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Curta premiadíssimo e inusitado do diretor Philippe Barcinski, o mesmo de “Não por Acaso”

No dia 10 de março de 2007 nasceu oficialmente a Outravia, uma revista eletrônica com a proposta de falar de cultura com pitadas cristãs. Um ano se passa e sinto a necessidade de agradecer a todos os amigos que me apoiaram neste projeto, dando força em horas de desânimo, dando sugestões ou simplesmente divulgando este trabalho, e um sincero agradecimento a todos os leitores que fizeram a fantástica marca de 120 mil visitas.
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Sementes espalhadas por ai e que me trazem muito alento. Volta e meia recebo um e-mail de alguém que esta usando o material postado aqui para dar aulas, para divulgar a grupos de jovens espalhados por este país. Sou grato a Deus por ter conhecido pares e amigos nesta caminhada, o Sérgio Pavarine, o Whaner Endo, o Ricardo da Diversitá, o pessoal do Caminho da Graça e outros.
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Estamos cercados de bondade e não de maldade. Não se esqueçam disso, o problema é que a bondade não “vende” muito. Não posso dar muito, mas o que dou é isto: meu coração, links, belezas e pontes. Vamos atravessá-las? Muito obrigado a todos!!!
Henderson Moret
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“Se na cabeça do homem tem um porão onde moram o instinto e a repressão (diz aí) O que tem no sótão?” Lenine… é claro !! rs

Telê Santana era técnico do São Paulo e Faustão, na época repórter de campo da turma de Osmar Santos na Rádio Globo, acompanhava o mestre durante o dia todo da decisão da Copa Libertadores.

Depois de uma vitória suada, o então radialista comentou com o técnico nos vestiários, apontando para os jogadores no chuveiro:

– Eles podem lavar a alma com a sensação de dever cumprido!

Ao que Telê acrescentou, falando mais alto com as mãos em concha para os jogadores ouvirem:

– Mas quando eu jogava no Fluminense, pra passar sabão eu desligava o chuveirooooo!

É… além disso, quando eu e Telê éramos crianças, fosse nas Gerais, fosse no recôncavo da Bahia, o cara só tomava banho quente quando estava doente.

A própria torneira, esse recurso magnífico da civilização, eu só conheci já adolescente, em Salvador. Abrir uma torneira pela primeira vez foi uma emoção inesquecível: um jorro de água, ali, imediato-farto-ininterrupto, uma fonte trazida para dentro de casa e, torcendo duas vezes para a direita, pronto: a fonte voltava para o nascedouro, no pé de alguma montanha distante; a casa, normal, como se nada tivesse acontecido. Olha, a gente podia ser ridículo aos 13 anos, mas era levado a pensar profundamente nas coisas que a modernidade engendra.

Quando cheguei a São Paulo em 1965, para fazer Arena Conta Bahia, eu e Caetano nos hospedamos num hotel da avenida Rio Branco e na hora do banho fiquei
surpreso porque o chuveiro não tinha água normal, quer dizer, água fria.

– Rapaz, eu não estou doente, pra tomar banho quente.

Mesmo em Salvador, durante o colégio e a universidade, morando na pensão de Iolanda, a temperatura da água era a do encanamento. Na infância mesmo, nem encanamento.

Certa manhã meu pai me encontrou lavando o rosto numa pequena bacia de água morna e falou, rincalhão:

– Meu filho, agora que você está resfriado, pode ser. Quando sarar, volte para a água fria. Não é por gastar lenha, é que com água morna todo dia você fica muito fraco,
acaba virando um menino amarelo!

Meu pai não era de fazer economia à custa de nossos pequenos confortos, mas naquele tempo a vida diária era permeada por um respeito tácito para com o universo e
a finitude de seus recursos.

Creio que o tom da voz de Telê Santana tinha mais a ver com aquele mundo-universo-integrado do meu pai. Esse sentimento tem voltado muito ao meu coração nos dias de hoje.

Entre os confortos fantásticos da vida moderna há coisas soberbas como a luz elétrica, o carro com ar refrigerado, o sorvete; e me causa profunda admiração o pão quente encontrado na padaria de manhã cedo, todos os dias da semana, chova ou faça sol. Se Nabucodonosor comesse um pão tão bom como o que se come hoje, se ele tivesse um luxo desses lá na Babilônia, talvez não fosse tão fissurado em conquistas e guerras.

Água potável também a gente encontra hoje em todo lugar. Passar sede é quase uma expressão esquecida, mas antigamente muito levada em conta pois uma pessoa
poderia fazer uma viagem de mês e meio pelas brenhas do sertão imenso, passando simplesmente a água e pão.

Atualmente, a vida comum mais proverbial é cheia de prazeres e confortos.

Quanto a mim, já uso água quente até pra lavar as mãos, a qualquer momento, em hotéis, na casa alheia, na minha casa. Desfrutamos essa fartura com total indiferença.

Vai ver por isso é que as vozes do ponta-direita do Fluminense e de meu pai, Éverton, voltaram a soar, como sinos de Combray, depois de muitos anos de uma vida voraz e dissipada.

A tal torneira de água quente, por exemplo, é sempre mais quente do que se pode suportar. E o danado do aquecedor elétrico, lá debaixo da pia, só pode ser regulado pelo volume de água que a gente faz correr. Ah… eu me sentia muito mal de ver toda aquela aguaria jogada fora e lá me voltavam as vozes do pai e do ponta-direita.

Ocorreu-me fazer um cálculo e concluir que, com os dois banhos diários – sem desligar o chuveiro pra passar sabão –, mais as descargas do vaso sanitário, mais a lavagem da roupa, mais o cozimento de duas refeições, mais saciar a sede, assim pelo alto e esquecendo vários itens, eu consumia cerca de seis latas de água por dia. O que daria 120 litros. Nossa! Imaginei visualmente um tanque de 120 litros no meio da sala e me assustei.

Bem, a recomendação de Telê Santana era difícil de seguir porque, em São Paulo, fechar o chuveiro pra passar sabão dá um frio danado. Mas verifiquei que com a janela do banheiro fechada, fechando também a porta e a cortina do box, o ambiente se mantém morno por tempo suficiente pra passar sabão e até cantar uma boa Traviata.

Já para a torneira de lavar as mãos, depois de alguns estudos, vi que a melhor solução era abri-la um tempo para esquentar e fechá-la de repente para interromper o aquecedor. Como o próprio recipiente dela guarda uma quantidade razoável de água aquecida, é fácil tirar o sabão deixando escorrer bem devagar essa água que, com a interrupção anterior do jorro, permanece morna lá dentro. O novo cálculo me deu uma diferença de 60 litros: a metade.

Puxa! Afinal de contas, nós somos uma espécie que sabe fazer cálculos, o que pode afastar
bastante certas arrogâncias. O fato é que agora sinto muita alegria toda vez
que me lembro do meu pai ou do ponta-direita.

Tom Zé

Fonte Revista Piauí, Conheça!!

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O que se segue demonstrará que a graça é um fenômeno comum e, até certo ponto, previsível. No entanto, dentro da estrutura conceitual da ciência convencional e da “lei natural”, a realidade da graça continuará a ser inexplicável. Permanecerá miraculosa e surpreendente.
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Saúde Mental
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Há vários aspectos da prática da psiquiatria que nunca param de me surpreender, assim como a muitos outros psiquiatras. Um deles é o fato de que nossos pacientes são surpreendentemente saudáveis mentalmente. …o que não sabemos é por que a neurose não é mais grave – por que um paciente ligeiramente neurótico não é gravemente neurótico, ou por que um paciente gravemente neurótico não é totalmente psicótico. Inevitavelmente encontramos um paciente que sofreu determinados traumas que produziram uma neurose, mas esses traumas são tão intensos que, no curso normal das coisas, a neurose deveria ser mais grave.
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Um bem-sucedido homem de negócios de 35 anos procurou me devido a uma neurose que só poderia ser descrita como leve. Ele era filho ilegítimo e, no início da infância, foi criado apenas pela mãe, surda-muda, nas favelas de Chicago. Quando tinha cinco anos, o Estado, acreditando que sua mãe não teria competência para criá-lo, tirou-o dela sem aviso ou explicações, colocando-o em uma sucessão de três lares adotivos, onde foi rotineiramente tratado de modo indigno e com uma total falta de atenção. Aos quinze anos, ficou parcialmente paralítico devido à ruptura de um aneurisma congênito em um dos vasos sangüíneos do cérebro. Aos dezesseis, deixou seus últimos pais adotivos e começou a viversozinho. Aos dezessete, previsivelmente, foi preso por um assalto particularmente cruel e sem motivo. Não recebeu nenhum tratamento psicológico na prisão.
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Ao ser liberado, após seis meses de tedioso confinemento, as autoridades lhe arranjaram um emprego como funcionário subalterno em uma empresa bastante comum. Nenhum psiquiatra ou assistente social no mundo teria previsto algo de bom para seu futuro. Contudo, em três anos, tornou-se o mais jovem chefe de departamento na história da empresa. Em cinco anos, depois de se casar com outra executiva, deixou o emprego, abriu seu próprio negócio e teve sucesso, tornando-se um homem relativamente rico. Quando começou a se tratar comigo, tornara-se, além disso, um pai amoroso e eficaz, um intelectual autodidata, um líder comunitário e um perfeito artista. Como, quando, por que e onde isso tudo aconteceu? Dentro dos conceitos comuns de causalidade, não sei. Juntos pudemos traçar com exatidão, dentro da estrutura usual de causa e efeito, os determinantes de sua leve neurose, e curá-lo. Mas não conseguimos nem de longe determinar as origens do seu sucesso imprevisível.
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Esse caso foi citado exatamente pela dramaticidade dos seus traumas observáveis e pela obviedade das circunstâncias do seu sucesso. Na grande maioria dos casos, os traumas da infância são bem mais sutis (embora em geral igualmente devastadores) e a evidência da saúde menos simples, mas o padrão é basicamente o mesmo. Por exemplo, é raro vermos pacientes que não sejam mais saudáveis mentalmente do que seus pais. Sabemos muito bem por que as pessoas têm desordens mentais. O que não sabemos é por que elas sobrevivem tão bem aos traumas de suas vidas. Sabemos exatamente por que algumas delas cometem suicídio. O que não sabemos, dentro dos conceitos comuns de causalidade, é por que outras não. Tudo que podemos dizer é que há uma força, cujo mecanismo não entendemos totalmente, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde mental, mesmo sob as condições mais adversas.
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Saúde Física
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Sabemos muito mais sobre as causas das doenças físicas do que sobre as da saúde física. Por exemplo, pergunte a qualquer médico o que causa a meningite meningocócica e a resposta imediata será: “O meningococo, é claro.” Contudo, há um problema. Se neste inverno eu coletasse material diariamente nas gargantas dos habitantes do vilarejo onde moro, descobriria que essa bactéria está presente em aproximadamente nove entre dez deles. Mas há muitos anos não é registrado nenhum caso de meningite meningocócica aqui, e provavelmente não haverá nenhum neste inverno. O que está acontecendo? A meningite meningocócica é uma doença relativamente rara, mas seu agente causador é bastante comum. Os médicos usam o conceito de resistência para explicar esse fenômeno, afirmando que o corpo possui uma série de defesas que impedem a invasão de suas cavidades pelo meningococo, assim como por vários outros organismos nocivos onipresentes. Sem dúvida isso é verdade; de fato sabemos muito sobre essas defesas e de como elas operam. Mas grandes questões continuam sem resposta. Enquanto algumas das pessoas deste país que morrerão de meningite meningocócica neste inverno estarão debilitadas ou terão uma história de baixa resistência, a maioria delas será de indivíduos anteriormente saudáveis sem deficiências conhecidas em seu sistemas imunológicos. Em certo nível, poderemos dizer com certeza que o meningococo foi a causa da sua morte, mas isto é claramente superficial. Em um nível mais profundo, não saberemos por que morreram. O máximo que poderemos dizer é que as forças que costumam proteger nossas vidas por alguma razão deixaram de operar nelas.
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Embora o conceito de resistência comumente seja aplicado às doenças infecciosas, como a meningite, de certo modo também pode ser aplicado a todas as doenças físicas; entretanto, no caso das doenças não-infecciosas, não sabemos quase nada sobre como a resistência funciona. Um indivíduo pode sofrer um único ataque relativamente leve de colite ulcerativa – uma desordem geralmente considerada psicossomática -, recuperar-se totalmente e nunca mais ter esse problema na vida. Outro pode sofrer repetidos ataques e se tornar cronicamente inválido devido à doença. Um terceiro pode manifestar a doença repentinamente e morrer do primeiro ataque. A moléstia parece ser a mesma, mas o resultado é totalmente diferente. Por quê? Não sabemos. Só podemos dizer que indivíduos com um certo padrão de personalidade parecem ter diferentes tipos de dificuldades para resistir à desordem, enquanto a grande maioria de nós não tem dificuldade alguma. Como isso pode acontecer? Também não sabemos. Essas perguntas podem ser feitas sobre quase todas as doenças, inclusive as mais comuns, como ataques cardíacos, derrames, cânceres, úlceras pépticas e outras. Um número crescente de pensadores está começando a sugerir que quase todas as desordens são psicossomáticas – que a psique está de algum modo envolvida nas várias falhas do sistema imunológico. Mas o fato surpreendente não é que o sistema imunológico falhe, mas sim que ele funcione tão bem. No curso normal das coisas deveríamos ser devorados vivos pelas bactérias, consumidos pelo câncer, entupidos por gorduras e coágulos, corroídos por ácidos. Adoecer e morrer não é surpresa; o que é realmente digno de nota é que em geral não adoecemos com muita freqüência e demoramos a morrer. Portanto, podemos dizer sobre as desordens físicas o mesmo que dissemos sobre as desordens mentais. Há uma força, cujo mecanismo não entendemos bem, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde física, mesmo sob as condições mais adversas.
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Saude em acidentes?
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A questão dos acidentes levanta questionamentos ainda mais interessantes. Muitos médicos e a maioria dos psiquiatras tiveram a experiência de encarar o fenômeno da tendência a acidentes. Entre os muitos exemplos em minha carreira o mais dramático foi o de um garoto de quatorze anos que fui ver como parte de sua admissão em um centro de tratamento residencial para jovens delinqüentes. Sua mãe morrera em novembro do seu oitavo ano. Em novembro do seu nono ano, ele caiu de uma escada e fraturou o úmero (braço). Em novembro do seu décimo ano, acidentou-se em uma bicicleta e teve uma fratura de crânio e uma concussão grave. Em novembro do seu décimo primeiro ano, caiu de uma clarabóia e fraturou o quadril. Em novembro do seu décimo segundo ano, caiu do skate e fraturou o pulso. Em novembro do seu décimo terceiro ano, foi atropelado por um carro e fraturou a bacia. Ninguém duvidaria de que ele realmente tinha uma tendência a acidentes, nem das razões disso. Mas como os acidentes aconteciam? O garoto não se machucava propositadamente. Tampouco tinha consciência da sua tristeza pela morte da mãe. Ele me disse calmamente que “se esquecera totalmente dela”. Para começar a entender como esses acidentes aconteciam, acho que precisamos aplicar o conceito de resistência ao fenômeno dos acidentes, assim como ao fenômeno da doença – pensar em termos de resistência a acidentes assim como em tendência a acidentes. Não é que certas pessoas em determinados momentos de suas vidas simplesmente tendam a se acidentar; ocorre também que, normalmente, a maioria de nós tem resistência a acidentes.
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Em um dia de inverno, quando eu tinha nove anos e carrega, vã meus livros escolares por uma rua cheia de neve, escorreguei e caí. Um carro que se aproximava rapidamente freou e parou. Minha cabeça ficou na mesma altura dos pára-lamas dianteiros, e meti corpo embaixo do carro. Saí de baixo do carro e corri para casa em pânico, mas ileso. Esse acidente em si não parece tão notável; pode-se simplesmente dizer que tive sorte. Mas consideremos todas as vezes em que por pouco não fui atingido por carros enquanto caminhava, andava de bicicleta ou dirigia; as vezes em que, na direção de um carro, quase atropelei pedestres ou ciclistas no escuro; nos momentos em que pisei no freio e parei a centímetros de outro veículo; quando, ao esquiar, por um triz não bati em árvores; as vezes em que quase despenquei de janelas ou quando um bastão de golfe quase acertou minha cabeça, e assim por diante. O que é isso? Será que levo uma “vida encantada”? Se os leitores examinarem suas próprias vidas, creio que a maioria acabará descobrindo que o número de acidentes que quase aconteceram com eles é maior do que o dos que realmente aconteceram. Além disso, acredito que os leitores reconhecerão que seus padrões de sobrevivência – de resistência a acidentes – não resultam de um processo decisório consciente. Será que a maioria de nós leva “vidas encantadas”? Será verdade o verso da canção “Foi a graça que me trouxe em segurança até aqui”?
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Alguns podem achar que não ha nada de excitante nisso tudo, que todas as coisas sobre as quais estivemos falando são apenas manifestações do instinto de sobrevivência. Mas dar nome a alguma coisa explica o que ela é? O faio de termos um instinto de sobrevivência parece banal porque nós o chamamos de instinto? Nosso entendimento das origens e dos mecanismos instintivos é, na melhor das hipóteses, minúsculo. Na verdade, a questão dos acidentes sugere que nossa tendência a sobreviver pode ser algo além e até mesmo mais miraculoso do que um instinto – um fenômeno em si já bastante miraculoso. Embora não entendamos quase nada sobre os instintos, realmente os concebemos operando dentro dos limites do indivíduo que os possui. Podemos imaginar a resistência às desordens mentais ou físicas na mente consciente ou nos processos físicos do indivíduo. Contudo, os acidentes envolvem interações entre indivíduos, ou entre indivíduos e coisas inanimadas. As rodas daquele carro não passaram por cima de mim quando eu tinha nove anos devido ao meu instinto de sobrevivência, ou por que o motorista tinha uma resistência instintiva a me matar? Talvez tenhamos um instinto que preservei não apenas as nossas próprias vidas, mas também a vida dos outros
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Embora eu não tenha experimentado isso pessoalmente, tive vários amigos que testemunharam acidentes em que as “vítimas” se arrastaram praticamente intactas para fora de veículos total, mente destruídos. A reação deles foi de pura estupefação. “Não entendo como alguém poderia ter sobrevivido a um acidente desses, muito menos sem nenhum ferimento grave!”, dizem. Como podemos explicar isso? Puro acaso? Esses amigos, que não são pessoas religiosas, ficaram impressionados exatamente porque o acaso não parecia estar envolvido nesses incidentes. “Ninguém poderia ter sobrevivido”, garantem. Embora não sejam religiosos, e nem mesmo tenham refletido sobre o que diziam ao tentar digerir essas experiências, meus amigos fizeram comentários como: “Bem, acho que Deus ama os bêbados” ou “Acho que ainda não era sua hora”. O leitor pode escolher entre considerar o mistério desses incidentes “puro acaso” ou um “capricho do destino”, e assim evitar maiores reflexões. Mas um exame mais atento revela que nosso conceito de instinto não consegue explicá-los satisfatoriamente. Um veículo motorizado inanimado possui um instinto de se deformar no instante do impacto para preservar os contornos do corpo humano preso em seu interior? Ou o ser humano possui um instinto de, no momento da colisão, adaptar seus contornos ao padrão do veículo deformado? Essas perguntas parecem intrinsecamente absurdas. Embora eu prefira continuar explorando a possibilidade de explicar esses incidentes, está claro que nosso conceito tradicional de instinto não me será muito útil. Talvez o conceito de sincronicidade seja mais…
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck
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Veja também A Graça falando no programa do Jô

