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Quem é o homem que eu estou vendo ?
Onde eu deveria estar?
Perdi meu coração
Eu enterrei fundo demais
Sob o mar de ferro

Bola de cristal salve todos nós!
E me diga que a vida é bela

Estou me esvaindo
Tudo o que sei esta errado
…eu me olho no espelho
mas não há ninguem…

Keane – Crystall Ball


“Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” João 3:17


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Obrigado pela atenção e paciência :)

Linkin Park – What I’ve Done

Outra tradução possível…
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“So let mercy come, and wash away…”
Então deixe a misericórdia* vir e levar* embora

*misericórdia: ter compaixão pela miséria alheia
*levar: no sentido de uma onda que destrói, uma maremoto…

“Falta de fé parece então consistir em desistir de retornar, de tentar mais uma vez. O que não crê se entrega nos braços do (des)espero, do não esperar mais nada das pessoas, de si mesmo, de Deus.” Gladyr Cabral


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John Woolman (alfaiate Quacker do século XVIII, cujo diário é um clássico da espiritualidade) o fez. Ele resolveu organizar seus afazeres exteriores de tal modo que pudesse estar, a cada momento, atento àquela voz. Simplificou sua vida à base de sua relação com o Centro divino. Nada mais valia tanto quanto a atenção à Raiz de todo viver que ele descobria dentro de si mesmo. E a descoberta Quacker é justamente esta: os sussurros de orientação, amor e presença divinos, mais preciosos que o céu e terra. John Woolman nunca permitiu que as exigências do seu negócio ultrapassassem suas necessidades reais. Quando vinham muitos clientes, ele os mandava para outro lugar, para comerciantes e alfaiates mais necessitados. Sua vida exterior tornou-se simplificada à base de uma integração interior. Descobriu que podemos ser homens e mulheres guiados pelo céu, e se rendeu completamente, sem reservas àquela orientação, tornado-se aquecido e próximo ao Centro. Eu disse que sua vida exterior tornou-se simplificada, e usei de propósito a voz passiva. Ele não precisou lutar e renunciar e se esforçar para alcançar a simplicidade. Ele rendeu-se ao Centro, e sua vida tornou-se simples. Era sinótico; tinha singeleza de visão. “Se o teu olho for singelo, todo o corpo ser cheio de luz”. Seus muitos egos integravam-se num só ego verdadeiro, cujo único objetivo era de andar humildemente na presença, orientação e vontade de Deus. Nada de derrota eleitoral de uma minoria de egos descontentes. Era como se houvesse nele um presidente que no silêncio solene da interioridade, percebia o consenso da reunião. Eu direi que o método Quacker de conduzir as reuniões administrativas aplica-se também, individualmente às nossas vidas interiores.
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No centro, no abismo onde habita o Eterno no fundo do nosso ser nossos programas, doações e oferenda de tarefas realizadas estão sendo constantemente reavaliadas. Não conseguíamos dizer “não” a eles, porque pareciam tão importantes. Mas se centrarmo-nos e vivermos no Silencio que é mais precioso do que a vida, e levarmos o nosso programa para os lugares silenciosos do coração, com abertura total, prontos a fazer ou renunciar segundo a Sua direção, muitas das coisas que fazemos perderão a sua importância.
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…Desejo ser drástico e impiedoso em desmascara qualquer fingimento na questão da devoção e singeleza de amor a Deus. Mas devo confessar que não leva tempo, nem complica seu programa. Tenho descoberto que uma vida de sussurros de adoração, de louvor e de oração pode permear o dia. É possível ter um dia muito cheio, no sentido exterior, e mesmo assim estar continuamente na Santa Presença. Precisamos, isto sim, e uma tranqüila meia hora ou hora de leitura e reflexão. Mas podemos levar os silêncios recriadores dentro de nós, quase o tempo todo.

