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Todos os adultos do mundo já tiveram ao menos um amor platônico. O aluno pela professora, a professora pelo vocalista da banda, o vocalista pela vizinha do terceiro andar, a vizinha pelo chefe casado, o chefe pela cunhada. É o poético Maria que amava Jorge que amava Suzana que amava Luiz que amava Fátima que não amava ninguém. Tá assim, ó. Muitos deles estão sozinhos até hoje. Outros estão acompanhados, mas cultivam um amor secreto, o que os faz sentir sozinhos também. Só não está sozinho quem está apaixonado e sendo plenamente correspondido. O resto vai passar a semana dos namorados praticando seu esporte favorito: fantasiar. Ninguém escolhe vivenciar um amor platônico, mas quando isso acontece, muitos, sem perceber, apegam-se a ele, pois é um amor idealizado, romântico, sofrido, que nos faz sentir heróicos por suportá-lo apesar de todas as dificuldades.
O platonismo nos torna vítimas de um amor impossível, e há quem goste de desempenhar este papel, pois ele atrai a piedade dos outros ao mesmo tempo que nos isenta de ir à luta. É difícil medir o quanto há de amor verdadeiro e o quanto há de autoflagelo em alimentar um sentimento não retribuído. O amor precisa ser uma via de mão dupla. Ele sobrevive através do dar e do receber. Amar sem ser amado é uma coisa que acontece todos os dias em todos os lugares, mas a manutenção deste amor depende da pessoa que ama: ou ela tenta escapar desta armadilha, abrindo espaço para que um amor mais concreto e saudável venha preenchê-la, ou ela morre de esperança. A vida é curta e não merecemos dedicar tanto tempo a um amor que não se realizará jamais.
Os românticos dirão que é melhor um amor vivenciado unilateralmente do que amor nenhum. No meu dicionário, isto é falta de auto-estima. São pessoas que dão de comer a fantasmas: ficam olhando fotos, provocando encontros “casuais” e sonhando com cenas perfeitamente plausíveis em uma novela mexicana, mas não na vida real. Se o alvo da nossa paixão está disponível e tem uma vaga noção da nossa existência, tudo bem tentar realizar este amor, pois ele é viável. Já o amor platônico é, por definição, estéril. Só gera solidão.
Martha Medeiros