Curta brasileiro vencedor do festival internacional de curtas do Youtube

Legião Urbana – Perfeição

Mais estupidez humana aqui com Arnaldo Antunes

Adélia Prado me ensina pedagogia. Diz ela: “Não quero faca nem queijo; quero é fome”. O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…
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Sugeri, faz muitos anos, que, para se entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros bem que podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias… Se vocês, por acaso, ainda não as conhecem, tratem de conhecê-las: a Babette, no filme “A Festa de Babette”, e a Tita, em “Como Água para Chocolate”. Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não começam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome…
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Quando vivi nos Estados Unidos, minha família e eu visitávamos, vez por outra, uma parenta distante, nascida na Alemanha. Seus hábitos germânicos eram rígidos e implacáveis.
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Não admitia que uma criança se recusasse a comer a comida que era servida. Meus dois filhos, meninos, movidos pelo medo, comiam em silêncio. Mas eu me lembro de uma vez em que, voltando para casa, foi preciso parar o carro para que vomitassem. Sem fome, o corpo se recusa a comer. Forçado, ele vomita.
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Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim “affetare”, quer dizer “ir atrás”. É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.
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Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde morava, havia uma casa com um pomar enorme que eu devorava com os olhos, olhando sobre o muro. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia.
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Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas frutinhas vermelhas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las.
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E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar. Anote isso: o pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo.
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Se eu não tivesse visto e desejado as ditas frutinhas, minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine se a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes sobre o muro, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das ditas frutinhas, as pitangas. Nesse caso, também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho, sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Anote isso também: se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido perguntas.
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Provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar me fez uma primeira sugestão, criminosa. “Pule o muro à noite e roube as pitangas.” Furto, fruto, tão próximos… Sim, de fato era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo. E se eu fosse pilhado no momento do meu furto? Assim, rejeitei o pensamento criminoso, pelo seu perigo.
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Mas o desejo continuou e minha máquina de pensar tratou de encontrar outra solução: “Construa uma maquineta de roubar pitangas”. McLuhan nos ensinou que todos os meios técnicos são extensões do corpo. Bicicletas são extensões das pernas, óculos são extensões dos olhos, facas são extensões das unhas.
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Uma maquineta de roubar pitangas teria de ser uma extensão do braço. Um braço comprido, com cerca de dois metros. Peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu, sem uma mão, seria inútil: as pitangas cairiam.
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Achei uma lata de massa de tomates vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E lhe fiz um dente, que funcionasse como um dedo que segura a fruta. Feita a minha máquina, apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo. Anote isso também: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo.
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Imagine agora se eu, mudando-me para um apartamento no Rio de Janeiro, tivesse a idéia de ensinar ao menino meu vizinho a arte de fabricar maquinetas de roubar pitangas. Ele me olharia com desinteresse e pensaria que eu estava louco. No prédio, não havia pitangas para serem roubadas. A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. E anote isso também: conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido.
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Dizia Miguel de Unamuno: “Saber por saber: isso é inumano…” A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome… Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, ele acabará por fazer uma maquineta de roubá-los. Toda tese acadêmica deveria ser isso: uma maquineta de roubar o objeto que se deseja…
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Rubem Alves

Então, por que você não quer defender o Cristianismo?
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- perguntou ele, confuso. Eu disse a ele que já não sabia o que o termo significava. Das centenas de milhares de pessoas que ouviam o programa naquele dia, algumas tinham tido experiências terríveis com o Cristianismo; elas talvez tenham ouvido gritos do seu professor em uma escola cristã, tinham sido assediadas por um ministro ou humilhadas por um pai cristão. Para elas o termo Cristianismo significava algo que nenhum cristão que eu conhecia iria defender. Fortalecendo o termo, eu estava apenas as deixando ainda com mais raiva. Eu não faria isso. Aborde dez pessoas na rua e pergunte a elas no que elas pensam quando ouvem a palavra Cristianismo e elas darão a você dez respostas diferentes. Como posso defender um termo que significa dez coisas diferentes para dez pessoas diferentes? Eu disse ao entrevistador do programa de rádio que preferiria falar sobre Jesus e sobre como passei a acreditar que ele existe e que gosta de mim. O entrevistador olhou para mim com lágrimas nos olhos. Quando nós tínhamos terminado, ele me convidou para almoçar.”
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Veja tbm Pinguins e Deus I e II
Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller
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Veja também A Graça falando no programa do Jô

Campanha atual de uma linha de shampoos e condicionadores…

IdéaFixa – Autor Liber Paz


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William Blake

Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?

Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos ?
Sobre que asas se atreveu a ascender ?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo ?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração ?

E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui ?
Que martelo te forjou ? Que cadeia ?
Que bigorna te bateu ? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores ?

Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação ?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou ?

Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?

Tradução de Ângelo Monteiro

Quer saber mais ?
Veja um curta baseado neste poema, de Guilherme Marcondes

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Dele, o jornal inglês The Guardian escreveu: “Noam Chomsky está ao lado de Marx, Shakespeare e a Bíblia como uma das dez mais citadas fontes nas ciências humanas – e é o único autor, entre eles, ainda vivo.” O New York Times, com quem trava batalhas há décadas, chamou-o “o mais importante intelectual vivo.” Mas Noam Avram Chomsky dificilmente é uma unanimidade. Nem quer ser: a polêmica parece parte essencial desse lingüista que abraçou o pensamento político e insistiu em teses tão provocativas como a defesa do regime sanguinário de Pol Pot na Camboja e a afirmativa de que os mortos do World Trade Center foram poucos em comparação com os provocados por governos americanos no Terceiro Mundo.

Chomsky nasceu na Filadélfia em 7 de dezembro de 1928. Na Universidade da Pensilvânia estudou lingüística, matemática e filosofia. Desde 1955, é professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ocupando uma cátedra de Língua Moderna e Lingüística. Casou-se com Carol Schatz, professora da Universidade de Harvard, em 1949, e tem dois filhos.

Fez sua reputação inicial na lingüística, tendo aprendido alguns dos seus princípios históricos com o pai, um erudito do hebraico. Seus trabalhos na gramática generativa, que derivaram do seu interesse pela lógica moderna e pelos fundamentos da matemática, deram-lhe fama.

Sempre se interessou pela política e suas tendências para o socialismo são resultado do que chama de “a comunidade judaica radical de Nova York”. Desde 1965, tornou-se um dos principais críticos da política externa latino-americana. Seu livro O poder americano e os novos mandarins foi considerado um dos ataques mais substanciais ao envolvimento americano no Vietnã.

Hoje, Chomsky é a voz mais respeitada da esquerda acadêmica e intelectual. Mesmo sendo um radical nada convencional. Produziu um substancial volume de teoria política própria e defende a busca da verdade e do conhecimento nos negócios humanos de acordo com um conjunto simples e universal de princípios morais. Escreve de jeito claro, fala com o público especializado e com o leitor em geral. Pode-se dizer que é um herdeiro da Nova Esquerda dos anos 1960. No seu livro mais famoso da época, O poder americano e os novos mandarins, ele disse que os Estados Unidos precisavam de “uma espécie de desnazificação”, insinuando que o país estava caindo no fascismo.

Fonte: Revista Cult
Mais ?? Chomsky no Orkut


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A regra para todos nós é perfeitamente simples. Não fique aí perdendo o seu tempo para pensar se “ama” ou não o seu próximo; aja como se você já o amasse. Pois, assim que fazemos isso, acabamos descobrindo um dos maiores segredos da vida. Quando você age como se amasse alguém, acaba por amá-lo de verdade. Se você ofende alguém de quem não gosta, acaba gostando dele muito menos ainda. Se você lhe der uma boa resposta, vai desgostar menos dele. É claro que existe uma exceção a essa regra. Se você lhe der uma resposta gentil, não para agradar a Deus e obedecer à regra da caridade, mas para lhe provar que é um cara legal e capaz de perdoar, colocando-o em dívida com você, e depois sentar-se e esperar que ele demonstre sua “gratidão”, provavelmente acabará ficando desapontado. (As pessoas não sob bobas; elas detestam qualquer tipo de exibição ou tentativa de autopromoção.) Mas sempre que fazemos o bem a outro ser humano só porque se trata de outro ser humano criado por Deus (como nós mesmos), desejando a felicidade dele da mesma forma que desejamos a nossa, é provável que tenhamos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, pelo menos, a desgostar dele um pouco menos.
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C.S. LEWIS no livro “Cristianismo Puro e Simples” o mesmo autor do livro transformado em filme “As Crónicas de Narnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

Viviane Mosé

Veja um video-poema… de parte deste poema

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina

sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

Poemas do livro Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso.

Encontros são milagres ou são macumbas — milagres quando os sentimos bons, e macumbas quando os sentimos maus.

Quase ninguém pensa no milagre do encontro. Entretanto, num mundo imenso para nós, cada vez maior nas quantidades, cada vez menor nos espaços, em meio a tantos bilhões de variáveis, nas quais átimos de volição ou impulso podem mudar montanhas ou fazê-las sumirem na cratera do esquecimento ou da não-percepção.

Um encontro errado, uma pessoa errada, uma iniciação errada, um amigo errado, um dia mal, uma decisão equivocada, uma conseqüência inapelável, uma existência convertida em outra, um outro sentir, um outro ver-se a si mesmo, um outro ver-se no olhar dos outros, uma outra definição de si mesmo perante o mundo, uma outra postura, talvez agressiva, talvez passiva; enfim… — um outro produto humano como variável de uma matriz original de infindas alternativas.

A liberdade do homem reside na sua ignorância das infindas alternativas.

O homem é livre de saber, pois, saber lhe seria a angustia insuportável tomando-o por todos os lados.

Quando eu era menino deseja conhecer um ladrão. Aí pelos meus sete anos apareceu um ladrão roubando no escritório de meu pai; à época advogado.

Papai havia me dito que se pegassem o larapio eu iria conhecer um ladrão.

Pegaram-no. Nós fomos. Era um domingo à tarde. À porta do escritório meu pai pediu que eu esperasse no carro. Ele queria sondar o terreno. Minutos depois voltou lívido. Disse-me que o ladrão ficaria para outro dia…

Não aceitei. Ele sempre mantinha a palavra.

Então ele me disse que não me levaria até lá, mas que me diria quem era; tão somente eu guardasse segredo para sempre. Prometi. Ele sabia que eu guardava. Ele me treinara e educara para isso também.

— Meu filho, o ladrão é nosso amigo. É filho de minha comadre. É seu amigo de bola e de estádio aos domingos. É o fulano… Mas para que ele não fique envergonhado de saber que você sabe, não iremos lá; e você nunca o deixará saber que sabe; e vai tratá-lo como se não soubesse. Não é ladrão; apenas roubou.

Mas e se a atitude de papai fosse outra; e se divulgasse; e se chamasse a polícia; e se me deixasse ver; e se… — o que teria sido do moço; ou de mim; ou de todos nós? Uma resvalada; e tudo muda para sempre.

Uma pessoa toma uma decisão de visitar amigos, gosta do lugar, muda para lá, e encontra alguém que muda a sua vida. Mas o que a tirou de casa foi uma delicadeza para com um amigo que insistia e pedia uma visita.

Uma disputa entre amigos em razão de uma banalidade faz um rapaz e uma moça se encontrarem, e, mesmo sem amor para tal, casarem-se. E suas vidas nunca mais poderem ser outra coisa.

Um encontro. Um ato impensado. Um filho. E um destino radicalmente alterado.

Uma decisão: “Desço ou não do ônibus aqui nesta parada?” — e a vida da pessoa pode mudar para sempre; pois, nesta hipótese, a mulher que desce do ônibus tropeça na descida, e cai nos braços de um homem que a ampara daí pra sempre.

Assim, um dia, saberemos por quantos atos milagrosos fomos feitos e fomos salvos.

Entretanto, é bom se veja e que se busque entender cada instante-milagre que nos acomete.

Um segundo a mais… — e ele, ela, teriam virado a esquina para além do alcance de nosso olhar…

Tudo é co-incidência: incide junto.


Quase tudo em nossa vida é feito de “acasos” carregados de “desígnios”; e se desígnios não tivessem, mistério, todavia, não lhes faltaria; pois é como é possível que um segundo antes ou depois nos roubassem a oportunidade daquilo que passou a ser o resto-todo de nossas existências?

Assim, encontro é milagre, até quando é um mijagre.

Pense nisso!
Caio
Fonte Caiofabio.com
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Uma filme que tenha tudo haver com este texto? Veja “Não por Acaso” Imperdível!!!

Já passa de 12 anos que Marcelo conversa, sem parar, com pessoas de todos os tipos. Faz parte da sua rotina, e além de tudo é algo que lhe dá prazer. Escuta com paciência, anota os trechos mais importantes, espera a deixa correta e fala. Muito, por sinal. Sempre com o mesmo tom de voz, com olhar de amigo, gesticulando de forma animada. Afinal, ele é médico e está lá com os ouvidos atentos e a verve inspirada para ajudar, cuidar. Precisa ser franco o tempo todo, e assim o é com apenas uma exceção.
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Um assunto que ele menciona para poucos (“porque poucos entendem”, como ele diz), mas que percebe em todos: as pessoas se apegam às suas próprias aflições. E olhe que ele não está falando de doenças ou sintomas físicos, mas de um modo de viver a vida em desarmonia e criar repetidas vezes problemas e inquietudes. Foi isso que ele me mostrou, sobre mim mesmo.
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Estava lá na minha ficha, pude conferir, estupefato. Após oito anos de consultas, retornos, abandonos, freqüências e tratamentos, eu voltava ao consultório para repetir as queixas. Uma dor aqui, outra acolá, todas causadas pelo mesmo jeito de viver. Pelo jeito que criei ou, até, pelo jeito que eu sou – e isso é difícil de admitir.
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Ao olhar suas anotações, cheias de frases que pontuaram minhas consultas, percebi que não havia remédio que pudesse melhorar minhas dores, a não ser eu mesmo. Mas por quais motivos criara um modus vivendi que me trazia preocupações, dores, ansiedade? Isso veio ao encontro de muitas leituras que fiz para esta reportagem, e a resposta me atingiu em cheio, dando nó nas entranhas.
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“Todos temos uma propensão a nos auto-enganar. Ela reside na capacidade que temos de sentir e de acreditar de boa-fé que somos o que não somos”, diz Eduardo Gianetti em Auto-engano. Ou, em outras palavras, podemos muitas vezes buscar mudanças e até o autoconhecimento, sem nunca arredar pé da estaca zero.
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Conhecer a si mesmo exigiria um pouco de isenção, para não dizer humildade, para ver nossos defeitos. E depois muita vontade para mudá-los. “Vontade para viver bem”, como disse o médico Marcelo Jovchelevich.
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Nesse momento, lembrei-me da teoria de uma pessoa que considero de bem com a vida, o precursor da ioga no Brasil, professor Hermógenes, que inventou o termo “egoesclerose”. Dessa forma ele classifica como “iludidas” as pessoas que se vêem muito acima do que são.
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E isso é preciso ser dito, caro leitor. Se você vai pesquisar a si mesmo, pode ser que se dê conta de comportamentos e vícios emocionais que não lhe agradem. Eu com certeza não gostei de muitos insights que tive durante a pesquisa desse assunto. Tanta coisa nada bacana em mim, bem diferente do que eu projetava no espelho, do que via de cima do pedestal. A boa nova lhe falo pessoalmente, sem recorrer a experts: tropeçar nesses entraves me trouxe mais para o chão, e a vida ficou mais real.
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Com muito mais poesia e sabedoria, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) deixou registrado, em seu clássico Além do Bem e do Mal, um consolo para esses momentos de descoberta: “Quando a alma jovem, martirizada por puras desilusões, finalmente se volta desconfiada sobre si mesma (…), como se enraivece então, como se vinga por sua demorada auto-obcecação, com se ela tivesse sido uma cegueira voluntária! (…) Nessa transição (…) compreendemos que tudo isso era ainda juventude!” Ou seja, muita calma nessa hora! A palavra maturidade, não importa o número de velinhas que sopre em seu aniversário, ajuda na exploração interior.
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“Identificar quais emoções tentamos esconder por trás das máscaras, como vergonha, medo, orgulho, é o primeiro passo”, diz Maria das Graças. “Quando descobrir algo, trabalhe a questão sem pressa. Não se trata de passar de ano, é seu processo de reforma, de encontro. Faça no seu ritmo”, orienta a psicóloga.
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trecho de “Afinal, quem é você?”, texto publicado na revista Vida Simples.
colaboração: Judith Almeida
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Fonte PavaBlog
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Este texto me lembrou uma música da Alanis Morissette “excuses” veja o vídeo-tradução

Não faça o que eu falo….