Com alegria leio o irmão Lawrence (irmão leigo francês do século XVIII), na sua “Prática da Presença de Deus”. No final da quarta conversação, diz-se dele: “Nunca estava apressado nem ocioso, mas fazia tudo a seu tempo, com uma serenidade ininterrupta e espírito tranqüilo”. A hora de negócios, diz ele, para mim não difere da hora de oração, e no barulho e tinido de minha cozinha, com várias pessoas pedindo coisas ao mesmo tempo, possuo a Deus com a mesma tranqüilidade, como se estivesse ajoelhado recebendo o sacramento. “A verdadeira razão de não recolhermo-nos, não centrarmo-nos, não é falta de tempo; em muitos de nós, ao que me parece, é a falta de um prazer entusiasta nele, de um profundo amor dirigido a Ele em todo momento do dia e da noite. Deve ficar claro que estou falando de um estilo revolucionário de viver. A religião não é algo que acrescentamos às nossas outras tarefas, assim tornando ainda mais complexas as nossas vidas. A vida com Deus é o Centro da Vida, e tudo mais é remoldado e integrado de acordo.

É isso que dá singeleza de visão. O mais importante não é estar sempre passando copos de á grua fria para um mundo sedento. É possível estarmos tão ocupados tentando cumprir o segundo grande mandamento, “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, que ficamos sub-desenvolvidos na nossa devoção a Deus. Mas, temos que amar a Deus tanto quanto ao próximo. Estas coisas deveríamos fazer sem deixar a outra pela metade. Há um estilo de vida tão oculto com Cristo em Deus que, em meio dos afazeres do dia, podemos elevar interiormente breves orações de louvor, sussurros de adoração e amor ao além que está dentro de nós. Ninguém precisa saber. É possível viver um estado quase contínuo de oração silenciosa, orações com respeito a Deus ou com respeito a pessoas e empreendimento que estão no nosso coração. Nada de pressa; é uma vida indizível e cheia de glória, um mundo interior de glória, um mundo interior de esplendor o qual, embora indignos, podemos viver. Alguns de vocês o conhecem e vivem nele; outros ardentemente o desejam; pode ser seu. Deste centro Santo vêm os encargos da vida. Nossa comunhão com Deus desemboca numa preocupação mundial. Não podemos guardar o amor de Deus só para nós mesmos. Transborda, nos aviva, nos faz ver novamente as necessidades do mundo. Amamos as pessoas e ficamos aflitos de vê-las cegas quando poderiam estar acordados e vivendo sacrificialmente; aceitando os bens do mundo como seu direito quando, na realidade, lhes foram apenas confiados temporariamente. “A maior necessidade dos homens não é comida, roupa e abrigo, embora todas estas coisas sejam importantes. É Deus. Equivocamo-nos quanto à natureza da pobreza, achando que é econômica. Não, é pobreza de alma, da privação da paz recriadora de Deus. Nossos esquemas de salvação econômica não atingem as necessidade mais profundas. São importantes, mas constituem num segundo passo no caminho da reconstrução mundial.

O primeiro passo é um vida santa, transformada e radiante da glória de Deus. Este amor pelas pessoas é quase tão estupendo quanto o amor a Deus. Queremos ajudar as pessoas porque temos pena delas, ou porque realmente as amamos? O mundo precisa de algo mais profundo do que a pena, precisa de amor. (Quão banal esta frase, mas quão verdadeira!) Mas no nosso amor às pessoas, seremos apressados englobando todos os homens e tarefas na nossa preocupação amorosa? Não, esta é a função de Deus. Mas ele, operando em nós, divide a sua preocupação vasta e dá a cada um de nós a porção devida. Esta se torna a nossa tarefa. A vida do Centro é uma vida dirigida do céu. Boa parte da nossa aceitação de uma multidão de obrigações é devido à nossa incapacidade de dizer “não”. Vemos que uma tarefa precisa ser feita e não há ninguém para fazê-la. Calculamos o nosso tempo e decidimos que talvez dê para incluí-la. Mas a decisão parte da cabeça, não do santuário da alma.

