipóteses, minúsculo. Na verdade, a questão dos acidentes sugere que nossa tendência a sobreviver pode ser algo além e até mesmo mais miraculoso do que um instinto – um fenômeno em si já bastante miraculoso. Embora não entendamos quase nada sobre os instintos, realmente os concebemos operando dentro dos limites do indivíduo que os possui. Podemos imaginar a resistência às desordens mentais ou físicas na mente consciente ou nos processos físicos do indivíduo. Contudo, os acidentes envolvem interações entre indivíduos, ou entre indivíduos e coisas inanimadas. As rodas daquele carro não passaram por cima de mim quando eu tinha nove anos devido ao meu instinto de sobrevivência, ou por que o motorista tinha uma resistência instintiva a me matar? Talvez tenhamos um instinto que preservei não apenas as nossas próprias vidas, mas também a vida dos outros
.
Embora eu não tenha experimentado isso pessoalmente, tive vários amigos que testemunharam acidentes em que as “vítimas” se arrastaram praticamente intactas para fora de veículos total, mente destruídos. A reação deles foi de pura estupefação. “Não entendo como alguém poderia ter sobrevivido a um acidente desses, muito menos sem nenhum ferimento grave!”, dizem. Como podemos explicar isso? Puro acaso? Esses amigos, que não são pessoas religiosas, ficaram impressionados exatamente porque o acaso não parecia estar envolvido nesses incidentes. “Ninguém poderia ter sobrevivido”, garantem. Embora não sejam religiosos, e nem mesmo tenham refletido sobre o que diziam ao tentar digerir essas experiências, meus amigos fizeram comentários como: “Bem, acho que Deus ama os bêbados” ou “Acho que ainda não era sua hora”. O leitor pode escolher entre considerar o mistério desses incidentes “puro acaso” ou um “capricho do destino”, e assim evitar maiores reflexões. Mas um exame mais atento revela que nosso conceito de instinto não consegue explicá-los satisfatoriamente. Um veículo motorizado inanimado possui um instinto de se deformar no instante do impacto para preservar os contornos do corpo humano preso em seu interior? Ou o ser humano possui um instinto de, no momento da colisão, adaptar seus contornos ao padrão do veículo deformado? Essas perguntas parecem intrinsecamente absurdas. Embora eu prefira continuar explorando a possibilidade de explicar esses incidentes, está claro que nosso conceito tradicional de instinto não me será muito útil. Talvez o conceito de sincronicidade seja mais…
.
Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck
.
Veja também A Graça falando no programa do Jô