Arnaldo Antunes – O mosquito

O mosquito me beijou
o verme me comeu
a terra me sugou
a larva cresceu

o mosquito me beijou
a borboleta me lambeu
o urubu me bicou
o lixo era eu

o mosquito me beijou
o brejo era eu
a sanguessuga me chupou
o rato me roeu

o mosquito me beijou
depois morreu

(Arnaldo Antunes/Edgard Sandurra)

Gosto da cena do filme “Sociedade dos poetas mortos” em que o Sr. Keating, um professor de inglês de uma escola preparatória de elite, pede a seus alunos que arranquem o ensaio “Introdução à poesia” de seus livros de literatura. O ensaísta tinha ensinado à turma um método de classificar poemas em uma escola deslizante, com a utilização de uma grade, dessa forma reduzindo a arte para o coração a uma aritmética para a cabeça. Os alunos olham uns para os outros confusos, enquanto seu professor descarta o ensaio porá acha-lo uma besteira, e ordena que eles arranquem aquelas páginas dos seus livros. Com o estímulo do professor, os alunos então começam a livrar-se daquelas páginas. O Dr. Keating passa pelos corredores com uma lata de lixo e lembra aos alunos que poesia não é álgebra para que seja classificada e m uma escala de um a dez; ele lhes diz que poesias são obras de arte que atingem o fundo do coração para injetar vigor aos homens e para persuadir as mulheres.
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Uma parcela grande demais do nosso tempo é gasta tentando classificar Deus em uma tabela, ao passo que muito pouco tempo é gasto no empenho de permitirmos que nossos corações sintam reverência. Reduzindo a espiritualidade cristã a uma fórmula, nós privamos nossos corações de maravilharem-se.
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Quando penso sobre a complexidade da trindade, O Deus três-em-um, minha mente não consegue compreender, mas meu coração se maravilha em enorme satisfação. É como se meu coração, em meio a sua euforia, estivesse dizendo à minha mente: “Há coisa que você não pode entender – e você precisa aprender a conviver com isso. Aliás, você não precisa apenas aprender a conviver com isso, você precisa aprender a gostar disso”.
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Quero dizer algo sobre mim que talvez vocês considerem uma fraqueza. Preciso do encanto. Sei que a morte esta vindo. Eu a cheiro no vento, eu a leio nos jornais, a vejo na Tv e nos rostos dos velhos. Preciso do encanto para explicar o que ira acontecer comigo, o que irá acontecer conosco quando isto aqui acabar, quando nosso turno terminar e os filhos dos nossos filhos ainda estiverem na Terra ouvindo sua música rap enlouquecida. Preciso de algo misterioso aconteça depois que eu morrer. Preciso estar em algum outro lugar depois de morrer, em algum lugar com Deus, em algum lugar que não faça sentido se explicado para mim agora.
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No final do dia, quando estou deitado na cama e sei que a possibilidade da nossa teologia estar absolutamente certa é de uma em um milhão, preciso saber que Deus pensou nas coisas, que, se minha matemática estiver errada, ainda sim tudo dará certo. E maravilhar-se é experimentar essa sensação que temos quando abandonamos nossas respostas bobas, nossas regras mapeadas que queremos que Deus obedeça. Não acho que haja adoração maio que o deslumbramento.
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Veja tbm Pinguins e Deus I
Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
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Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.
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Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.
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Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.
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Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
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Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.
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Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o hino… Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
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Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
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E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.
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A música acontece no silêncio.

É preciso que todos os ruídos cessem.
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No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou.
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A alma é uma catedral submersa.
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No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada.
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Somos todos olhos e ouvidos.
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Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala.
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Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
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Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.
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Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
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Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
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Rubem Alves

-Sim. Nós comíamos chocolate, fumávamos cigarro e líamos a Bíblia, que é a única forma de fazer isso,s e vc quer saber. Don, a Bíblia cai muito bem com chocolate. Eu sempre tinha achado que a Bíblia era mais salada, sabe, mas não é. É chocolate. Nós começamos lendo Mateus, e eu achei tudo muito interessante. e eu achei Jesus muito perturbador, muito direto. Ele não era diplomático, mas tive a impressão de que, se eu o conhecesse, ele realmente gostaria de mim. Don, eu não consigo explicar como isso era libertador – entender que, se conhecesse Jesus, ele gostaria de mim. Eu nunca tinha sentido isso com alguns cristãos no rádio. Eu pensei que, se conhecesse aquelas pessoas, elas fariam uma careta para mim. Mas não foi assim com Jesus. Havia pessoas que ele amava e pessoas com as quais ele realmente ficava louco e eu continuava a me identificar com as pessoas que ele amava. E isso era realmente bom, porque todas elas eram partidas – sabe? Todas cansadas da vida, querendo acabar com tudo; ou ainda pessoas desesperadas, pessoas que são párias ou pagãs. Havia outras, pessoas comuns, mas ele não escolhia favoritos, o que é em si miraculoso. E esta, por si só, ja deve ter sido a coisa mais milagrosa que ele fez; ele não demonstrava parcialidade, o que todo ser humano faz.
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Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller

A escolha de uma profissão é o primeiro calvário de todo adolescente. Muitos tios, pais e orientadores vocacionais acabam recomendando “fazer o que se gosta”, um conselho confuso e equivocado.
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Empresas pagam a profissionais para fazer o que a comunidade acha importante ser feito, não aquilo que os funcionários gostariam de fazer, que normalmente é jogar futebol, ler um livro ou tomar chope na praia.
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Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente com o que a sociedade acha importante ser feito. Mas, aí, quem tiraria o lixo, algo necessário, mas que ninguém quer fazer?
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Muitos jovens sonham trabalhar no terceiro setor porque é o que gostariam de fazer. Toda semana recebo jovens que querem trabalhar em minha consultoria num projeto social. “Quero ajudar os outros, não quero participar desse capitalismo selvagem.” Nesses casos, peço que deixem comigo os sapatos e as meias e voltem para conversar em uma semana.
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É uma arrogância intelectual que se ensina nas universidades brasileiras e um insulto aos sapateiros e aos trabalhadores dizer que eles não ajudam os outros. A maioria das pessoas que ajudam os outros o faz de graça.
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As coisas que realmente gosto de fazer, como jogar tênis, velejar e organizar o Prêmio Bem Eficiente, eu faço de graça. O “ócio criativo”, o sonho brasileiro de receber um salário para “fazer o que se gosta”, somente é alcançado por alguns professores felizardos de filosofia que podem ler o que gostam em tempo integral.
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O que seria de nós se ninguém produzisse sapatos e meias, só porque alguns membros da sociedade só querem “fazer o que gostam”? Pediatras e obstetras atendem às 2 da manhã. Médicos e enfermeiras atendem aos sábados e domingos não porque gostam, mas porque isso tem de ser feito.
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Empresas, hospitais, entidades beneficentes estão aí para fazer o que é preciso ser feito, aos sábados, domingos e feriados. Eu respeito muito mais os altruístas que fazem aquilo que tem de ser feito do que os egoístas que só querem “fazer o que gostam”.
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Então teremos de trabalhar em algo que odiamos, condenados a uma vida profissional chata e opressiva? Existe um final feliz. A saída para esse dilema é aprender a gostar do que você faz. E isso é mais fácil do que se pensa. Basta fazer seu trabalho com esmero, bem feito. Curta o prazer da excelência, o prazer estético da qualidade e da perfeição.
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Aliás, isso não é um conselho simplesmente profissional, é um conselho de vida. Se algo vale a pena ser feito na vida, vale a pena ser bem feito. Viva com esse objetivo. Você poderá não ficar rico, mas será feliz. Provavelmente, nada lhe faltará, porque se paga melhor àqueles que fazem o trabalho bem feito do que àqueles que fazem o mínimo necessário.
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Se quiser procurar algo, descubra suas habilidades naturais, que permitirão que realize seu trabalho com distinção e o colocarão à frente dos demais. Muitos profissionais odeiam o que fazem porque não se prepararam adequadamente, não estudaram o suficiente, não sabem fazer aquilo que gostam, e aí odeiam o que fazem mal feito.
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Sempre fui um perfeccionista. Fiz muitas coisas chatas na vida, mas sempre fiz questão de fazê-las bem feitas. Sou até criticado por isso, porque demoro demais, vivo brigando com quem é incompetente, reescrevo estes artigos umas quarenta vezes para o desespero de meus editores, sou superexigente comigo e com os outros.
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Hoje, percebo que foi esse perfeccionismo que me permitiu sobreviver à chatice da vida, que me fez gostar das coisas chatas que tenho de fazer.
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Se você não gosta de seu trabalho, tente fazê-lo bem feito. Seja o melhor em sua área, destaque-se pela precisão. Você será aplaudido, valorizado, procurado, e outras portas se abrirão. Começará a ser até criativo, inventando coisa nova, e isso é um raro prazer.
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Faça seu trabalho mal feito e você odiará o que faz, odiando a sua empresa, seu patrão, seus colegas, seu país e a si mesmo.

Stephen Kanitz

Amor e morte, cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não-ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o carater supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros…
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… não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas nos estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.
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Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual grande incógnita da equação do outro. É isso que faz o amo parece um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas , em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível. Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade do ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor. “A satisfação no amor individual não pode ser atingida… sem humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeira”, afirma Erich Fromm – apenas para acrescentar adiante, com tristeza, que em “uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar sera sempre, necessariamente, uma rara conquista”
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E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resulstados que não exigem esforço prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta ( falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “esperiência amorossa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultado sem esforço.
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Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman

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Pense no que você faria se lhe fosse dito que lhe restam três meses de vida. Depois do pânico inicial… Suas rotinas diárias, as coisas que você considera importantes, inadiáveis, pelas quais sacrifica o ócio, a meditação, o brinquedo… A leitura de jornais, os canhotos dos talões de cheque, os documentos para o IR, os ressentimentos conjugais, os rancores profissionais, a pós-graduação, as perspectivas da carreira… Tudo isso encolheria até quase desaparecer. E o presente ganharia uma presença que nunca teve antes. Ver e saborear cada momento; são os últimos: o quadro, esquecido na parede; o cheiro de jasmim; o canto de um pássaro, em algum lugar; o barulho dos grilos, enquanto o sono não vem; a gritaria das crianças; os salpicos da água fria, perto da fonte… Talvez você até criasse coragem para tirar os sapatos e entrar na água… Que importaria o espanto das pessoas sólidas? Talvez encontremos aqui as razões por que a sociedade oculta e dissimula a morte, tornando-a até mesmo assunto proibido para conversação. A consciência da morte tem o poder de libertar, e isso subverte as lealdades, valores e respeitos de que a ordem social depende. Colocando os sepulcros nas mãos dos deuses, a religião obriga a inimiga a se transformar em irmã… Livres para morrer, os homens estariam livres para viver…

Rubem Alves

Este texto me lembrou esta música do Paulinho Moska “O último dia”

“…Uma criança nascendo, obrigado Senhor
Seja lá quem for o Senhor
Seja lá quem for a Senhora
A quem quiser me ouvir e a mim mesmo
Preciso dizer tudo que eu estou dizendo agora…”

Gabriel Pensador

Leia abaixo um pouco mais sobre estas coisas…

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Banda de idosos grava The Who e vira sensação na internet, veja versão com legenda

The Zimmers em Abbey Road
Os 40 integrantes do grupo têm mais de 90 anos de idade
Uma banda britânica integrada por 40 pessoas, todas com mais de 90 anos de idade, está causando sensação na internet cantando uma versão do clássico My Generation, dos roqueiros The Who.

Poucas semanas após ser gravado, o vídeo do grupo recebeu mais de dois milhões de hits no YouTube, tornando-se o campeão de visitas do site.

A banda, The Zimmers, se apresentou nos Estados Unidos e foi notícia em mais de 60 países.

A idéia partiu de Tim Samuels, autor de um documentário que tenta chamar a atenção para o drama de milhões de aposentados britânicos que vivem hoje solitários e abandonados.

São 3,5 milhões de idosos vivendo sozinhos e meio milhão morando em asilos.

“Eu quis fazer um documentário que mostrasse como nós tratamos os nossos idosos neste país”, disse Samuels.

“Se você fosse julgasse uma sociedade pela forma como ela trata seus idosos, estaríamos em apuros”, acrescentou.

Voluntários

Mas Samuels não queria apenas mostrar os idosos como vítimas.

“A idéia era mostrar como são marginalizados mas também fazer algo que os ajudasse a reagir.”

“Queríamos colocá-los de volta no centro da sociedade. E existe maneira melhor de conseguir isso do que estourar na parada pop?”

Samuels viajou pela Inglaterra procurando idosos que quisessem gravar um single. Segundo ele, a maioria achou a idéia meio ridícula, mas resolveu aceitar.

Alguns já tinham até ouvido My Generation, do The Who.

Abbey Road

Formada a banda, Samuels pediu a ajuda de gente da indústria da música.

Mike Hedges, produtor do U2, Dido e The Cure, aceitou produzir o single.

Neil Reed, da gravadora X-Phonics, concordou em lançá-lo.

E Geoff Wonfor, diretor do vídeo do Band Aid, resolveu fazer o clipe.

Para a gravação, Samuels conseguiu nada mais, nada menos, do que o lendário estúdio Abbey Road, onde os Beatles gravaram.

No dia da gravação, ninguém sabia direito o que ia acontecer. Até que Alf, de 90 anos, pegou o microfone e começou a cantar a letra de My Generation: “I hope I die before I get old” (espero que eu morra antes de ficar velho).

Samuels disse que nesse momento percebeu que algo muito especial estava acontecendo.

O single provocou uma resposta internacional.

“É um fenômeno universal”, diz Samuels. “Toda sociedade se preocupa com a forma como os idosos são tratados e se comove ao ver um grupo deles se juntar, bem no estilo rock’n'roll, para se fazer ouvir.”

“Com sorte (a experiência) vai questionar alguns preconceitos sobre os idosos.”

Além de Alf, outros integrantes do grupo são Buster, de 100 anos. E Winnie, de 99.

“Estou me divertindo muito”, diz Winnie, apoiada em uma bengala.

“Eu nasci de novo”, diz Alf. “Eu tinha 90 anos e estava preso em uma rotina. Agora sinto que estou vivendo novamente.”

Fonte : BBC

Ninguém é tão pobre que não tenha o que dar, ou tão rico que não tenha o que receber. Não é possível pensar em paz enquanto o mundo permanece dividido em dois grupos: os que dão e os que recebem. A verdadeira dignidade humana encontra-se tanto em dar quanto em receber. Isso se aplica não só aos indivíduos mas também às nações, culturas e comunidades religiosas. Uma verdadeira visão de paz testemunha uma reciprocidade contínua entre dar e receber. Não deixemos de perguntar a nós mesmos o que estamos recebendo daqueles a quem damos antes de fazê-lo, e nunca recebamos antes de perguntar o que devemos dar àqueles de quem recebemos.
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Dar é muito importante: dar discernimento, esperança, coragem, conselho, apoio, dinheiro e, acima de tudo, dar-nos a nós mesmos. Sem dar não há fraternidade e irmandade. Mas receber é igualmente importante, porque ao fazê-lo revelamos aos doadores que eles têm algo a oferecer. Quando dizemos “obrigado, você me deu esperança; obrigado, você me deu uma razão para viver; obrigado, você permitiu que eu percebesse meu sonho”, fazemos os doadores se conscientizarem de seus dons únicos e preciosos. Às vezes é apenas nos olhos dos que recebem que os doadores descobrem esses dons.
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Henri Nouwen
Quem é Henri Nouwen?