Quando dizemos “sim” ou “não” nessa base, temos que dar razões, para nós mesmos e para os outros. Mas quando dizemos “sim” ou “não” à base da orientação interior e sussurros de incentivo do Centro, ou então à base da ausência de qualquer “elevação” interior da vida para nos encorajar, não temos razões para dar, menos uma – a vontade de Deus como nós a discernimos. Aí começamos a viver sob a orientação divina. E tenho descoberto que Ele nunca nos guia a viver num frenesi intolerável. a paciência, pois Deus está operando no mundo. Não trabalhamos sozinhos no mundo. Tentando terminar desesperadamente uma obra para ofertar a Deus. A vida do Centro é de paz e poder. É simples. É serena. É triunfante. É radiante. Não ocupa tempo algum, mas ocupa o nosso tempo todo. Renova nossos programas. Não precisamos ficar frenéticos; ele é o timoneiro. E quando termina o nosso pequeno dia, deitamos em paz, pois tudo vai bem. Curitiba, verão de 1997.


Teologia e MPB, é o nome da comunidade, criada pelo cantor e compositor Jorge Camargo.

Confira e participe…

Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior. As distrações exteriores dos nossos interesses refletem a falta interior de integração das nossas vidas. Queremos ser vários egos ao mesmo tempo, sem que todos esses egos estejam organizados por uma única e soberana Vida dentro de nós. Todos nós temos a tendência de ser, não um único ego, mas todo um comitê de egos. Há o ego cívico, o ego paterno, o ego financeiro, o ego religioso, o ego profissional, e ego literário. E cada um desses egos, por sua vez é um franco individualista, não cooperando, mas votando aos berros em si mesmo quando chega a hora da votação. Muitas vezes seguimos o método eleitoral para chegar a uma rápida decisão entre as nossas vozes interiores conflitantes.
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É como se tivéssemos um presidente do comitê, que não integra os muitos egos, mas apenas conta os votos e deixa minorias descontentes. As reclamações de cada ego deixam de ser feitas. Se aceitamos servir na comissão de uma obra social, continuamos sentir remorso por não podermos também ensinar na Igreja. Não somos integrados: somos angustiados. Sentimos o clamor de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E, no entanto, somos infelizes, receosos, tensos e oprimidos, com medo de sermos superficiais. Pois, desde além das margens da vida vem um sussurro, um apelo indistinto, um presságio de uma vida rica que estamos deixando escapar. Contorcidos pelo ritmo louco dos nossos afazeres, somos ainda por cima incomodados por uma inquietação interior, pois não deixamos de receber intimações da existência de um estilo de vida muito mais rico e profundo do que toda nossa pressa, uma vida de serenidade, paz e poder. Ah! Se pudéssemos descobrir o silêncio que é a fonte do som! Conhecermos algumas pessoas que parecem ter descoberto esse Centro profundo, onde os clamores insistentes da vida são integrados, onde o “não”, tanto quanto o “sim” podem ser ditos com confiança.

Já vimos vidas assim, integradas, tranqüilas no meio de decisões difíceis, vida alegres, vigorosas, positivas. Não são pessoas preguiçosas ou vadias, nem obviamente absortas em profundas meditações; estão carregando um fardo tão pesado quanto o nosso, mas com um passo leve, sem abatimento nem irritação. Sua vida cotidiana é cercada por uma auréola de infinita paz, poder e júbilo. Nós somos tão tensos e inquietos; eles tão equilibrados e em paz.

Se a sociedade de Amigos (os Quakers) tem algo a dizer, é principalmente nesta área. A vida deve ser vivida a partir de um Centro, o Centro Divino. Cada um de nós é capaz de viver uma vida de estupendo poder e paz e serenidade, de integração e confiança e multiplicidade simplificada sob uma condição: que realmente queiramos isto. Há em todos nós um abismo divino, cum Centro infinito, um coração, uma Vida que fala em nós e através de nós para o mundo. Todos já ouvimos este sussurro Santo. As vezes, seguimos o sussurro, e produz-se em nós um espantoso equilíbrio de vida, uma estupenda eficácia. Mas muitos de nós atendemos a esta voz apenas esporadicamente. Só de vez em quando submetemo-nos à sua santa orientação. Não temos considerado esta coisa santa em nós como a coisa mais preciosa do mundo. Não temos aberto mão de tudo mais, para atendermos a ela somente. Repito: a maioria de nós não tem abandonado todas as outras coisas para poder atender ao Santo que está em nós.
Continua na semana que vem.