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Era uma vez uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões. Primeiro porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou estórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez suas penas estavam vermelhas, e ele contou estórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos.
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Mas sempre chegava o momento quando o pássaro dizia: “Tenho de partir.” A menina chorava e implorava: “Por favor não vá fico tão triste. Terei saudades e vou chorar…” “Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “Eu também vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. E eu deixarei de ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar.” E partia. A menina sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: “Se o Pássaro não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre. E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola.” Assim aconteceu.
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A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda. Quando o pássaro voltou eles se abraçaram, ele contou estórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou ele deu um grito de dor. “Ah! Menina…que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias. Sem a saudade o amor irá embora…” A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar. Mas não foi isso que aconteceu.
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Caíram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo… Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola. “Pode ir, Pássaro”, ela disse.” Volte quando você quiser…” “Obrigado, menina”, disse o Pássaro. “Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!
Rubem Alves

Quem é o homem que eu estou vendo ?
Onde eu deveria estar?
Perdi meu coração
Eu enterrei fundo demais
Sob o mar de ferro

Bola de cristal salve todos nós!
E me diga que a vida é bela

Estou me esvaindo
Tudo o que sei esta errado
…eu me olho no espelho
mas não há ninguem…

Keane – Crystall Ball


“Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” João 3:17


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Linkin Park – What I’ve Done

Outra tradução possível…
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“So let mercy come, and wash away…”
Então deixe a misericórdia* vir e levar* embora

*misericórdia: ter compaixão pela miséria alheia
*levar: no sentido de uma onda que destrói, uma maremoto…

“Falta de fé parece então consistir em desistir de retornar, de tentar mais uma vez. O que não crê se entrega nos braços do (des)espero, do não esperar mais nada das pessoas, de si mesmo, de Deus.” Gladyr Cabral


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John Woolman (alfaiate Quacker do século XVIII, cujo diário é um clássico da espiritualidade) o fez. Ele resolveu organizar seus afazeres exteriores de tal modo que pudesse estar, a cada momento, atento àquela voz. Simplificou sua vida à base de sua relação com o Centro divino. Nada mais valia tanto quanto a atenção à Raiz de todo viver que ele descobria dentro de si mesmo. E a descoberta Quacker é justamente esta: os sussurros de orientação, amor e presença divinos, mais preciosos que o céu e terra. John Woolman nunca permitiu que as exigências do seu negócio ultrapassassem suas necessidades reais. Quando vinham muitos clientes, ele os mandava para outro lugar, para comerciantes e alfaiates mais necessitados. Sua vida exterior tornou-se simplificada à base de uma integração interior. Descobriu que podemos ser homens e mulheres guiados pelo céu, e se rendeu completamente, sem reservas àquela orientação, tornado-se aquecido e próximo ao Centro. Eu disse que sua vida exterior tornou-se simplificada, e usei de propósito a voz passiva. Ele não precisou lutar e renunciar e se esforçar para alcançar a simplicidade. Ele rendeu-se ao Centro, e sua vida tornou-se simples. Era sinótico; tinha singeleza de visão. “Se o teu olho for singelo, todo o corpo ser cheio de luz”. Seus muitos egos integravam-se num só ego verdadeiro, cujo único objetivo era de andar humildemente na presença, orientação e vontade de Deus. Nada de derrota eleitoral de uma minoria de egos descontentes. Era como se houvesse nele um presidente que no silêncio solene da interioridade, percebia o consenso da reunião. Eu direi que o método Quacker de conduzir as reuniões administrativas aplica-se também, individualmente às nossas vidas interiores.
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No centro, no abismo onde habita o Eterno no fundo do nosso ser nossos programas, doações e oferenda de tarefas realizadas estão sendo constantemente reavaliadas. Não conseguíamos dizer “não” a eles, porque pareciam tão importantes. Mas se centrarmo-nos e vivermos no Silencio que é mais precioso do que a vida, e levarmos o nosso programa para os lugares silenciosos do coração, com abertura total, prontos a fazer ou renunciar segundo a Sua direção, muitas das coisas que fazemos perderão a sua importância.
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…Desejo ser drástico e impiedoso em desmascara qualquer fingimento na questão da devoção e singeleza de amor a Deus. Mas devo confessar que não leva tempo, nem complica seu programa. Tenho descoberto que uma vida de sussurros de adoração, de louvor e de oração pode permear o dia. É possível ter um dia muito cheio, no sentido exterior, e mesmo assim estar continuamente na Santa Presença. Precisamos, isto sim, e uma tranqüila meia hora ou hora de leitura e reflexão. Mas podemos levar os silêncios recriadores dentro de nós, quase o tempo todo.

Com alegria leio o irmão Lawrence (irmão leigo francês do século XVIII), na sua “Prática da Presença de Deus”. No final da quarta conversação, diz-se dele: “Nunca estava apressado nem ocioso, mas fazia tudo a seu tempo, com uma serenidade ininterrupta e espírito tranqüilo”. A hora de negócios, diz ele, para mim não difere da hora de oração, e no barulho e tinido de minha cozinha, com várias pessoas pedindo coisas ao mesmo tempo, possuo a Deus com a mesma tranqüilidade, como se estivesse ajoelhado recebendo o sacramento. “A verdadeira razão de não recolhermo-nos, não centrarmo-nos, não é falta de tempo; em muitos de nós, ao que me parece, é a falta de um prazer entusiasta nele, de um profundo amor dirigido a Ele em todo momento do dia e da noite. Deve ficar claro que estou falando de um estilo revolucionário de viver. A religião não é algo que acrescentamos às nossas outras tarefas, assim tornando ainda mais complexas as nossas vidas. A vida com Deus é o Centro da Vida, e tudo mais é remoldado e integrado de acordo.

É isso que dá singeleza de visão. O mais importante não é estar sempre passando copos de á grua fria para um mundo sedento. É possível estarmos tão ocupados tentando cumprir o segundo grande mandamento, “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, que ficamos sub-desenvolvidos na nossa devoção a Deus. Mas, temos que amar a Deus tanto quanto ao próximo. Estas coisas deveríamos fazer sem deixar a outra pela metade. Há um estilo de vida tão oculto com Cristo em Deus que, em meio dos afazeres do dia, podemos elevar interiormente breves orações de louvor, sussurros de adoração e amor ao além que está dentro de nós. Ninguém precisa saber. É possível viver um estado quase contínuo de oração silenciosa, orações com respeito a Deus ou com respeito a pessoas e empreendimento que estão no nosso coração. Nada de pressa; é uma vida indizível e cheia de glória, um mundo interior de glória, um mundo interior de esplendor o qual, embora indignos, podemos viver. Alguns de vocês o conhecem e vivem nele; outros ardentemente o desejam; pode ser seu. Deste centro Santo vêm os encargos da vida. Nossa comunhão com Deus desemboca numa preocupação mundial. Não podemos guardar o amor de Deus só para nós mesmos. Transborda, nos aviva, nos faz ver novamente as necessidades do mundo. Amamos as pessoas e ficamos aflitos de vê-las cegas quando poderiam estar acordados e vivendo sacrificialmente; aceitando os bens do mundo como seu direito quando, na realidade, lhes foram apenas confiados temporariamente. “A maior necessidade dos homens não é comida, roupa e abrigo, embora todas estas coisas sejam importantes. É Deus. Equivocamo-nos quanto à natureza da pobreza, achando que é econômica. Não, é pobreza de alma, da privação da paz recriadora de Deus. Nossos esquemas de salvação econômica não atingem as necessidade mais profundas. São importantes, mas constituem num segundo passo no caminho da reconstrução mundial.

O primeiro passo é um vida santa, transformada e radiante da glória de Deus. Este amor pelas pessoas é quase tão estupendo quanto o amor a Deus. Queremos ajudar as pessoas porque temos pena delas, ou porque realmente as amamos? O mundo precisa de algo mais profundo do que a pena, precisa de amor. (Quão banal esta frase, mas quão verdadeira!) Mas no nosso amor às pessoas, seremos apressados englobando todos os homens e tarefas na nossa preocupação amorosa? Não, esta é a função de Deus. Mas ele, operando em nós, divide a sua preocupação vasta e dá a cada um de nós a porção devida. Esta se torna a nossa tarefa. A vida do Centro é uma vida dirigida do céu. Boa parte da nossa aceitação de uma multidão de obrigações é devido à nossa incapacidade de dizer “não”. Vemos que uma tarefa precisa ser feita e não há ninguém para fazê-la. Calculamos o nosso tempo e decidimos que talvez dê para incluí-la. Mas a decisão parte da cabeça, não do santuário da alma.

Quando dizemos “sim” ou “não” nessa base, temos que dar razões, para nós mesmos e para os outros. Mas quando dizemos “sim” ou “não” à base da orientação interior e sussurros de incentivo do Centro, ou então à base da ausência de qualquer “elevação” interior da vida para nos encorajar, não temos razões para dar, menos uma – a vontade de Deus como nós a discernimos. Aí começamos a viver sob a orientação divina. E tenho descoberto que Ele nunca nos guia a viver num frenesi intolerável. a paciência, pois Deus está operando no mundo. Não trabalhamos sozinhos no mundo. Tentando terminar desesperadamente uma obra para ofertar a Deus. A vida do Centro é de paz e poder. É simples. É serena. É triunfante. É radiante. Não ocupa tempo algum, mas ocupa o nosso tempo todo. Renova nossos programas. Não precisamos ficar frenéticos; ele é o timoneiro. E quando termina o nosso pequeno dia, deitamos em paz, pois tudo vai bem. Curitiba, verão de 1997.


Teologia e MPB, é o nome da comunidade, criada pelo cantor e compositor Jorge Camargo.

Confira e participe…

Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior. As distrações exteriores dos nossos interesses refletem a falta interior de integração das nossas vidas. Queremos ser vários egos ao mesmo tempo, sem que todos esses egos estejam organizados por uma única e soberana Vida dentro de nós. Todos nós temos a tendência de ser, não um único ego, mas todo um comitê de egos. Há o ego cívico, o ego paterno, o ego financeiro, o ego religioso, o ego profissional, e ego literário. E cada um desses egos, por sua vez é um franco individualista, não cooperando, mas votando aos berros em si mesmo quando chega a hora da votação. Muitas vezes seguimos o método eleitoral para chegar a uma rápida decisão entre as nossas vozes interiores conflitantes.
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É como se tivéssemos um presidente do comitê, que não integra os muitos egos, mas apenas conta os votos e deixa minorias descontentes. As reclamações de cada ego deixam de ser feitas. Se aceitamos servir na comissão de uma obra social, continuamos sentir remorso por não podermos também ensinar na Igreja. Não somos integrados: somos angustiados. Sentimos o clamor de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E, no entanto, somos infelizes, receosos, tensos e oprimidos, com medo de sermos superficiais. Pois, desde além das margens da vida vem um sussurro, um apelo indistinto, um presságio de uma vida rica que estamos deixando escapar. Contorcidos pelo ritmo louco dos nossos afazeres, somos ainda por cima incomodados por uma inquietação interior, pois não deixamos de receber intimações da existência de um estilo de vida muito mais rico e profundo do que toda nossa pressa, uma vida de serenidade, paz e poder. Ah! Se pudéssemos descobrir o silêncio que é a fonte do som! Conhecermos algumas pessoas que parecem ter descoberto esse Centro profundo, onde os clamores insistentes da vida são integrados, onde o “não”, tanto quanto o “sim” podem ser ditos com confiança.

Já vimos vidas assim, integradas, tranqüilas no meio de decisões difíceis, vida alegres, vigorosas, positivas. Não são pessoas preguiçosas ou vadias, nem obviamente absortas em profundas meditações; estão carregando um fardo tão pesado quanto o nosso, mas com um passo leve, sem abatimento nem irritação. Sua vida cotidiana é cercada por uma auréola de infinita paz, poder e júbilo. Nós somos tão tensos e inquietos; eles tão equilibrados e em paz.

Se a sociedade de Amigos (os Quakers) tem algo a dizer, é principalmente nesta área. A vida deve ser vivida a partir de um Centro, o Centro Divino. Cada um de nós é capaz de viver uma vida de estupendo poder e paz e serenidade, de integração e confiança e multiplicidade simplificada sob uma condição: que realmente queiramos isto. Há em todos nós um abismo divino, cum Centro infinito, um coração, uma Vida que fala em nós e através de nós para o mundo. Todos já ouvimos este sussurro Santo. As vezes, seguimos o sussurro, e produz-se em nós um espantoso equilíbrio de vida, uma estupenda eficácia. Mas muitos de nós atendemos a esta voz apenas esporadicamente. Só de vez em quando submetemo-nos à sua santa orientação. Não temos considerado esta coisa santa em nós como a coisa mais preciosa do mundo. Não temos aberto mão de tudo mais, para atendermos a ela somente. Repito: a maioria de nós não tem abandonado todas as outras coisas para poder atender ao Santo que está em nós.
Continua na semana que vem.

Benjamin Nugent/Nova York
Tradução: George El Khouri Andolfato

A missão social de Bono do U2 na África O maior astro do rock do mundo também é o maior defensor da África. Mas Bono sabe que precisa defender a ajuda com a cabeça, e não com o coração Por Josh Tyrangiel Bono é um egomaníaco. Ele sabe disto e freqüentemente se desculpa por isto. Quando ele desobedece as instruções de seu empresário, ele repreende a si mesmo -”astro pop malvado”- o que permite que comente o ridículo do estrelato pop ao mesmo tempo que serve como um lembrete de que ele é, de fato, um astro pop. Ele seria um megalomaníaco caso sua preocupação com o poder fosse ilusória, mas não é. Há menos de um mês, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, ele se sentou ao lado de Bill Gates para discutir formas de salvar um continente; dois dias depois ele cantou para uma audiência de televisão de 130 milhões durante o show de intervalo do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano. Não foi uma semana ruim. Dá para culpar o sujeito por ser um pouco cheio de si? Com um mero movimento de cabeça, Bono pode comandar a atenção de um estádio lotado. Mas quando ele trabalha em uma sala menor, seu carisma se adapta; ele se torna sereno, hábil.

No final de certa noite, durante o fórum em Nova York, uma dúzia de representantes da Fundação Bill & Melinda Gates, da Igreja Episcopal, MTV e Data (Dívida, Ajuda e Comércio para a África) se reuniram para uma sessão estratégica em um salão nos fundos de um restaurante de Manhattan. O grupo estava debatendo formas para convencer os americanos de que salvar a África da ruína financeira é do interesse dos Estados Unidos. Como freqüentemente acontece no debate sobre a África, a discussão eventualmente afundou em uma frustração cansada. Por volta da meia-noite, o ar abandonou o salão e, com ele, qualquer lampejo de produtividade. Então Bono, o cantor da banda U2, entrou. Vestindo uma jaqueta preta de couro, seus óculos característicos tingidos de azul e um sorriso maroto, ele deslizou em volta da mesa, apertando mãos e beijando bochechas. Como o Super-Homem se transformando em Clark Kent, o zeloso ativista político entrou em ação. Antes que tipos tímidos pudessem cochichar sobre algum encontro anterior, ele os colocou à vontade, mencionando seus nomes e as circunstâncias da última vez que se encontraram: “É claro! O fórum em Boston!” Concluída sua transmissão de ânimo, Bono -fundador, porta-voz e principal benfeitor da Data, um grupo sem fins lucrativos de defesa do cancelamento da dívida -se sentou na ponta da mesa e, à 1 hora da madrugada, recontou os detalhes de sua sessão no início da manhã como 30 congressistas republicanos. “Eu não estou disposto a desistir dos republicanos”, disse ele sobre seus esforços para converter os congressistas ao cancelamento da dívida e maior ajuda à África. “Eles são durões, mas se dispõem a escutar”. Com a energia renovada no salão, Bono, o deus do rock, desapareceu. À medida que as idéias fluíam, ele aprovava com a cabeça silenciosamente, apenas outro nerd proferindo acrossemias. Isso durou por quase uma hora até que Trevor Neilson, diretor de projetos especiais da Fundação Bill & Melinda Gates, reclamou: “Olha, nós temos que abrir mão, segundo a lei tributária, de US$ 1,2 bilhão por ano”. “Trevor”, disse Bono, ganhando novamente as proporções de astro pop para melhor dizer sua fala, “nós podemos ajudar”.

O U2 está concorrendo a oito prêmios Grammy nesta semana por “All That You Can’t Leave Behind”. Este álbum e os concertos da banda -ainda os melhores do rock- se tornaram pedras de toque culturais depois de 11 de setembro. O U2 conseguiu, com alguns poucos tropeços ao longo do caminho, o feito quase sem precedente de se manter musicalmente -e politicamente- relevante por 22 anos. Mas apesar de ser um grande astro do rock -e sem rival- Bono se tornou ainda maior nos últimos três anos, se moldando em um ativista político dedicado, astuto, se transformando no mais secular dos santos, um símbolo mundial do ativismo do rock-and-roll. Parte poeta, parte político, ele pegou sua causa -solucionar os problemas financeiros e de saúde da África- e ajudou a colocá-la na agenda das pessoas mais poderosas do mundo. “A princípio eu recusei a me encontrar com ele” disse o secretário do Tesouro, Paul O’Neill, que no ano passado se juntou ao papa João Paulo II, Bill Clinton, Jean Chretien, George Soros, Jesse Helms e Colin Powell na lista de encontros de Bono. “Eu achei que ele era apenas outro astro pop que queria me usar”. Após a reunião programada para meia hora ter durado 90 minutos, O’Neill mudou de idéia. “Ele é uma pessoa séria. Ele se importa profundamente com estas questões, e sabe de uma coisa? Ele conhece muito a respeito”.

Os astros do rock tendem a se considerar sábios emocionais, pessoas que sentem o risco do desaparecimento das florestas tropicais e a angústia dos tibetanos mais profundamente que o restante da humanidade. O envolvimento de Bono com a África começou da forma típica da celebridade diletante. Em 1984, o U2 participou do Band Aid e do Live Aid, os esforços de Bob Geldof para combater a fome na Etiópia. Enquanto muitos dos participantes do Live Aid fizeram suas apresentações e passaram para a próxima causa, Bono e sua esposa, Alison Stewart, decidiram descobrir o verdadeiro estado da fome africana. Eles viajaram para Wello, Etiópia, e passaram seis semanas trabalhando em um orfanato. “Você acordava pela manhã, e a neblina começava a dissipar”, lembrou Bono. “Você caminhava para fora da tenda, e contava os corpos das crianças mortas e abandonadas. Ou pior, o pai da criança vinha até você e tentava lhe dar seu dar seu filho vivo, dizendo: ‘Fique com ele, porque se for seu filho, ele não vai morrer”.