Benjamin Nugent/Nova York
Tradução: George El Khouri Andolfato

A missão social de Bono do U2 na África O maior astro do rock do mundo também é o maior defensor da África. Mas Bono sabe que precisa defender a ajuda com a cabeça, e não com o coração Por Josh Tyrangiel Bono é um egomaníaco. Ele sabe disto e freqüentemente se desculpa por isto. Quando ele desobedece as instruções de seu empresário, ele repreende a si mesmo -”astro pop malvado”- o que permite que comente o ridículo do estrelato pop ao mesmo tempo que serve como um lembrete de que ele é, de fato, um astro pop. Ele seria um megalomaníaco caso sua preocupação com o poder fosse ilusória, mas não é. Há menos de um mês, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, ele se sentou ao lado de Bill Gates para discutir formas de salvar um continente; dois dias depois ele cantou para uma audiência de televisão de 130 milhões durante o show de intervalo do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano. Não foi uma semana ruim. Dá para culpar o sujeito por ser um pouco cheio de si? Com um mero movimento de cabeça, Bono pode comandar a atenção de um estádio lotado. Mas quando ele trabalha em uma sala menor, seu carisma se adapta; ele se torna sereno, hábil.

No final de certa noite, durante o fórum em Nova York, uma dúzia de representantes da Fundação Bill & Melinda Gates, da Igreja Episcopal, MTV e Data (Dívida, Ajuda e Comércio para a África) se reuniram para uma sessão estratégica em um salão nos fundos de um restaurante de Manhattan. O grupo estava debatendo formas para convencer os americanos de que salvar a África da ruína financeira é do interesse dos Estados Unidos. Como freqüentemente acontece no debate sobre a África, a discussão eventualmente afundou em uma frustração cansada. Por volta da meia-noite, o ar abandonou o salão e, com ele, qualquer lampejo de produtividade. Então Bono, o cantor da banda U2, entrou. Vestindo uma jaqueta preta de couro, seus óculos característicos tingidos de azul e um sorriso maroto, ele deslizou em volta da mesa, apertando mãos e beijando bochechas. Como o Super-Homem se transformando em Clark Kent, o zeloso ativista político entrou em ação. Antes que tipos tímidos pudessem cochichar sobre algum encontro anterior, ele os colocou à vontade, mencionando seus nomes e as circunstâncias da última vez que se encontraram: “É claro! O fórum em Boston!” Concluída sua transmissão de ânimo, Bono -fundador, porta-voz e principal benfeitor da Data, um grupo sem fins lucrativos de defesa do cancelamento da dívida -se sentou na ponta da mesa e, à 1 hora da madrugada, recontou os detalhes de sua sessão no início da manhã como 30 congressistas republicanos. “Eu não estou disposto a desistir dos republicanos”, disse ele sobre seus esforços para converter os congressistas ao cancelamento da dívida e maior ajuda à África. “Eles são durões, mas se dispõem a escutar”. Com a energia renovada no salão, Bono, o deus do rock, desapareceu. À medida que as idéias fluíam, ele aprovava com a cabeça silenciosamente, apenas outro nerd proferindo acrossemias. Isso durou por quase uma hora até que Trevor Neilson, diretor de projetos especiais da Fundação Bill & Melinda Gates, reclamou: “Olha, nós temos que abrir mão, segundo a lei tributária, de US$ 1,2 bilhão por ano”. “Trevor”, disse Bono, ganhando novamente as proporções de astro pop para melhor dizer sua fala, “nós podemos ajudar”.