A experiência permaneceu em sua mente até 1999, quando se juntou ao movimento Jubileu 2000. Citando o Levítico (“Santificarão o qüinquagésimo ano… cada um de vocês recobrará a sua propriedade”), a meta do Jubileu 2000 era fazer com que os Estados Unidos e outras nações ricas, assim como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, cancelassem a dívida externa dos 52 países mais pobres do mundo, a maioria deles na África. Ao eliminarem US$ 350 bilhões de seus livros contábeis, estes países estariam livres para gastar o dinheiro em saúde e educação, ao invés de abaterem o principal dos empréstimos contraídos por governos corruptos e em muitos casos que já deixaram de existir há muito tempo. “Nós extraímos destes países ao ponto de seus sistemas de saúde se tornarem absolutamente inoperantes”, disse Jeffrey Sachs, o economista de Harvard que negociou o pacote de cancelamento da dívida da Bolívia em 1986. “Os sistemas educacionais estão falidos, e há muita morte associada ao colapso da saúde pública e a falta de acesso à medicamentos. Eu não acho que os americanos queiram isto”. Apesar de Bono saber o básico sobre o cancelamento da dívida, ele consultou Sachs quando iniciou seu período como embaixador não-oficial do Jubileu. “Ele me telefonou e disse que gostaria de um encontro para conversar sobre as dívidas externas”, disse Sachs. “E pediu para que eu levasse comigo um colega conservador, pois queria ouvir o outro lado”. Armado com sua instrução rápida sobre o cancelamento da dívida, Bono começou a usar sua fama para fazer lobby junto aos políticos, mesmo aqueles que não sabiam exatamente quem ele era. “Eu nunca vou esquecer certo dia do meu governo”, disse o ex-presidente Bill Clinton, “no qual o secretário [do Tesouro, Lawrence] Summers veio ao meu gabinete e disse: ‘Sabe, um sujeito acabou de vir me ver vestindo jeans e camiseta, e só tinha um nome, mas ele era bem inteligente. Você sabe alguma coisa a respeito dele?’”

No ano passado o Jubileu 2000 foi rebatizado de Drop the Debt (suspendam a dívida), e Bono permaneceu como o porta-voz mais famoso e persuasivo do grupo. Ele fundou a Data, que espera lançar oficialmente em meados de março, como um veículo para expandir sua agenda para a África, incluindo ajuda econômica a curto prazo, redução de embargos comerciais e recursos para o combate à Aids em troca de democracia, responsabilidade e transparência dos governos por todo o continente. “Eu sei o quanto é absurdo ter um astro do rock falando sobre a Organização Mundial de Saúde, ou o cancelamento da dívida ou HIV/Aids na África”, disse Bono. Mas ele também sabe que ninguém mais com o acesso à mídia e o dinheiro que ele dispõe assumiu o cargo. Em um esforço para manter a discussão séria e evitar a aparência de ser apenas outro roqueiro contra coisas ruins, ele evita tratar a África como uma questão emotiva. “Nós não usamos compaixão como argumento”, disse ele. Seu argumento é pragmático, não um sermão. “Nós colocamos a questão nos termos mais grosseiros possíveis; nós a tratamos como uma questão de segurança e uma questão financeira para a América…

Há potencialmente outros 10 Afeganistãos na África, e é 100 vezes mais barato impedir o incêndio do que ter que apagá-lo”. A Agenda Data se baseia livremente no Plano Marshall, que forneceu aos europeus assistência estrangeira, cancelamento da dívida e incentivos comerciais para a reconstrução de suas economias após a Segunda Guerra Mundial, para que pudessem agir como uma defesa contra a expansão soviética. Quando Bono se encontrou com Colin Powell em janeiro de 2001, ele levou um presente, uma bilhete assinado por George C. Marshall, outro militar que se tornou secretário de Estado. O roqueiro se mostra lírico ao falar sobre o Plano Marshall: “Você ainda encontra pessoas da idade dos meus pais na Europa que falam sobre o Plano Marshall. Foi o momento em que a Europa sentiu as graças da América, de uma forma maior do que apenas contribuir com poderio militar”.

Bono quer que sua visão para a África seja tão eficaz e duradoura para as futuras gerações quanto o Plano Marshall foi para as do passado. “Será que podemos fazer algo de que as pessoas se orgulhem daqui algumas gerações?” ele perguntou. À 1h30 da madrugada, exatamente cinco horas depois de sua apresentação no intervalo do Super Bowl, Bono estava exercitando o direito fundamental do astro do rock de ser ridículo. No jantar de comemoração pós-jogo com seus companheiros de banda, a produção do U2 e a atriz Ashley Judd (uma velha amiga), ele tomou um pouco de vinho tinto, contou algumas histórias sobre Frank Sinatra, deixou um recado na caixa postal do celular do marido de Judd, o informando gentilmente que sua esposa tinha sido raptada por uma banda de rock, e depois saiu de fininho para o banheiro para fumar um cigarro. (Bono acha que os demais membros do U2 não sabem que ele fuma; eles sabem.) Depois de 15 minutos, o guitarrista The Edge, que mantém uma espécie de papel paternalista em relação ao seu amigo de infância e companheiro de banda, olha para o banheiro e diz nervosamente: “Bono é alérgico a vinho tinto”. Certamente Bono desmaiou no chão do banheiro. Sheila Roche, a vice-empresária do U2, se mantém despreocupada e continua bebendo seu drink. “Ele provavelmente está tirando um cochilo. Ele é um excelente cochilador”, disse ela. Poucos minutos depois, Bono despontou amarrotado mas renovado. Enquanto deixava o restaurante e abria caminho em meio a multidão na Bourbon Street, ele jogou os braços para o alto e gritou para ninguém em particular: “Não, eu não vou fazer a dança da cobra para você!” Bono estava em pleno modo astro do rock, e ele tinha um bom motivo para saborear o momento.

O U2 quase acabou alguns anos atrás. Após o lançamento em 1997 do álbum “Pop”, o primeiro fracasso na carreira deles, os membros da banda -todos na faixa dos 40 anos, todos com relacionamentos, interesses paralelos e mais dinheiro do que poderiam gastar- tiveram que decidir se existia um bom motivo para continuarem sendo uma banda. “Por que vocês ainda estão existindo?” perguntou The Edge retoricamente. “Sabe como é, vocês fizeram alguns ótimos álbuns. Mas por que ainda estão gravando? Parte do que decidimos é que sentíamos ou acreditávamos que ainda podíamos gravar o álbum do ano”. Em “All That You Can’t Leave Behind”, que recebeu oito indicações para o Grammy, incluindo a de Álbum do Ano -o U2 dispensou a bateria eletrônica e os DJs empregados em “Pop” e voltou ao difícil negócio de compor grandes canções diretas. Nas letras, Bono estava lutando com a doença terminal de seu pai (o pai dele, Bob Hewson, morreu de câncer no ano passado), mas a especificação pode ser a ruína do pop. Canções como “One”, “Where the Streets Have No Name”, “Stay (Faraway, So Close)” e “Walk On” de “All That You Can’t Leave Behind” conseguem o impossível -se tornarem significativas para milhões de pessoas- precisamente por serem belamente vagas. “Bono recentemente fez algo que provavelmente não deveria ter feito”, disse o baterista Larry Mullen Jr. “Ele fez um livro como um favor para um amigo dele da Irlanda no qual ‘explica’ todas as letras. Eu acho isto um erro porque um das coisas mais valiosas sobre as letras dele é que você pode adaptá-las a qualquer situação em particular”. Milhões de ouvintes adaptaram “All That You Can’t Leave Behind” para lidar com o trauma de 11 de setembro. Depois que o primeiro compacto, “Beautiful Day”, conquistou três prêmios no Grammy do ano passado -fazendo Bono declarar sem nenhuma modéstia: “Nós estamos nos recandidatando ao posto. Que posto? O posto de melhor banda do mundo”- o álbum lentamente caiu na parada da Billboard, chegando à 108o lugar em agosto de 2001. Mas nos meses que se seguiram a 11 de setembro, enquanto as pessoas procuravam por conforto, fuga ou ambos, o álbum ganhou novo impulso, chegando ao 25o lugar depois do Super Bowl, em sua 67a semana de lançamento. O álbum não é presciente, apenas elástico.

Em “Walk On”, a melhor faixa do álbum, Bono canta: “Eu sei que dói/E seu coração parte/E você só pode suportar um limite/Siga em frente”. E em “Peace on Earth”, ele lamenta: “Cansado do pesar/Cansado da dor/Cansado de ouvir repetidas vezes/De que haverá paz na Terra”. A turnê Elevation do U2, que já realizou mais de 100 shows com lotação esgotada para mais de 2 milhões de pessoas em 2001, também ganhou um ar completamente diferente depois de 11 de setembro. “Havia ira, raiva, patriotismo, tristeza”, disse Mullen Jr. “Tudo se tornou assustadoramente extremo”. Em reconhecimento à tragédia, o U2 começou a projetar os nomes dos membros falecidos da polícia e do corpo de bombeiros de Nova York, assim como os das vítimas dos quatro vôos fatais, nas telas e paredes das arenas enquanto tocavam “One”. “Eu tenho que admitir que no começo tive dúvidas”, disse o baixista Adam Clayton. “Parecia que estávamos realmente apertando um botão.

Mas Bono é um sujeito único, e tem um grande julgamento. Ele é capaz de realizar uma cirurgia cardíaca e realizar uma cirurgia no cérebro das pessoas ao mesmo tempo”. O U2 incorporou os nomes na exibição do intervalo do Super Bowl (os projetando durante as canções “MLK” e “Where the Streets Have No Name”). Não foi uma declaração política, apenas emocional. Como planejado, ela não disse nada em particular e ao mesmo tempo comunicou algo profundo. Foi exatamente o tipo de momento impossível, de ascensão, que Bono acredita que o U2 existe para promover. Perambulando por Nova Orleans depois do jogo, Bono reviveu cada um dos 11 minutos da apresentação em algo parecido a tempo real. “Eu espero que saia bem na televisão, porque eu senti -ah!- que foi fantástico”. A badalação dos momentos impossíveis é do que vivem os astros do rock, mas não é prático para um ativista político.

Duas semanas depois da apresentação do Super Bowl, Bono estava em Los Angeles para aceitar uma doação de US$ 100 mil (R$ 242 mil) da Fundação da Indústria do Entretenimento para a Data. Ele marcou uma reunião na sacada de sua suite no Chateau Marmont com Michael Stipe, Quincy Jones, Bobby Shriver (o produtor musical e levantador de fundos, filho de Sargent e Eunice Kennedy Shriver) e Jamie Drummond, o diretor da Data. É uma reunião de novas idéias, e Bono espera empregar as mentes filantrópicas mais aguçadas da indústria da música para aumentar a conscientização pública para as questões centrais da Data. “Não envie dinheiro. Nós já temos”, anunciou Stipe, tentando reproduzir o envio em massa de cartões postais pedindo o cancelamento da dívida. A sala adorou. Enquanto Stipe fazia anotações, Jones se perguntava em voz alta qual parte da Agenda Data -o cancelamento da dívida, tornar as regras comerciais mais vantajosas para os países pobres ou obter mais fundos para medicamentos para Aids e para a saúde- Bono deseja que o mundo se concentre. “Eu acho que você tem questões demais. Foi assim que falhamos antes”, disse Quincy Jones, que levantou dinheiro para os famintos em 1985 como parte do USA for Africa. “Os americanos não conhecem a p__ da Filadélfia, muito menos a África. Comércio é uma questão muito complexa. Você precisa particularizar o drama para eles. Você precisa ter uma linha melódica”. Bono não estava tão certo. A reunião foi interrompida quando Bono saiu para uma sessão fotográfica. Enquanto cruzava Los Angeles de carro, ele discutiu a noção de Quincy Jones de uma linha melódica. “Do que estamos tratando? África. 70% do problema do HIV/Aids se encontra na África. Nós estamos falando de um continente explodindo em chamas, enquanto ficamos em volta com regadores. Esta é a nossa idéia. Mas quanto mais nos aproximamos dos autores de políticas, mais necessitamos de especificidade, e precisamos saber do que estamos falando. Eu vou e falo sobre cancelamento da dívida, cancelamento da dívida, cancelamento da dívida, e as pessoas dizem: ‘Mas isto é apenas uma parte do problema’”.

Aos 41 anos, Bono diz que desistiu da música como força política. Ele acredita que seu trabalho de negociação política em salas fechadas é mais vital e eficaz do que cantar para estádios lotados. “A poesia não faz nada acontecer”, escreveu certa vez o poeta W.H. Auden, e Bono tristonhamente concorda. “Eu estou cansado de sonhar. No momento eu estou mais voltado para pôr em prática. É como se no momento eu só tivesse metas que posso perseguir. O U2 lida com o impossível. Política é a arte do possível. São muito diferentes, e estou resignado com isto agora. A música é a coisa que me impede de adormecer no conforto da minha liberdade. Eu aprendi sobre a América do Sul ouvindo o Clash. Eu aprendi sobre o situacionismo com os Sex Pistols. Mas há uma grande distância entre isto e lidar com tetos orçamentários e com um Congresso que suspeita de ajuda porque tantas vezes já foi empregada indevidamente”. A música faz a diferença de uma forma: ela influencia as pessoas emocionalmente. Mas para Bono isto não é mais suficiente: “Quando você canta, você torna as pessoas vulneráveis para mudanças em suas vidas. Você se torna vulnerável para mudanças em sua vida. Mas no final, você precisa se transformar na mudança que você deseja ver no mundo. Na verdade eu não sou um exemplo muito bom disto -eu sou muito egoísta, e o direito de ser ridículo é algo que estimo muito- mas mesmo assim, eu sei que é verdadeiro”.

Thomas Kelly – A Testament of Devotion – Nova Iorque: Harper and Brothers, 1941

O problema que examinaremos hoje carece de pouca introdução. Nossas vidas na cidade moderna tornam-se demasiado complexas e cheias. Mesmo as obrigações que consideramos absolutamente necessárias, aumentam a cada dia, e quando percebemos, já estamos sobrecarregados de reuniões, cansados e apressados, cumprindo ofegantes uma roda viva de compromissos. Somos muito ocupados para sermos boas esposas para nossos maridos, bons maridos para nossas esposas, bons pais para nossos filhos, e bons amigos para os nossos amigos, e não temos tempo algum para sermos amigos daqueles que não tem amigos. Mas se nos retiramos desses compromissos para passarmos algumas horas com a família, as responsabilidades da cidadania sussurram no nosso ouvido e perturbam o nosso sossego. As escolas dos nosso filhos exigem o nosso interesse, os problemas da comunidade merecem nossa atenção; as questões mais amplas da nação e do mundo pesam sobre nós. Nosso status profissional, obrigações sociais, participação em tal ou qual organização muito importante – tudo isso reivindica nosso tempo.

Com uma finalidade frenética, tentamos cumprir o mínimo aceitável de compromissos, mas vivemos esgotados e exaustos. Reconhecemos e lamentamos o fato de que nossa vida está se esvaindo, dando-nos tão pouco da Paz, gozo e serenidade que pensamos que deverá proporcionar a uma alma superior. Os momentos para as profundezas do silêncio do coração parecem tão raros. Com uma tristeza culposa adiamos para a semana que vem aquela vida mais profunda de serenidade inabalável na Santa Presença, onde sabemos que está o nosso verdadeiro lar, porque esta semana está muito cheia. Mas não devemos desperdiçar tempo numa mera descrição do problema.

E, embora todos gostemos de ter piedade de nós mesmos, não devemos ficar apenas lamentando a pobreza da nossa vida causada pela superabundância de oportunidades. Nem tão pouco devemos nos agarrar apressadamente a uma solução, num impulso de fazer com que, hoje pelo menos, tenhamos algum progresso a mostrar. Podar e aparar é preciso, mas não com precipitação, antes de procedermos a um exame da árvore que podamos, do ambiente em que ela vive, e da seiva que a alimenta.

Sugiro, em primeiro lugar, que estamos dando uma explicação falsa da complexidade de nossas vidas. Culpamos o ambiente complexo. Nossa vida complexa, dizemos, é devido ao mundo complexo em que vivemos, que nos proporciona mais estímulos por hora que os nossos avós recebiam por dia. Essa explicação em termos de ordem exterior nos leva às vezes a ansiar pela vida de uma tranqüila ilha do Pacífico, ou então pela existência lenta e bucólica dos nosso bisavós.

Mas posso assegurar-lhe: experimentei por um ano a vida de uma ilha do Pacífico, e descobri que os ocidentais levam para lá a mesma existência impulsiva e febril que já possuíam. A complexidade do nosso programa não é devido à complexidade do nosso ambiente, e nem à simplificação da vida seguirá a simplificação do ambiente. Confesso que sofri terrivelmente naquele ano no Havai, porque em alguns aspectos o ambiente era simples demais. Nós ocidentais tendemos a pensar que nossos problemas são externos, ambientais. Não somos experimentados na vida interior, onde estão as verdadeiras raízes do nosso problema. Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior… Continua na proxima semana.

Minha amiga, a irmã Lina “Hoje, a grande moda é premiar empresas socialmente responsáveis, não entidades que há muito vêm fazendo o bem sem alarde” Ilustração Ale Setti Eu conheço uma verdadeira santa. Não é todo mundo que tem esse privilégio. Vou contar como a conheci, para que todos façam o mesmo e descubram outras santas escondidas por aí. Trinta anos atrás criei um prêmio para as melhores empresas do país, o Melhores e Maiores. Decidi então criar o Prêmio Bem Eficiente, para entidades beneficentes.

Alice Carta levou-me para conhecer uma entidade superséria, e quando cheguei lá ouvi a palavra lepra (hanseníase). Fiquei em pânico, queria sair dali o mais rápido possível. Foi quando a vi pela primeira vez. É uma religiosa de 81 anos, que há 49 veio jovem da Itália cuidar dos hansenianos do Brasil. Perdeu 9 quilos na viagem e ainda se esqueceram de buscá-la quando desceu do navio. Na época existia uma lei de confinamento para as pessoas portadoras desse mal – todas eram obrigatoriamente enclausuradas num asilo, em Guarulhos. Era uma prisão perpétua, e ninguém queria cuidar deles, nem amigos nem parentes, com exceção da irmã Lina. Não dando importância ao fato de que provavelmente também contrairia a doença, ela viveu ali cuidando de mais de 1.000 hansenianos, onde ficou nada menos que trinta anos se dedicando a eles. A história não pára por aí. Com os avanços da medicina da época, o mal foi quase erradicado, e isso permitiu que a irmã Lina mudasse de preocupação (o problema ainda é grave em algumas regiões do país). Então, ela criou uma creche para os filhos de hansenianos e dedicou-se a eles por mais dezenove anos, até ficarem adultos. Não satisfeita, ela tem uma entidade que cuida de 500 crianças abandonadas, uma das mais eficientes que já vi. As crianças são felizes, têm uma auto-estima que raramente vejo nos alunos das escolas de bairro. Tive o privilégio de conferir, por duas vezes, o Prêmio Bem Eficiente a sua instituição, e ela será novamente contemplada, no dia 14 de maio, mas isso não é mais notícia.

Hoje, a grande moda é premiar empresas socialmente responsáveis, não entidades que há muito vêm fazendo o bem sem alarde. Já existem dez prêmios para empresas com nomes como A Empresa Cidadã, A Empresa Social, A Empresa Responsável. Antigamente, marketing social era o que as entidades faziam para aparecer. Agora significa tornar empresas socialmente visíveis a todo custo. Doar anonimamente, como rezam todas as religiões, nem pensar.

A filantropia por parte de empresas vem caindo ano a ano, porque muitas preferem montar o próprio instituto com o nome da marca da empresa. Em vez de uma Fundação Bill Gates, no Brasil privilegiam-se a “marca” e o marketing da empresa. Ao se decidirem por um projeto próprio, muitas companhias preferem não mais apoiar causas como a hanseníase, a prostituição infantil, o abuso sexual, a velhice, a cegueira, considerados “mercadologicamente incorretos”. Departamentos de marketing de empresas “socialmente responsáveis” acham melhor apoiar causas como educação, crianças ou ecologia. Criança é mais fotogênica que idoso ou leproso. Empresa não quer, nem pode, ter sua marca associada a um problema social “mercadologicamente incorreto”, e quem perde são os mais necessitados.

Não bastasse tudo que a irmã Lina já fez pelo Brasil, longe de sua família e da ajuda do governo italiano, ela luta agora para salvar seu hospital, em Guarulhos, que vem mantendo com muito esforço. Já pediu a Deus e a todo mundo os 3 milhões de reais de que precisa para completar o que será sua última obra. Não vou dar o nome de sua instituição, seu endereço nem seu nome completo, porque quero que todos saiam e procurem os milhares de santas que ainda temos por aí, desconhecidas, esquecidas e cada vez mais abandonadas. Obrigado a todas as irmãs Linas por tudo o que fazem por este país.
Stephen Kanitz

A Sinfonia do Perdão
Jorge Camargo
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“Na última terça-feira (21/11), minha mãe Vanira, levantou mais cedo que de costume. Sentou na cadeira da sala de jantar e puxou uma conversa leve e descompromissada com meu pai.

Surpreso com sua presença inesperada, seu Jorge, o “preto” como era carinhosamente chamado por ela, esticou o bate-papo.

Minutos depois, ela reclamou de uma dor no peito e foi se deitar. Ele a acompanhou.

Ao lado da cama, a frase inesperada: “Preto, me perdoe. Me perdoe pelas palavras ásperas e pelas dores que lhe causei nesses anos juntos (quarenta e seis, pra ser mais exato).

“Eu é que te peço perdão!”, ele respondeu.

Foram as últimas palavras de minha mãe.

Naquele quarto apertado de uma casa pequena e simples perdida na periferia da grande cidade uma obra de rara beleza foi executada. O tema? A Sinfonia do Perdão.

Aqui nesse mundinho fétido, apenas dois seres que se amaram e que foram cúmplices e parceiros de vida ouviram-na em toda a sua exuberância.

No céu, míriades de anjos e Seu Grande Compositor testemunharam-na.

Minhas lágrimas apenas captaram o eco de seus últimos acordes e registraram-na em minha alma como a mais linda obra musical que eu ouvi em toda a minha vida.”


O poder da validação
Stephen Kanitz

“Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem” Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os superconfiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho. Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator relaxa e parte tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada artigo que escrevo e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam. Insegurança é o problema humano número 1.

O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir essa insegurança? Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora de nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.

Segurança depende de um processo que chamo de “validação”, embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor. Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja.

O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição. Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: “Você tem significado para mim”. Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: “Gosto de você pelo que você é”. Quem cunhou a frase “Por trás de um grande homem existe uma grande mulher” (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar. Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo.

Estamos tão preocupados com a própria insegurança que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o “máximo” que esquecemos de dizer a nossos amigos, filhos e cônjuges que o “máximo” são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos. Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se ou dominar os outros em busca de poder. Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos. Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia.

Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um “valeu, cara, valeu”. Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

SENTIR-SE AMADO
Martha Medeiros

O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama. Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado. Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também? Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. “Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho”. Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. “Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando?

Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato.” Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.

O ditongo nasal tônico “ão” é uma singularidade da lingua portuguesa
Veja como Lenine brinca com esta característica da Nossa Lingua

Ecos do ão Acústico MTV

Composição: Lenine e Carlos Rennó

Rebenta na Febem rebelião
um vem com um refém e um facão
a mãe aflita grita logo: não!
e gruda as mãos na grade do portão

aqui no caos total do cu do mundo cão
tal a pobreza, tal a podridão
que assim nosso destino e direção
são um enigma, uma interrogação

Ecos do ão

e, se nos cabe apenas decepção,
colapso, lapso, rapto, corrupção?
e mais desgraça, mais degradação?
concentração, má distribuição?

então a nossa contribuição
não é senão canção, consolação?
não haverá então mais solução?
não, não, não, não, não…

Ecos do ão

pra transcender a densa dimensão
da mágoa imensa então, somente então
passar além da dor da condição
de inferno e céu nossa contradição

nós temos que fazer com precisão
entre projeto e sonho a distinção
para sonhar enfim sem ilusão
o sonho luminoso da razão

Ecos do ão

e se nos cabe só humilhação
impossibilidade de ascensão
um sentimento de desilusão
e fantasias de compensação

e é só ruina, tudo em construção
e a vasta selva, só devastação
não haverá então mais salvação?
não, não, não, não, não…

Ecos do ão

porque não somos só intuição
nem só pé-de-chinelo, pé no chão
nós temos violência e perversão
mas temos o talento e a invenção

desejos de beleza em profusão
ideias na cabeça, coração
a singeleza e a sofisticação
o choro, a bossa, o samba e o violão

Ecos do ão

mas, se nós temos planos, e eles são
o fim da fome e da difamação
por que não pô-los logo em ação?
tal seja agora a inauguração
da nova nossa civilização
tão singular igual ao nosso ão
e sejam belos, livres, luminosos
os nossos sonhos de nação.

Ecos do ão
Ecos do ão

Uma animação MUITO BOA

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“….Também tem aquela síndrome de forte apache, né? A gente compra o brinquedo, monta o brinquedo e… de repente, aquele vazio! O que fazer? Ora, comprar outro! E, evidentemente, botar fogo no forte apache para ensaiar, quem sabe, um dia, botar fogo num mendigo. É no consumir por consumir que nasce o vício, essa patologia contemporânea. E o vazio, hospedeiro do vício, é o que a nossa sociedade mais sabe produzir. MACONHA? SUCRILHOS! CROP DUSTERS! Vício de Internet, de televisão, de sexo, de religião, paraísos artificiais, shopping centers, felicidades químicas… Espíritos famintos! Essa é a mãe de todas as misérias! Mania de mania, apartheid social, psicopatia social, com açúcar, sem afeto. A grande doença é o vazio de querer encher o vazio sempre com coisas externas a sua existência, externas a você… COMPRE BATON! COMPRE BATON! Ter o Outro, comer o Outro, não enxergar o Outro…..”

Lobão

http://www.bravonline.com.br/revista/bravo53/ensaio/index.php

Tem algumas coisas que discordo neste texto, mas é retendo o que é bom, vale apena ler. O texto me fez lembrar uma passagem de Eclesiastes 11 de 4 a 6

“4Se estiveres à espera das condições ideais para realizar qualquer coisa, nunca farás nada – quem está sempre a observar o vento, de que lado está ou não está, nunca chegará a semear nada; quem anda sempre a olhar para as nuvens, a ver se chove ou não, nunca segará.

5As formas de actuação de Deus são tão misteriosas como os caminhos do vento, e como a maneira pela qual o espírito do homem se introduz no pequenino corpo dum bebé, formando-se no ventre de sua mãe. Assim também não compreendes as obras de Deus, que faz todas as coisas.

6Por isso, pela manhã lança as sementes à terra, continua pela tarde; porque não sabes qual a semente que virá a crescer, se esta, se aquela, ou mesmo se todas.”

Discurso de Nizan Guanaes na formatura da FAAP

Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, sou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns. Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos. Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma.

A propósito disso, lembro-me uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: “Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo.” E ela responde: “Eu também não, meu filho”. Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar em realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna. Meu segundo conselho: pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega viver como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu. Que era ficção, mas hoje é realidade, na pessoa de Geraldo Bulhões, Denilma e Rosângela, sua concubina.

Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laudiceia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É preferível o erro à omissão. O fracasso, ao tédio. O escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tendo consciência de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado, para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não sente-se e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse!, eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansear, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios. Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.

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De repente, no melhor do sono, toca o despertador. É hora de levantar para ir à escola ou ao trabalho. Não é raro que, exatamente neste instante, se trave uma batalha importantíssima. De um lado, o sono, a preguiça, o desejo de continuar deitado sonhando com todo tipo de situações gostosas. De outro, a noção do dever, da obrigação, do compromisso assumido. A vontade mostra uma direção; a razão aponta o oposto.

Disciplina, na minha opinião, é a capacidade que permite à razão ser mais forte e vencer nossas vontades e nossa preguiça. É porque desenvolvemos essa qualidade que conseguimos fazer exercícios maçantes todos os dias na mesma hora; que evitamos comidas com muitas calorias ou prejudiciais à saúde; que nos faz abrir mão de coisas materiais para poupar e atingir um objetivo maior. Pessoas disciplinadas conseguem estudar quando, na verdade, estavam com vontade de assistir à televisão ou bater papo com os amigos.

Não resta a menor dúvida: os disciplinados terão maiores chances de sucesso nas atividades às quais se dedicarem. Entre talento e disciplina, é melhor ter os dois. Porém, a longo prazo, esta última é mais importante. Mas precisa ser conquistada. É verdade que há pessoas que aceitam melhor as contrariedades. Essa capacidade de aceitação aumenta à medida que se desenvolvem a linguagem e o raciocínio lógico. Ambos nos ajudam a compreender por que nossas vontades nem sempre podem ser satisfeitas. Aprendemos a suportar melhor a dor. A principal tarefa da educação, especialmente durante os primeiros anos de vida, seja desenvolver a razão e suas forças com o intuito de sermos capazes de “domesticar” nossas vontades.

Uma visão equivocada da psicologia nos levou, nas últimas décadas, a privilegiar o livre exercício do desejo. O papel da razão – freio limitador dos impulsos – foi encarado como algo repressivo e negativo. Além disso, os pais, com medo de traumatizar os filhos e de perder o amor deles, têm fugido da tarefa, às vezes desagradável, de estabelecer limites e estimular as crianças a usar com eficiência a razão para dirigir suas vidas. Na educação infantil, essa é a tarefa número um dos pais. Ao aprender a utilizar a razão em benefício próprio, a criança e depois o adulto experimentam enorme satisfação quando se sentem disciplinados. Sim, porque é nestes momentos que nos consideramos animais mais sofisticados, que definimos com propriedade de racionais.

A alegria íntima de quem se levanta cedo, faz exercícios e chega na hora certa aos compromissos assumidos é algo que não pode ser subestimado. Sentimo-nos fortes quando conseguimos nos controlar – coisa muito difícil. Sentimos que vencemos a batalha mais árdua: a interior. A auto-estima cresce. E para que nossos filhos experimentem todas essas sensações tão boas, devemos lhes ensinar, desde cedo, a abrir mão de suas vontades, sempre que a razão assim achar conveniente e útil.
Texto livremente adaptado do artigo “Disciplina e Educação”, do médico Flávio Gikovate

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Antes da noticia propriamente dita, eu li no Livro “Walk On. A jornada espiritual do U2″ que uma vez uma menina perguntou ao Bono, como ele se diz cristão se foi capaz de se vestir de diabo numa turnê? Se não me engano na Zoo TV. Em resposta, ele perguntou se ela nunca tinha lido “As cartas de um diabo e seu aprendiz”.

Cartas de um diabo a seu aprendiz sai em 2008
Marcelo Hessel

Depois de As Crônicas de Narnia, outro livro de C.S. Lewis será adaptado às telas. É o igualmente cristão Cartas de um diabo a seu aprendiz , nome em português de The Screwtape Letters, romance de 1942.

Ao contrário de Narnia, que alegoriza abertamente passagens do Calvário, as Cartas recorrem à ironia. Nelas, um demônio experiente, Screwtape (em português, Fitafuso), ensina a seu sobrinho aprendiz as táticas para minar a fé dos humanos e promover o pecado. O sobrinho, conhecido por aqui como Vemebile, se chama Wormwood no original – é o nome que o quadrinista Bill Watterson, inspirado em Lewis, deu para a professora nas tirinhas do Calvin.

O filme será produzido, claro, pela mesma Walden Media que leva para o cinema as Crônicas. O lançamento deve ocorrer em 2008, mesmo ano em que estréia a segunda Crônica, Príncipe Caspian.

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Ta certo ! A realidade brasileira é bem diferente da americana, lá os gringos deixam de buscar 8 BILHÕES de dólares dos seus presentes, aqui, duvido que este numero chegue a um décimo disto, mas existem alguns dados interessantes… confira!!!

FREAKONOMICS: A economia dos vales-presentes

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

O que a matrícula numa academia de ginástica, um vidro de remédios com prescrição médica e um vale-presente de Natal têm em comum? Todas são coisas compradas e muitas vezes não utilizadas.

Em seu recente trabalho “Pagar para Não Ir à Academia”, os economistas Stefano DellaVigna e Ulrike Malmendier mostraram que as pessoas que compram um título anual para um clube de ginástica superestimam em mais de 70% o quanto elas realmente o usarão. Muitas pessoas, portanto, fariam melhor comprando passes mensais ou diários.

A Cochrane Collaboration, um grupo de pesquisas de saúde baseadas em evidências, divulgou recentemente um relatório sobre pacientes que deixam de tomar seus remédios. “As pessoas para as quais se prescrevem medicamentos auto-administrados geralmente tomam menos da metade das doses prescritas”, disse o trabalho. Embora isso possa ser mais perturbador como questão médica do que financeira, de todo modo é verdade que nossos armários de remédios estão cheios de bilhões de dólares em remédios não utilizados.

Quanto aos vales-presentes – bem, vamos dizer apenas que há um bom motivo para eles serem conhecidos na indústria de varejo como “produto de valor armazenado”: eles armazenam seu valor muito bem, e com freqüência permanentemente. A firma de pesquisas de serviços financeiros TowerGroup estima que dos US$ 80 bilhões gastos em vales-presentes em 2006 cerca de US$ 8 bilhões jamais serão descontados – “um impacto maior sobre os consumidores do que o total combinado das fraudes com cartões de débito e de crédito”, comenta a Tower. Uma pesquisa da Marketing Workshop Inc. descobriu que somente 30% dos que recebem um vale-presente o utilizam um mês depois de recebê-lo, enquanto a “Consumer Reports” estima que 19% das pessoas que receberam vales-presentes em 2005 não os utilizaram.

Considerando que dois terços de todos os compradores de Natal em 2006 pretendiam dar a alguém um vale-presente, você provavelmente recebeu um nas últimas semanas. Talvez você esteja entre a excepcional minoria que já o utilizou, ou o fará brevemente. Mas pelas estatísticas ele acabará ficando na sua gaveta de meias.

Isso quer dizer que um vale-presente é um mau presente? A resposta depende de para quem você pergunta e também exige outra pergunta: afinal, o que um presente pretende conquistar?

Um economista poderia descrever um presente como um mecanismo de sinalização que permite que uma pessoa diga a outra que: a) está pensando nela; b) se importa com ela; c) quer lhe dar alguma coisa que ela vai valorizar.

É claro que há muitos tipos diferentes de receptores e de relacionamentos. É muito fácil dar presentes para pessoas que não têm dinheiro ou condições de obter as coisas por si mesmas – as crianças, por exemplo. Como uma criança não pode se conduzir até a loja de brinquedos e provavelmente não tem muito dinheiro próprio, dando-lhe um brinquedo você estará expandindo substancialmente o conjunto de coisas a que ela tem acesso. O que torna quase qualquer presente significativo.

Com os adultos a coisa é um pouco mais complexa. Um adulto tem liberdade para comprar o que quiser, e supostamente sabe do que gosta. Por isso, idealmente, você gostaria de lhe dar algo que ele gostaria de ter, mas não sabe, ou algum tipo de prazer culpado que ele não compraria para si mesmo.

Em qualquer dos casos você está criando valor para o receptor, dando-lhe algo que na verdade vale mais para ele do que o dinheiro que você gastou.