O U2 está concorrendo a oito prêmios Grammy nesta semana por “All That You Can’t Leave Behind”. Este álbum e os concertos da banda -ainda os melhores do rock- se tornaram pedras de toque culturais depois de 11 de setembro. O U2 conseguiu, com alguns poucos tropeços ao longo do caminho, o feito quase sem precedente de se manter musicalmente -e politicamente- relevante por 22 anos. Mas apesar de ser um grande astro do rock -e sem rival- Bono se tornou ainda maior nos últimos três anos, se moldando em um ativista político dedicado, astuto, se transformando no mais secular dos santos, um símbolo mundial do ativismo do rock-and-roll. Parte poeta, parte político, ele pegou sua causa -solucionar os problemas financeiros e de saúde da África- e ajudou a colocá-la na agenda das pessoas mais poderosas do mundo. “A princípio eu recusei a me encontrar com ele” disse o secretário do Tesouro, Paul O’Neill, que no ano passado se juntou ao papa João Paulo II, Bill Clinton, Jean Chretien, George Soros, Jesse Helms e Colin Powell na lista de encontros de Bono. “Eu achei que ele era apenas outro astro pop que queria me usar”. Após a reunião programada para meia hora ter durado 90 minutos, O’Neill mudou de idéia. “Ele é uma pessoa séria. Ele se importa profundamente com estas questões, e sabe de uma coisa? Ele conhece muito a respeito”.

Os astros do rock tendem a se considerar sábios emocionais, pessoas que sentem o risco do desaparecimento das florestas tropicais e a angústia dos tibetanos mais profundamente que o restante da humanidade. O envolvimento de Bono com a África começou da forma típica da celebridade diletante. Em 1984, o U2 participou do Band Aid e do Live Aid, os esforços de Bob Geldof para combater a fome na Etiópia. Enquanto muitos dos participantes do Live Aid fizeram suas apresentações e passaram para a próxima causa, Bono e sua esposa, Alison Stewart, decidiram descobrir o verdadeiro estado da fome africana. Eles viajaram para Wello, Etiópia, e passaram seis semanas trabalhando em um orfanato. “Você acordava pela manhã, e a neblina começava a dissipar”, lembrou Bono. “Você caminhava para fora da tenda, e contava os corpos das crianças mortas e abandonadas. Ou pior, o pai da criança vinha até você e tentava lhe dar seu dar seu filho vivo, dizendo: ‘Fique com ele, porque se for seu filho, ele não vai morrer”.

A experiência permaneceu em sua mente até 1999, quando se juntou ao movimento Jubileu 2000. Citando o Levítico (“Santificarão o qüinquagésimo ano… cada um de vocês recobrará a sua propriedade”), a meta do Jubileu 2000 era fazer com que os Estados Unidos e outras nações ricas, assim como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, cancelassem a dívida externa dos 52 países mais pobres do mundo, a maioria deles na África. Ao eliminarem US$ 350 bilhões de seus livros contábeis, estes países estariam livres para gastar o dinheiro em saúde e educação, ao invés de abaterem o principal dos empréstimos contraídos por governos corruptos e em muitos casos que já deixaram de existir há muito tempo. “Nós extraímos destes países ao ponto de seus sistemas de saúde se tornarem absolutamente inoperantes”, disse Jeffrey Sachs, o economista de Harvard que negociou o pacote de cancelamento da dívida da Bolívia em 1986. “Os sistemas educacionais estão falidos, e há muita morte associada ao colapso da saúde pública e a falta de acesso à medicamentos. Eu não acho que os americanos queiram isto”. Apesar de Bono saber o básico sobre o cancelamento da dívida, ele consultou Sachs quando iniciou seu período como embaixador não-oficial do Jubileu. “Ele me telefonou e disse que gostaria de um encontro para conversar sobre as dívidas externas”, disse Sachs. “E pediu para que eu levasse comigo um colega conservador, pois queria ouvir o outro lado”. Armado com sua instrução rápida sobre o cancelamento da dívida, Bono começou a usar sua fama para fazer lobby junto aos políticos, mesmo aqueles que não sabiam exatamente quem ele era. “Eu nunca vou esquecer certo dia do meu governo”, disse o ex-presidente Bill Clinton, “no qual o secretário [do Tesouro, Lawrence] Summers veio ao meu gabinete e disse: ‘Sabe, um sujeito acabou de vir me ver vestindo jeans e camiseta, e só tinha um nome, mas ele era bem inteligente. Você sabe alguma coisa a respeito dele?’”

No ano passado o Jubileu 2000 foi rebatizado de Drop the Debt (suspendam a dívida), e Bono permaneceu como o porta-voz mais famoso e persuasivo do grupo. Ele fundou a Data, que espera lançar oficialmente em meados de março, como um veículo para expandir sua agenda para a África, incluindo ajuda econômica a curto prazo, redução de embargos comerciais e recursos para o combate à Aids em troca de democracia, responsabilidade e transparência dos governos por todo o continente. “Eu sei o quanto é absurdo ter um astro do rock falando sobre a Organização Mundial de Saúde, ou o cancelamento da dívida ou HIV/Aids na África”, disse Bono. Mas ele também sabe que ninguém mais com o acesso à mídia e o dinheiro que ele dispõe assumiu o cargo. Em um esforço para manter a discussão séria e evitar a aparência de ser apenas outro roqueiro contra coisas ruins, ele evita tratar a África como uma questão emotiva. “Nós não usamos compaixão como argumento”, disse ele. Seu argumento é pragmático, não um sermão. “Nós colocamos a questão nos termos mais grosseiros possíveis; nós a tratamos como uma questão de segurança e uma questão financeira para a América…

Há potencialmente outros 10 Afeganistãos na África, e é 100 vezes mais barato impedir o incêndio do que ter que apagá-lo”. A Agenda Data se baseia livremente no Plano Marshall, que forneceu aos europeus assistência estrangeira, cancelamento da dívida e incentivos comerciais para a reconstrução de suas economias após a Segunda Guerra Mundial, para que pudessem agir como uma defesa contra a expansão soviética. Quando Bono se encontrou com Colin Powell em janeiro de 2001, ele levou um presente, uma bilhete assinado por George C. Marshall, outro militar que se tornou secretário de Estado. O roqueiro se mostra lírico ao falar sobre o Plano Marshall: “Você ainda encontra pessoas da idade dos meus pais na Europa que falam sobre o Plano Marshall. Foi o momento em que a Europa sentiu as graças da América, de uma forma maior do que apenas contribuir com poderio militar”.

Bono quer que sua visão para a África seja tão eficaz e duradoura para as futuras gerações quanto o Plano Marshall foi para as do passado. “Será que podemos fazer algo de que as pessoas se orgulhem daqui algumas gerações?” ele perguntou. À 1h30 da madrugada, exatamente cinco horas depois de sua apresentação no intervalo do Super Bowl, Bono estava exercitando o direito fundamental do astro do rock de ser ridículo. No jantar de comemoração pós-jogo com seus companheiros de banda, a produção do U2 e a atriz Ashley Judd (uma velha amiga), ele tomou um pouco de vinho tinto, contou algumas histórias sobre Frank Sinatra, deixou um recado na caixa postal do celular do marido de Judd, o informando gentilmente que sua esposa tinha sido raptada por uma banda de rock, e depois saiu de fininho para o banheiro para fumar um cigarro. (Bono acha que os demais membros do U2 não sabem que ele fuma; eles sabem.) Depois de 15 minutos, o guitarrista The Edge, que mantém uma espécie de papel paternalista em relação ao seu amigo de infância e companheiro de banda, olha para o banheiro e diz nervosamente: “Bono é alérgico a vinho tinto”. Certamente Bono desmaiou no chão do banheiro. Sheila Roche, a vice-empresária do U2, se mantém despreocupada e continua bebendo seu drink. “Ele provavelmente está tirando um cochilo. Ele é um excelente cochilador”, disse ela. Poucos minutos depois, Bono despontou amarrotado mas renovado. Enquanto deixava o restaurante e abria caminho em meio a multidão na Bourbon Street, ele jogou os braços para o alto e gritou para ninguém em particular: “Não, eu não vou fazer a dança da cobra para você!” Bono estava em pleno modo astro do rock, e ele tinha um bom motivo para saborear o momento.