Mas realisticamente, a maioria de nossos presentes fica muito aquém desse padrão elevado. Isso gera muita ineficiência. Em 1993, o economista Joel Waldfogel abordou esse tema em um trabalho cuja fama contínua nos círculos econômicos se deve em parte a seu título maravilhosamente perverso: “A Perda Irrecuperável do Natal”. Como os presentes “podem errar as preferências dos receptores”, argumentou Waldfogel, é provável que “o presente deixe o receptor pior do que se ele tivesse feito sua própria opção de consumo com a mesma quantia de dinheiro”. Ele concluiu que “os presentes de Natal destroem entre 10% e um terço do valor dos presentes”.

Se o fato de dar presentes destrói tanto valor, por que não adotar o caminho mais eficiente e simplesmente dar dinheiro? Obviamente, algumas pessoas fazem isso. Na pequena pesquisa entre estudantes de Yale em que Waldfogel baseou seu trabalho, os avós deram dinheiro 42% das vezes e os pais deram dinheiro 10% das vezes. Mas nenhuma vez um estudante recebeu dinheiro de sua cara-metade. Claramente existem alguns relacionamentos nos quais um presente em dinheiro é adequado, mas na maioria dos casos o tabu social esmaga o sonho dos economistas de uma troca tão maravilhosamente eficaz.

Então, se dinheiro é inadequado e comprar presentes é ineficaz, um vale-presente – não tão utilitário quanto dinheiro, mas também não tão frio – seria a solução perfeita?

Você certamente poderia defender essa tese. E para o comerciante, pelo menos, o vale-presente é uma bênção. Pense nisso: nas semanas que antecedem o Natal, milhões de pessoas visitam sua loja ou site na web e lhe dão bilhões de dólares em troca de nada mais que uma promissória de plástico que talvez nunca seja descontada. A Best Buy, por exemplo, ganhou US$ 16 milhões no ano passado em “quebra” de vales-presentes (o termo do setor para o valor de vales que foram comprados mas não descontados). Depois há o que os varejistas chamam de “gastos adicionais”: a maioria dos clientes que usam seus vales-presentes gasta parte do próprio dinheiro para comprar mercadorias mais caras que o vale.

Para o doador, enquanto isso, um vale-presente não poderia ser mais fácil. Mas a maioria dos economistas afirmaria que se o vale-presente é tão claramente bom para o doador é necessariamente ruim para o receptor: o fato de que pode ser comprado tão facilmente indica ao receptor que o doador não se esforçou muito para comprar o presente.

Afinal, o valor de qualquer presente depende enormemente da natureza da relação entre doador e receptor. O economista Alex Tabarrok, escrevendo recentemente no blog Marginal Revolution, colocou um viés ainda mais delicado nesse fato, notando que cada um de nós tem muitos “eus”, incluindo um “eu primitivo”, e que “queremos que o eu primitivo de outra pessoa fique louco por nós”. Seu conselho? “Se você quiser agradar o economista que há em mim, mande-me dinheiro. Se você quiser agradar meu eu primitivo (você sabe quem você é!), use sua imaginação.”

Por isso, este ano, se você precisar de um presente para um racionalista rígido, pense em dinheiro. Se você quiser atrair o eu primitivo de alguém, terá de usar sua imaginação. E se você espera mandar um presentinho extra para os acionistas da Best Buy, Gap ou Tiffany, considere um vale-presente.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

inusitado
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O videogame cristão “‘Left Behind: Eternal Forces” é o mais recente campo na batalha contra fanatismos religiosos nos EUA. A produtora do game alega a promoção da oração, enquanto os críticos afirmam que o jogo transmite uma mensagem de violenta intolerância religiosa.

Left Behind: Eternal Forces

O jogo de estratégia para computadores é destinado a adolescentes e baseado na popular série de romances cristãos “Left Behind”, escrita por Tim LaHaye e Jerry Jenkins. O cenário é Nova York e a ação transcorre depois que milhões de cristãos foram transportados para o paraíso. A missão dos jogadores é recrutar e converter um exército que travará uma grande “Cruzada” contra o Anticristo e seus seguidores.

O “Campaign to Defend the Constitution”, que monitora as atividades da direita religiosa, diz que o jogo é violentamente pró-cristão, apresentando uma petição à gigante do varejo Wal-Mart para que suspenda as vendas do produto.

“Depois que o jogador mata alguém, precisa recarregar seus pontos de alma ajoelhando e orando. Acredito que a mensagem [pró-cristãos] seja extremamente clara”, disse Clark Stevens, co-diretor da Campaign to Defend the Constitution.

A produtora do jogo alega que “o jogo perpetua a oração e o culto religioso, e não há matança em nome de Deus”, disse Troy Lyndon, presidente-executivo da Left Behind Games. “Há mortes, é claro, pois estamos falando de um videogame. Mas a base do jogo é o bem-estar espiritual”, disse Lyndon à Reuters.

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CONTARDO CALLIGARIS

O poder da reza

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Mistério: estudo mostra que uma reza retroativa ajudou pacientes anos depois da internação
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UM AMIGO médico, Décio Mion, me fez conhecer um estranho debate que ocupou, de 2001 a 2003, as páginas do seríssimo “British Medical Journal”.
Premissa: várias pesquisas, há tempos, mostram os efeitos positivos da reza numa variedade de condições patológicas. Documenta-se que o doente encontra benefícios (quanto ao andamento de sua enfermidade) no ato de rezar ou na consciência de que seus próximos rezam por ele. Até aqui, tudo bem: o paciente acharia assim uma paz de espírito que melhora sua evolução.
A coisa se complica: às vezes, as pesquisas mostram que a prece traz benefícios mesmo quando alguém reza por um doente sem que ele próprio saiba disso. Como explicar esses casos?
Talvez o benefício seja fruto de uma intervenção caridosa da divindade solicitada, mas essa explicação depende de um ato de fé que não cabe na interpretação de uma pesquisa científica. Além disso, é curioso que os benefícios apareçam seja qual for o deus ou o intercessor que receba a oração.
Resta, pois, imaginar que a intenção humana (o esforço cerebral de quem deseja que algo aconteça e reza por isso) tenha alguma realidade material (energia, partículas etc.) capaz de influir no andamento de um processo patológico. Estranho?
Nem tanto: afinal, até poucas décadas atrás, ignorávamos a existência de uma série de partículas que, segundo a física de hoje, povoam nosso universo. Por que as nossas intenções não movimentariam uma energia desconhecida, mas capaz de alterar o mundo físico? Nos EUA, nos anos 60-70, foram organizadas reuniões diante da Casa Branca com a idéia de que, se todos se concentrassem, a energia do dissenso faria levitar a residência do presidente americano. Embora cético, participei, convencido por um amigo que dizia: “Tentar não dói”. Claro, não funcionou.
Ora, no fim de 2001, o “British Medical Journal”, depois de um editorial lembrando que a razão não explica tudo, publicou uma pesquisa, de L. Leibovici (BMJ, 2001, 323), que registra os efeitos benéficos (em pacientes com septicemia) de uma reza afastada não só no espaço, mas também no tempo. Explico.
Foram incluídos no estudo todos os pacientes internados com septicemia, de 1990 a 1996, num hospital israelense; eram 3393. Em 2000 (de quatro a dez anos mais tarde), por um processo rigorosamente aleatório, os arquivos desses pacientes foram divididos em dois grupos: um grupo pelo qual haveria reza e um grupo de controle. Para cada nome do primeiro grupo, foi dita uma breve reza que pedia a recuperação do paciente e do grupo inteiro.
Resultado: no grupo que recebeu uma reza em 2000, a mortalidade foi (ou melhor, fora, de 90 a 96) inferior, embora de maneira pouco significativa; no mesmo grupo, a duração da febre e da hospitalização fora (ou melhor, havia sido, de 90 a 96) significativamente menor.
A publicação da pesquisa provocou uma enxurrada de cartas (BMJ, 2002, 324), algumas contestando as estatísticas, outras manifestando uma certa incompreensão do problema, que é o seguinte: como entender que uma reza possa agir não só sem que o paciente tenha consciência da intercessão pedida (com possível efeito psicológico positivo), mas à distância no tempo? Como entender, em suma, que uma reza dita em 2000 tenha um efeito retroativo em alguém que estava doente entre 90 e 96, quando a pesquisa e a reza nem sequer estavam sendo cogitadas?
Uma tentativa de resposta veio em 2003. O “BMJ” (2003, 327) publicou um interessante e enigmático artigo de Olshansky e Dossey, “History and Mystery” (história e mistério), em que os dois médicos dão prova de conhecimentos de física quântica muito acima de minha cabeça. O argumento de fundo é o seguinte: há modelos do espaço-tempo nos quais é possível que haja relações físicas entre o passado e o presente (ou seja, modelos em que o presente pode alterar o passado).
Que o leitor não me peça para explicar como isso aconteceria. As dimensões do “espaço de Calabi-Yan” e os “campos bosônicos”, para mim, são tão obscuros quanto os ectoplasmas, os espíritos e os milagres.
Moral da história: embaixo do sol (ou da chuva), deve haver muito mais do que imaginamos, até porque nossa ciência está longe de ser acabada. Alguns colegas positivistas talvez durmam mal com esse barulho.
Eu não acredito nas paranormalidades, mas, em geral, durmo melhor ninado pelo mistério do que pelas certezas.

ccalligari@uol.com.br

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Frisson cerebral A beleza feminina causa, sim, reações primitivas nos homens Ao ser indagado por que os homens cultuam a beleza física, Aristóteles abandonou momentaneamente a retórica e mostrou o seu lado borracheiro – houvesse, é claro, borracheiros na Antiguidade. “Só um cego faria essa pergunta”, disse ele. Basta uma olhadela na foto de Gisele Bündchen aí ao lado para perceber a conexão entre filosofia grega e borracharia brasileira. E – aqui está a novidade – entre filosofia grega, borracharia brasileira e ciência americana. Não se acanhe, prezado leitor, em devorar com os olhos a modelo gaúcha. Essa sua compulsão é pura química cerebral. Pesquisadores da Universidade Harvard mapearam a atividade do sistema nervoso central de homens heterossexuais, de 21 a 35 anos, e descobriram que a visão de uma mulher atraente causa frisson em algumas das áreas mais primitivas do cérebro.

 

Principalmente no núcleo acumbens e na amígdala, responsáveis por funções como a manutenção da temperatura do corpo e da pressão arterial e por determinadas sensações de prazer. Do ponto de vista cerebral (masculino heterossexual, enfatize-se), uma mulher bonita causa as mesmas reações da cocaína em cocainômanos e da aposta em dinheiro em jogadores inveterados. Enfim, a beleza tem efeito parecido ao do vício, com a vantagem de não fazer mal. Publicado na revista americana Neuron, uma das mais importantes no campo da neurologia, o estudo de Harvard também analisou a resposta do cérebro de homens heterossexuais a mulheres feias e homens bonitos. Em ambos os casos, a região que se manifestou mais intensamente foi a ligada aos sentimentos de aversão.

 

A explicação é que as feiosas não têm atributos evolucionários suficientes e que os bonitões, nas profundezas cerebrais mais recônditas, representam uma ameaça na disputa por uma parceira ideal – é melhor tê-los longe do que perto. Por atributos evolucionários, que Gisele Bündchen tem de sobra, entenda-se características como o maxilar delicado, o queixo pequeno, os olhos grandes em relação ao comprimento do rosto, os lábios carnudos e as maçãs da face salientes. Tudo isso indica que o organismo da mulher tem baixos níveis de hormônios masculinos e abundância de estrógenos, os hormônios sexuais femininos. Gisele, portanto, é bonita porque exibe as qualidades de uma boa reprodutora. A diferença de medidas entre cintura e quadris também é um dado importante para uma boa avaliação por parte do macho reprodutor. O melhor é que a cintura da mulher tenha, em média, de seis a oito décimos do tamanho dos quadris. Essa proporção, segundo a psicóloga americana Nancy Etcoff, pesquisadora de Harvard e autora do livro A Lei do Mais Belo, é apreciada no mundo todo, independentemente dos padrões deste ou daquele país. Motivo biológico: sinaliza boa saúde e fertilidade. Ah, sim, Gisele tem 59 centímetros de cintura e 89 de quadris. Proporção de 0,66. O estudo americano é interessante porque prova que a beleza é uma categoria que está longe de ser definida apenas culturalmente. Nesse aspecto, ele bate de frente em certas teorias conspiratórias. Uma delas é que o belo não passa de uma invenção dos manda-chuvas da indústria de cosméticos, da moda, do cinema e da televisão. Dessa maneira, eles imporiam um rodízio de padrões estéticos, para faturar cada vez mais alto.

 

As feministas mais coléricas chegam a dizer até que a beleza é uma forma encontrada pelos homens para subjugar as mulheres. “A beleza é um sistema monetário, assim como o ouro. É o último e o melhor sistema de crenças que mantém a dominação masculina intacta”, lê-se em O Mito da Beleza, da americana Naomi Wolf. É impressionante a capacidade de fantasiar dessas pessoas que acham que feiúra, sim, é fundamental. Ciência americana, borracharia brasileira e filosofia grega nelas.

Karina Pastore

 

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AMORES PLATÔNICOS

Todos os adultos do mundo já tiveram ao menos um amor platônico. O aluno pela professora, a professora pelo vocalista da banda, o vocalista pela vizinha do terceiro andar, a vizinha pelo chefe casado, o chefe pela cunhada. É o poético Maria que amava Jorge que amava Suzana que amava Luiz que amava Fátima que não amava ninguém. Tá assim, ó. Muitos deles estão sozinhos até hoje. Outros estão acompanhados, mas cultivam um amor secreto, o que os faz sentir sozinhos também. Só não está sozinho quem está apaixonado e sendo plenamente correspondido. O resto vai passar a semana dos namorados praticando seu esporte favorito: fantasiar. Ninguém escolhe vivenciar um amor platônico, mas quando isso acontece, muitos, sem perceber, apegam-se a ele, pois é um amor idealizado, romântico, sofrido, que nos faz sentir heróicos por suportá-lo apesar de todas as dificuldades.

O platonismo nos torna vítimas de um amor impossível, e há quem goste de desempenhar este papel, pois ele atrai a piedade dos outros ao mesmo tempo que nos isenta de ir à luta. É difícil medir o quanto há de amor verdadeiro e o quanto há de autoflagelo em alimentar um sentimento não retribuído. O amor precisa ser uma via de mão dupla. Ele sobrevive através do dar e do receber. Amar sem ser amado é uma coisa que acontece todos os dias em todos os lugares, mas a manutenção deste amor depende da pessoa que ama: ou ela tenta escapar desta armadilha, abrindo espaço para que um amor mais concreto e saudável venha preenchê-la, ou ela morre de esperança. A vida é curta e não merecemos dedicar tanto tempo a um amor que não se realizará jamais.

Os românticos dirão que é melhor um amor vivenciado unilateralmente do que amor nenhum. No meu dicionário, isto é falta de auto-estima. São pessoas que dão de comer a fantasmas: ficam olhando fotos, provocando encontros “casuais” e sonhando com cenas perfeitamente plausíveis em uma novela mexicana, mas não na vida real. Se o alvo da nossa paixão está disponível e tem uma vaga noção da nossa existência, tudo bem tentar realizar este amor, pois ele é viável. Já o amor platônico é, por definição, estéril. Só gera solidão.

Martha Medeiros

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O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração. Liberdade não é uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço. Diga-me qual é a sua tribo e eu lhe direi qual é a sua clausura. São cativeiros bem mais agradáveis do que Carandiru: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luis Estevão, só que temos que advogar em causa própria e habeas corpus, nem pensar. O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos vôos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza. Viver sem laços igualmente pode nos reter. Uma vida mundana, sem dependentes pra sustentar, o céu como limite: prisão também. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes. Nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós – nascer – foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria, exclusão. Brindemos: temos todos, cela especial.

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Para você ganhar belíssimo
Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido),

Para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas
do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama,
se compreende, se trabalha,

Você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções para
arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro
e gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo
de novo, eu sei que não é fácil, mas tente,
experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila e
espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

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por Laymert Garcia dos Santos

A aceleração tecnológica e econômica é tal que até mesmo o atual é ultrapassado: tudo o que é… já era; a atenção concentra-se não no que é, mas no vir-a-ser

Há poucos dias, o caderno Mais! publicou, entre as “Cartas para as Futuras Gerações” que a Unesco encomendou a personalidades mundiais, um texto de Nadine Gordimer intitulado “A Face Humana da Globalização”. Nele, a questão do consumo encontra-se no cerne das preocupações da escritora sul-africana e de sua argumentação. É que, em seu entender, a globalização só seria efetivamente global se o desequilíbrio do consumo fosse corrigido, favorecendo o desenvolvimento sustentável para todos os habitantes do planeta. Escreve Gordimer: “O consumo descontrolado no mundo desenvolvido erodiu os recursos renováveis, a exemplo dos combustíveis fósseis, florestas e áreas de pesca, poluiu o ambiente local e global e se curvou à promoção da necessidade de exibir conspicuamente o que se tem, em lugar de atender às necessidades legítimas da vida. Enquanto aqueles de nós que fizeram parte dessas imensas gerações de consumidores precisam consumir menos, para mais de 1 bilhão de pessoas consumir mais é uma questão de vida ou morte e um direito básico -o direito de libertar-se da carência”.