O U2 quase acabou alguns anos atrás. Após o lançamento em 1997 do álbum “Pop”, o primeiro fracasso na carreira deles, os membros da banda -todos na faixa dos 40 anos, todos com relacionamentos, interesses paralelos e mais dinheiro do que poderiam gastar- tiveram que decidir se existia um bom motivo para continuarem sendo uma banda. “Por que vocês ainda estão existindo?” perguntou The Edge retoricamente. “Sabe como é, vocês fizeram alguns ótimos álbuns. Mas por que ainda estão gravando? Parte do que decidimos é que sentíamos ou acreditávamos que ainda podíamos gravar o álbum do ano”. Em “All That You Can’t Leave Behind”, que recebeu oito indicações para o Grammy, incluindo a de Álbum do Ano -o U2 dispensou a bateria eletrônica e os DJs empregados em “Pop” e voltou ao difícil negócio de compor grandes canções diretas. Nas letras, Bono estava lutando com a doença terminal de seu pai (o pai dele, Bob Hewson, morreu de câncer no ano passado), mas a especificação pode ser a ruína do pop. Canções como “One”, “Where the Streets Have No Name”, “Stay (Faraway, So Close)” e “Walk On” de “All That You Can’t Leave Behind” conseguem o impossível -se tornarem significativas para milhões de pessoas- precisamente por serem belamente vagas. “Bono recentemente fez algo que provavelmente não deveria ter feito”, disse o baterista Larry Mullen Jr. “Ele fez um livro como um favor para um amigo dele da Irlanda no qual ‘explica’ todas as letras. Eu acho isto um erro porque um das coisas mais valiosas sobre as letras dele é que você pode adaptá-las a qualquer situação em particular”. Milhões de ouvintes adaptaram “All That You Can’t Leave Behind” para lidar com o trauma de 11 de setembro. Depois que o primeiro compacto, “Beautiful Day”, conquistou três prêmios no Grammy do ano passado -fazendo Bono declarar sem nenhuma modéstia: “Nós estamos nos recandidatando ao posto. Que posto? O posto de melhor banda do mundo”- o álbum lentamente caiu na parada da Billboard, chegando à 108o lugar em agosto de 2001. Mas nos meses que se seguiram a 11 de setembro, enquanto as pessoas procuravam por conforto, fuga ou ambos, o álbum ganhou novo impulso, chegando ao 25o lugar depois do Super Bowl, em sua 67a semana de lançamento. O álbum não é presciente, apenas elástico.

Em “Walk On”, a melhor faixa do álbum, Bono canta: “Eu sei que dói/E seu coração parte/E você só pode suportar um limite/Siga em frente”. E em “Peace on Earth”, ele lamenta: “Cansado do pesar/Cansado da dor/Cansado de ouvir repetidas vezes/De que haverá paz na Terra”. A turnê Elevation do U2, que já realizou mais de 100 shows com lotação esgotada para mais de 2 milhões de pessoas em 2001, também ganhou um ar completamente diferente depois de 11 de setembro. “Havia ira, raiva, patriotismo, tristeza”, disse Mullen Jr. “Tudo se tornou assustadoramente extremo”. Em reconhecimento à tragédia, o U2 começou a projetar os nomes dos membros falecidos da polícia e do corpo de bombeiros de Nova York, assim como os das vítimas dos quatro vôos fatais, nas telas e paredes das arenas enquanto tocavam “One”. “Eu tenho que admitir que no começo tive dúvidas”, disse o baixista Adam Clayton. “Parecia que estávamos realmente apertando um botão.

Mas Bono é um sujeito único, e tem um grande julgamento. Ele é capaz de realizar uma cirurgia cardíaca e realizar uma cirurgia no cérebro das pessoas ao mesmo tempo”. O U2 incorporou os nomes na exibição do intervalo do Super Bowl (os projetando durante as canções “MLK” e “Where the Streets Have No Name”). Não foi uma declaração política, apenas emocional. Como planejado, ela não disse nada em particular e ao mesmo tempo comunicou algo profundo. Foi exatamente o tipo de momento impossível, de ascensão, que Bono acredita que o U2 existe para promover. Perambulando por Nova Orleans depois do jogo, Bono reviveu cada um dos 11 minutos da apresentação em algo parecido a tempo real. “Eu espero que saia bem na televisão, porque eu senti -ah!- que foi fantástico”. A badalação dos momentos impossíveis é do que vivem os astros do rock, mas não é prático para um ativista político.