As migalhas

Assim expressa a escritora o desequilíbrio básico que quase ninguém mais desconhece: o fato de 20% da população mundial consumir 80% dos recursos produzidos no planeta, enquanto o restante, composto por aqueles que o subcomandante Marcos qualifica de “descartáveis”, sobrevive com as migalhas. O interesse de seu argumento, porém, consiste em vincular o consumo descontrolado à carência, unindo o destino de ricos e pobres em torno do excesso e da falta. Sua “démarche” lembrou-me o itinerário exemplar do militante socioambientalista Alan Durning, que começou estudando as razões que impelem os pobres do Terceiro Mundo a destruírem o ambiente e depois, remontando as conexões, acabou descobrindo que o problema do esgotamento dos recursos do planeta se encontrava no desperdício das camadas privilegiadas dos países do Norte. Num livro que interroga as razões e os limites da insaciabilidade consumista dos desenvolvidos, Durning escreve: “No início dos anos 90, os americanos médios consumiam, direta ou indiretamente, 52 quilos de materiais básicos por dia: 18 quilos de petróleo e carvão, 13 de outros minerais, 12 de produtos agrícolas e 9 de produtos florestais. O consumo diário nesses níveis traduz-se em impactos globais que se equiparam às forças da natureza. Em 1990, as minas que exploram a crosta terrestre para suprir a classe consumista moveram mais terra e rocha do que todos os rios do mundo juntos. A indústria química produziu milhões de toneladas de substâncias sintéticas, mais de 70 mil variedades, muitas das quais mostraram-se impossíveis de serem isoladas do ambiente natural. Os cientistas que estudam a neve da Antártida, os peixes de mares profundos e as águas subterrâneas encontram resíduos químicos feitos pelo homem”. Os especialistas sabem que não se pode resolver a questão na ponta da carência sem tocar na do excesso, porque já está demonstrado que o “american way of life” não pode se universalizar, pela simples razão de que não há recursos renováveis para tanto e nem o planeta aguenta. Até no Banco Mundial já se discutiu que o modelo é insustentável, e no entanto sua dinâmica prossegue mais atuante do que nunca. Nadine Gordimer lança um apelo às futuras gerações para que enfrentem o crônico problema do desequilíbrio da distribuição; no entanto, fica a pergunta: será que faz sentido acreditar nessa possibilidade e apostar numa globalização “com face humana”?

Material e libidinal

A globalização parece ser a consagração máxima do capitalismo, a sua expansão tanto no plano macro quanto no micro a níveis até então inimagináveis. Ora, desde o início da década de 70, Deleuze e Guattari já advertiam que o capitalismo vive da carência, que a falta é constitutiva do seu sistema de produção e consumo. Mas eles não estavam se referindo à carência por necessidade, que escraviza os pobres, e sim à carência no âmbito do desejo, que move o impulso do consumidor ocidental. Como se à miséria material dos pobres correspondesse a miséria libidinal dos ricos, habilmente manipulada pelas forças do mercado. Se isso é verdade, dada a penetração ao mesmo tempo global e molecular do capitalismo contemporâneo, faz sentido então pensar que a carência atinge agora uma dimensão gigantesca -buraco tanto maior na medida em que a crise ambiental dos anos 80 explicitou para as consciências os limites da exploração da natureza e, com eles, a insustentabilidade do crescimento econômico. Instaurou-se, assim, como que uma espécie de situação exasperante: pois no momento mesmo em que as forças do capitalismo penetravam em toda parte, suscitando novas demandas, abrindo e aprofundando carências reais e imaginárias, ficava evidente que o sistema passara a ser excludente por não poder incorporar a todos no universo dos consumidores. O que evidentemente teve grande efeito tanto nos que ficavam de fora quanto nos de dentro. As promessas de que o desenvolvimento tecnocientífico iria permitir a inclusão progressiva de todos numa sociedade moderna esfumaram-se e só se mantêm no ar graças ao assédio permanente que as mídias e a publicidade fazem à mente dos espectadores. Ao fim da utopia socialista correspondeu o fim da tríade liberdade-igualdade-fraternidade, que embasava politica e ideologicamente a sociedade capitalista, tornando a integração na vida econômica e a ascensão social cada vez mais problemáticas. O progresso tecnocientífico, que no entender de Buckminster-Fuller permitiria a definitiva superação do “ou eu ou você” pelo “eu e você”, ampliou -em vez de diminuir- as distâncias entre as classes e entre os países. A lógica da sobrevivência se aguçou mais do que nunca com o acirramento da competição pelos recursos, pelo desenvolvimento tecnológico, pelos postos de trabalho que a reestruturação produtiva foi tornando cada vez mais escassos. O darwinismo social legitimou e naturalizou o “ou eu ou você”, intensificando a luta pela sobrevivência, agora ainda mais perversa com a introdução da questão da competência tecnológica. Com efeito, à “classe mundial” e à “classe virtual” passou-se a atribuir uma superioridade incontestável, que lhes confere ares de uma outra humanidade -o que, aliás, prepara o terreno para o melhoramento genético das elites, que inauguraria uma segunda linha de evolução da espécie humana, tal como é preconizado pelos entusiastas da biotecnologia e até mesmo por geneticistas respeitáveis. Mas deixemos de lado os excluídos, pois, embora imersos na carência criada pelo capitalismo, não participam do universo do consumo -o que, no Brasil, sempre é bom lembrar, significa mais ou menos uns 70% da população. Fiquemos apenas com a sociedade dos incluídos. O que se passa com eles? Antes de mais nada, cabe ressaltar que, com a consagração da aliança entre a tecnociência e a economia, e com o fim da política que dela decorre, os incluídos viram cada vez mais sua condição de cidadãos ser reduzida à de consumidores. A erosão dos direitos e do Direito corrói suas prerrogativas a ponto de atingir até mesmo o sacrossanto direito ligado ao consumo, pois, como observou certa vez Walnice Nogueira Galvão, o que sobrou foi o direito de consumir, não o direito do consumidor. Subordinada aos ditames do mercado, a cidadania só é concedida e reconhecida para aqueles que se encontram inseridos nos circuitos de produção e consumo; os outros passam a ser exilados no “no man’s land”, engrossando a categoria dos sem: sem-terra, sem-teto, não-pessoas sociais, sujeitos monetários sem dinheiro, para usar a expressão de Robert Kurz. Socialmente, portanto, o direito de existir passa a coincidir com o direito de consumir.

Corrida pela sobrevivência

Consumir não mais por necessidade, mas por ansiedade. Com efeito, se a identidade social de cada um se afirma na esfera do consumo e se paira no ar a incerteza quanto ao futuro e a ameaça de exclusão, como não vincular a estratégia do consumo à estratégia da sobrevivência? Consumir e sobreviver reforçam-se mutuamente. Pois tanto o consumo quanto a sobrevivência dependem do grau de inserção do sujeito na dinâmica acelerada imposta pela união da tecnociência e do capital global. Para sobreviver, bem como para consumir, é preciso correr contra a crescente obsolescência programada que as ondas tecnológicas e a altíssima rotatividade do capital reservam para pessoas, processos e produtos. Para sobreviver, bem como para consumir, é preciso se antecipar.

E aqui se encontra uma questão que talvez valha a pena considerar. A modernidade instaurara, como princípio supremo, a ruptura com os valores do passado e a consagração do novo e do inédito. Nesse sentido, o mundo moderno significou a desvalorização dos outros tempos, sacrificando a história em benefício do presente.

O interesse pelo novo, pela novidade, pelo aqui e agora, e o descarte do “velho”, do tradicional, manifestam-se em toda parte e nem precisam ser sublinhados. Mas a aceleração tecnológica e econômica é tal que até mesmo o atual acaba sendo ultrapassado: tudo o que é… já era. Nessas condições, como saciar o desejo de consumo, como preencher a falta, se o que falta se furta à nossa satisfação, qualificando-se e desqualificando-se numa velocidade sobre-humana?

A aceleração tecnológica e econômica desloca o interesse pelo atual e pelo presente, decretando, com tal deslocamento, o fim da modernidade. A atenção concentra-se não no que é, mas no vir-a-ser. O olhar se volta para o futuro; melhor dizendo: para a antecipação do futuro. Quando na década de 80 a crise ambiental tornou patente a acelerada extinção das espécies vegetais e animais no Terceiro Mundo, os países ricos, temendo o desaparecimento dos recursos genéticos tão preciosos para o desenvolvimento de sua nascente indústria biotecnológica, apressaram-se em constituir bancos genéticos “ex situ” que pudessem assegurar-lhes acesso à biodiversidade do planeta. Quando as possibilidades de terapia gênica começaram a despontar, o projeto de descodificação do genoma humano desdobrou-se no projeto Diversidade do Genoma Humano, que ambicionava coletar fragmentos do patrimônio genético de todos os povos indígenas e tradicionais do mundo em via de desaparecimento, para futuras aplicações farmacêuticas. Ainda não se sabia e muitas vezes ainda não se sabe o que fazer com tais recursos genéticos. O que importava e importa é a sua apropriação antecipada. A lógica de tais operações é a seguinte: os seres biológicos -vegetais, animais e humanos- não têm valor em si, como existentes; o que conta é o seu potencial.

A lógica que preside a conduta da tecnociência e do capital com relação aos seres vivos, agora transformados em recursos genéticos, é a mesma que se explicita em toda parte. Trata-se de privilegiar o virtual, de fazer o futuro chegar em condições que permitam a sua apropriação, trata-se de um saque no futuro e do futuro, como bem mostram essas novas operações com derivativos, produtos financeiros vendidos nos mercados futuros por bancos, fundos e corretoras que especulam com moedas, bônus e ações.”Não há mercado real”, explica John Plender, no “Financial Times”, com respeito às transações de derivativos. “Há em seu lugar complexas valorações feitas por computador, baseadas em conjecturas sobre probabilidade, volatilidade e custos futuros.”

O deslocamento do atual para o virtual é fruto da extensa tecnologização da sociedade e da intensa digitalização de todos os setores e ramos de atividade. A “nova economia”, economia do universo da informação, parece considerar tudo o que existe na natureza e na cultura -inclusive na cultura moderna- como matéria-prima sem valor intrínseco, passível de valorização apenas através da reprogramação e da recombinação. É como se a evolução natural tivesse chegado a seu estado terminal e a história tivesse sido “zerada” -e se tratasse, agora, de re-construir o mundo através da capitalização do virtual.

Frederic Jameson já havia observado, em “Post Modernism or The Cultural Logic of Late Capitalism”, que o capitalismo estava penetrando no inconsciente e na natureza e colonizando-os; mas agora ele parece investir sobre toda criação, inclusive a criação da vida; assim, a nova economia buscaria assenhorear-se não apenas da dimensão da realidade virtual, do ciberespaço, como tem sido observado, mas também e principalmente da dimensão virtual da realidade.

Ao invés do consumidor soberano moderno, sujeito de uma ação consciente, encontramos o próprio consumidor transformado em mercadoria virtual

Que papel tem o consumidor no processo de capitalização do virtual? Ao invés do consumidor soberano moderno, sujeito de uma ação consciente que consuma a realização da mercadoria através da compra, encontramos o próprio consumidor transformado em mercadoria virtual. Isso mesmo: o sujeito tornou-se objeto; mas, como foi dito antes, não um objeto presente, atual, e sim um objeto potencial, cuja reação futura aos estímulos da rede agrega valor. Como se dá essa fantástica operação? Bernard Spitz explica no “Le Monde” o que se passa: “No passado os programas mais gerais, como os filmes de grande público e os principais acontecimentos esportivos, permitiam que os canais de TV atraíssem a audiência e portanto vendessem mais caro seus espaços publicitários -e, em seguida, num segundo momento, explorassem a notoriedade desses programas vendendo produtos derivados. Agora, na economia da Net, a questão que se coloca para eles é captar o maior número de consumidores através da televisão ou de seu portal e oferecer uma vasta gama de serviços associados e de produtos sobre os quais poderão embolsar comissões. Assim, o campeão de futebol ou o herói de sitcom não servem mais só para vender audiência, mas para serem o fator de diferenciação que vai atrair o cliente para outras formas de consumo. (…) Toda a questão da estratégia consiste em apostar na valorização do assinante; administrando o seu consumo, aprende-se a controlar as alavancas da demanda. O que é um assinante senão um cliente que tornou-se fiel a uma marca?”.

“Dot-com”

Apostar na valorização do assinante-consumidor e, administrando o seu consumo, controlar as alavancas da demanda -é exatamente isso que estão fazendo as “dot-com”, as empresas da Internet que estão colonizando o ciberespaço e capitalizando o virtual através do conceito de marca. Em 99, a “dot-com mania” tomou conta de Wall Street e a valorização das ações das empresas que vendem consumidores cativos foi mais do que espetacular. Candice Carpenter, presidente da dot-com iVillage, tornou-se multimilionária no dia em que sua empresa teve seus papéis lançados na Bolsa. A estrategista de marketing vende mulheres consumidoras de 25 a 54 anos em seu site na rede. Sylvie Kauffmann, jornalista do “Le Monde”, conta a sua saga numa série de artigos que escreveu sobre “a nova economia americana”. Carpenter trabalhava na American Online no início da Internet comercial, em 94. Nessa época descobriu as comunidades minoritárias que se comunicavam através da rede; mas descobriu também que só 8% dos cibernautas eram mulheres. Convencida de que a participação feminina iria aumentar, decidiu criar um ambiente de marcas voltado para os setores que mais importam às mulheres: a família, o trabalho e a saúde. O iVillage foi criada em 95; de lá para cá o site foi construindo parcerias estratégicas, incorporando comércio eletrônico, serviços financeiros, de viagem, de beleza, de maternidade, de gestão profissional, de saúde. Em setembro de 99, o iVillage é líder em sua categoria, com 2,7 milhões de membros, 6 milhões de visitantes e um crescimento de tráfego de 14%.

A notícia mais aterradora

Na nova economia o futuro consumidor é uma mercadoria virtual. Mas uma mercadoria especial: não mais mercadoria que produz mercadorias, como nos tempos do velho Marx, mas sim mercadoria que consome mercadorias materiais e imateriais, tanto atuais quanto virtuais. Administrar o consumidor cativo, controlar as alavancas da demanda é, portanto, a quintessência da estratégia de marketing e a ambição máxima de quem deseja direcionar o futuro, antecipando a sua realização. Não foi à toa que Gilles Deleuze escreveu, em seu profético texto “Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle”: “O serviço de vendas tornou-se o centro ou a “alma” da empresa. Informam-nos que as empresas têm uma alma, o que é efetivamente a notícia mais aterradora do mundo. O marketing é agora o instrumento de controle social e forma a raça impudente de nossos senhores”.

Estaríamos nós condenados à condição de consumidores cativos? Se não, a que corresponderia, no campo dos incluídos, o direito de libertar-se da carência de que fala Gordimer, a respeito dos despossuídos? Parece-me que tanto numa ponta quanto na outra já não se trata mais de esperar pelo reconhecimento e a efetivação de direitos, visto que a própria evolução do capitalismo contemporâneo está se encarregando de destituir a cidadania em todas as frentes.

No campo dos incluídos, a libertação da carência talvez não seja uma questão jurídico-política: não há como voltar atrás para restaurar a cidadania perdida nem como almejar a sua construção, lá onde ela foi interrompida. Tanto os incluídos quanto os descartáveis encontram-se nus, diante do futuro. Como vimos, para uns e outros o capitalismo contemporâneo reserva um futuro de carência, de falta, de ansiedade e de antecipação. Mas, por mais intensa que seja a sua devoração do tempo, o capitalismo não dá conta de controlar todo o futuro, de abarcar todos os devires. O jogo não acabou.

No livro “Finite and Infinite Games”, James Carse diz o seguinte sobre o jogo: “Há pelo menos dois tipos de jogos. Um pode ser chamado de finito, o outro, de infinito. Um jogo finito é jogado com o propósito de se ganhar, mas joga-se um jogo infinito com o propósito de continuar o jogo. (…) Um jogador finito é adestrado não só para antecipar cada possibilidade futura, mas para controlar o futuro, para impedir que este altere o passado. O jogador infinito joga esperando ser surpreendido. Se não há mais surpresa, todo o jogo acaba. A surpresa causa o fim do jogo finito e, ao contrário, é a razão pela qual o jogo infinito continua. Considerando que os jogadores finitos são adestrados a impedir que o futuro altere o passado, devem esconder seus lances. Mas, como o jogador infinito está apto a ser surpreendido pelo futuro, joga em completa abertura. Abertura, aqui, não significa candura, mas sim vulnerabilidade (fragilidade). Não se trata de expor a sua identidade imutável, de expor o verdadeiro “self”, mas sim de expor-se a um crescimento contínuo, de expor o “self” dinâmico que ainda não é “self”. O jogador infinito não se limita a comprazer-se com a surpresa, mas sim espera ser transformado. Estar preparado contra a surpresa significa ser adestrado. Estar preparado para a surpresa significa ser educado. Não existem regras que obriguem a obedecer a regras. Se assim fosse, então deveria existir uma regra para essas regras e assim por diante”.O jogo não acabou, não acaba nunca -continua em outro plano, em outro paradigma, em outro espaço-tempo. Não há por que deixar-se deprimir com as novas regras da sociedade de controle e da “nova economia”; talvez seja melhor descobrir como, no jogo infinito, elas podem ser desreguladas.

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Laymert Garcia dos Santos é professor livre-docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de “Tempo de Ensaio” (Cia. das Letras), entre outros. O texto acima foi apresentado como palestra no ciclo “Cotidiano/Arte: O Consumo”, do Centro Cultural Itaú, em São Paulo, em janeiro deste ano.

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Distraída, tomei o trem errado.
E mais longe fiquei do meu destino.
Quase cedi à aventura
de seguir, à-toa
até a última parada.

As pernas, contudo, me fizeram,
feito um autômato,
saltar na primeira estação
ponto de partida
para a nova e antiga indagação.

Katsuko Shishido
Do livro: “A dor da frágil pluma”, Ed. Taturana, SP, 1982