Duas semanas depois da apresentação do Super Bowl, Bono estava em Los Angeles para aceitar uma doação de US$ 100 mil (R$ 242 mil) da Fundação da Indústria do Entretenimento para a Data. Ele marcou uma reunião na sacada de sua suite no Chateau Marmont com Michael Stipe, Quincy Jones, Bobby Shriver (o produtor musical e levantador de fundos, filho de Sargent e Eunice Kennedy Shriver) e Jamie Drummond, o diretor da Data. É uma reunião de novas idéias, e Bono espera empregar as mentes filantrópicas mais aguçadas da indústria da música para aumentar a conscientização pública para as questões centrais da Data. “Não envie dinheiro. Nós já temos”, anunciou Stipe, tentando reproduzir o envio em massa de cartões postais pedindo o cancelamento da dívida. A sala adorou. Enquanto Stipe fazia anotações, Jones se perguntava em voz alta qual parte da Agenda Data -o cancelamento da dívida, tornar as regras comerciais mais vantajosas para os países pobres ou obter mais fundos para medicamentos para Aids e para a saúde- Bono deseja que o mundo se concentre. “Eu acho que você tem questões demais. Foi assim que falhamos antes”, disse Quincy Jones, que levantou dinheiro para os famintos em 1985 como parte do USA for Africa. “Os americanos não conhecem a p__ da Filadélfia, muito menos a África. Comércio é uma questão muito complexa. Você precisa particularizar o drama para eles. Você precisa ter uma linha melódica”. Bono não estava tão certo. A reunião foi interrompida quando Bono saiu para uma sessão fotográfica. Enquanto cruzava Los Angeles de carro, ele discutiu a noção de Quincy Jones de uma linha melódica. “Do que estamos tratando? África. 70% do problema do HIV/Aids se encontra na África. Nós estamos falando de um continente explodindo em chamas, enquanto ficamos em volta com regadores. Esta é a nossa idéia. Mas quanto mais nos aproximamos dos autores de políticas, mais necessitamos de especificidade, e precisamos saber do que estamos falando. Eu vou e falo sobre cancelamento da dívida, cancelamento da dívida, cancelamento da dívida, e as pessoas dizem: ‘Mas isto é apenas uma parte do problema’”.

Aos 41 anos, Bono diz que desistiu da música como força política. Ele acredita que seu trabalho de negociação política em salas fechadas é mais vital e eficaz do que cantar para estádios lotados. “A poesia não faz nada acontecer”, escreveu certa vez o poeta W.H. Auden, e Bono tristonhamente concorda. “Eu estou cansado de sonhar. No momento eu estou mais voltado para pôr em prática. É como se no momento eu só tivesse metas que posso perseguir. O U2 lida com o impossível. Política é a arte do possível. São muito diferentes, e estou resignado com isto agora. A música é a coisa que me impede de adormecer no conforto da minha liberdade. Eu aprendi sobre a América do Sul ouvindo o Clash. Eu aprendi sobre o situacionismo com os Sex Pistols. Mas há uma grande distância entre isto e lidar com tetos orçamentários e com um Congresso que suspeita de ajuda porque tantas vezes já foi empregada indevidamente”. A música faz a diferença de uma forma: ela influencia as pessoas emocionalmente. Mas para Bono isto não é mais suficiente: “Quando você canta, você torna as pessoas vulneráveis para mudanças em suas vidas. Você se torna vulnerável para mudanças em sua vida. Mas no final, você precisa se transformar na mudança que você deseja ver no mundo. Na verdade eu não sou um exemplo muito bom disto -eu sou muito egoísta, e o direito de ser ridículo é algo que estimo muito- mas mesmo assim, eu sei que é verdadeiro”.